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11/12/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (113)

Outras avarias da geringonça.

Daniel Bessa revela na sua crónica no Expresso que o programa Compete, que faz parte do Portugal-2020 financiado pelo orçamento comunitário e destinado a financiar o investimento empresarial para aumentar a competitividade, está também a ser utilizado pelo governo no financiamento da administração pública para... «reduzir os custos de contexto». O título da crónica de Bessa é muito apropriado: «Desfaçatez».

Já sabíamos que banca está a reduzir o crédito às empresas ao mesmo tempo que aumenta o crédito à habitação o que levou o BdP, escaldado pela crise, a ameaçar afunilar as regras. Ficámos também a saber pelo BdP que, em particular, o crédito às empresas exportadoras desce há 7 meses consecutivos e atingiu o valor mais baixo desde 2010. É o que se chama matar à fome uma das duas galinhas dos ovos de ouro - a outra é o turismo que em 2016 aumentou 10% em relação a 2015 e representou 7% do valor acrescentado bruto tendo o consumo dos turistas atingido 12% do PIB.

O embandeiramento em arco com o crescimento de 2,5% previsto este ano, obscurece um aspecto essencial, a saber: a produtividade, já de si claramente abaixo da média UE28, não tem melhorado. De onde todo o crescimento se tem ficado a dever à redução do desemprego e ao aumento da população activa. Isto é muito bonito se falamos de bens ou serviços não transaccionáveis, em que a concorrência internacional não se faz sentir directamente, mas claramente não melhora a competitividade das exportações portuguesas. Lá estamos outra vez a diminuir o milho para a galinha dos ovos de ouro das exportações.

Vem a propósito chamar a atenção para que o Forum para a Competitividade recomenda ao INE que apresente os dados do PIB líquidos de importações porque actualmente «"dão uma imagem muito enganadora" da realidade e conduzem a "erros muito graves" dos decisores políticos». Mas é claro que essa recomendação cai em saco roto porque iria estragar o retrato.

Os tiques intervencionistas do PS estão constantemente a vir ao de cima de cada vez que algo ameaça a atmosfera de boas notícias com que o jornalismo de causas adormece as meninges dos eleitores. Desta vez foi o relatório da avaliação PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study) mostrando que os alunos portugueses do 4.º ano foram os que mais pioraram a literacia (o que foi imediatamente atribuído por um apparatchik do ME ao governo anterior, who else?), relatório que foi emagrecido de 150 para 48 páginas e demitido João Marôco, o coordenador português do relatório.

Agora que os comunistas estão já terra de ninguém a caminho da oposição, os apparatchiks sindicais recomeçam a fazer o seu trabalho habitual. No caso da Autoeuropa, aproveitam o know-how da General Motors da Azambuja, que fechou em 2006 com a perda de 1.100 postos de trabalho, e empurram a negociação em Palmela para um impasse que pode bem acabar a prazo com 5 mil postos de trabalho. Arménio Carlos, o controleiro da CGTP, do alto da sua experiência a acabar com postos de trabalho, em resposta à possível deslocalização da fábrica, disse em entrevista ao jornal Eco «Não vão nada embora. Eles vão cá ficar.» Possivelmente, pensa ele, porque a VW fez um investimento de centenas de milhões para produzir o T-Roc. Deve ter dito o mesmo na Azambuja e a GM não foi na conversa e preferiu perder de uma só vez umas dezenas de milhões em vez perder durante anos centenas pelo efeito Lockheed TriStar. É claro que estas considerações não são compatíveis com os cérebros comunistas, cuja única parte operacional é a parte reptiliana formatada pelas lavagens dos controleiros.

Anestesiados pelo clima de euforia da eleição de um Centeno para o Eurogrupo há pouca gente a prestar atenção ao facto de as reduções do défice estarem a resultar exclusivamente das condições cíclicas e de cativações que emperrando a máquina estatal reduzem a qualidade dos já deploráveis serviços públicos e são apenas adiamentos de despesa que no futuro serão multiplicados. Foi isso que disse a equipa de missão que levou a cabo a 6.ª Avaliação Pós-Programa de Ajustamento mas ninguém lhes ligou. Nem aqui nem em Bruxelas, onde têm mais sarna para se coçar e enquanto a coisa parecer correr bem e o sol brilhar nas economias europeias apenas escrevem estas coisas pro memoria limpando as responsabilidade futuras

E, não obstante, as coisas são visíveis para quem as queira ver. Como Miranda Sarmento, que, uma vez mais, mostra aqui que dos 11 mil milhões de dividendo orçamental disponível para reduzir o défice entre 2016 e 2018 o governo apenas usou 3,3 mil milhões.

Sobre a dívida pública há uma boa notícia e duas más notícias. A boa notícia é que foram amortizados em Outubro 6 mil milhões de euros. A primeira má notícia é que daí só resultou uma redução da dívida em 3,9 mil milhões de euros e a segunda má notícia é que a dívida pública líquida de depósitos aumentou 1,1 mil milhões de euros. Ou, dito de outro modo, a redução da dívida bruta fez à custa da redução da almofada de liquidez e da capacidade de reagir à volatilidade dos mercados.

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