É pouco frequente escrever sobre o Chega ou o seu líder Dr. Ventura, principalmente porque as minhas críticas iriam acrescentar-se, ainda que por razões e pressupostos muito diferentes, à enxurrada que o jornalismo de causas e a comentadoria do regime lhe dedica, ou mesmo, para os distraídos, confundir-se com essa enxurrada.
Abro mais uma excepção para comentar a iniciativa aprovada ontem pelo grupo parlamentar do Chega de apresentar uma queixa-crime contra o Dr. Marcelo "por traição à Pátria", fundada no facto deste último ter defendido as reparações às ex-colónias num jantar com jornalistas estrangeiros.
Sobre o fundo da questão não vou agora discorrer porque em várias ocasiões (por exemplo aqui ou aqui) já disse o que tinha a dizer, como disse sobre o Dr. Marcelo, em quem não votei. O que pretendo salientar é que, por muitos disparates que o Dr. Marcelo produza e nem mesmo pelo exercício deplorável dos seus dois mandatos, exercício que faz dele um dos piores presidentes da República, se não mesmo o pior, ele não perde a liberdade de os exprimir.
Pretender inventar um crime de expressão que obviamente não existe (por enquanto), como sabe muito bem o Dr. Ventura, pode ter dois propósitos, ambos para mim preocupantes, não pelos efeitos que são com toda a probabilidade inócuos, mas pelo que isso pode indiciar: ou bem se pretende intimidar a criatura, ou bem se pretende excitar os piores sentimentos da turba num exercício demagógico tão ao gosto do Dr. Ventura. Em ambos os casos, isso revela tiques totalitários de mau prenúncio.