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19/05/2015

SERVIÇO PÚBLICO: Keynes não era keynesiano e, se ainda fosse vivo, morreria de tédio ao ouvir os seus seguidores (2)

Entrevista a Richard Davenport-Hines na Veja. (2.ª parte)


Como Keynes combinou as qualidades do académico com as do homem de acção?

Eu diria que ele foi o arquétipo do intelectual público. Era sólido na teoria, mas também conseguia navegar com segurança entre os políticos e fazer com que suas ideias fossem economistas serviram de consultores a presidentes americanos e líderes europeus, mas nenhum teve papel semelhante ao que Keynes exerceu no período entre as Grandes Guerras. Ele liderou a delegação britânica na Conferência de Bretton Woods, em 1944, momento em que foram desenhados o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Vinha negociando e planejando a criação desses mecanismos globais desde o início da II Guerra, porque estava determinado a reduzir a instabilidade. as crises, o desemprego e os impostos colectados para financiar armas antes da eclosão do conflito. Para Keynes, muitas das razões que levaram a Europa de volta às trincheiras eram económicas, não políticas. E ele acreditava que, ao desenhar as bases para um capitalismo menos instável, seria possível evitar uma nova guerra como aquela que arrasava o mundo. Foi a figura intelectual dominante de Bretton Woods. Mais tarde contava, com ironia, ter agido durante o encontro como economista, financista, político, jornalista, publicitário, advogado, funcionário do governo - e profeta. Keynes passou muito mal durante a conferência. Havia sido diagnosticado pouco tempo antes com um problema cardíaco irreversível e sofreu vários colapsos. Mesmo assim, conseguiu sair de lá com seus planos aprovados.

O que levou Keynes à economia?

Acho que houve dois motores: um certo sentimento de nostalgia e a crença na necessidade de viver uma vida plena. Keynes descrevia os anos que antecederam a 1 Guerra como um paraíso perdido para ele e para os europeus. Queria uma nova belle époque, um mundo de prosperidade, elegância, segurança e valorização das artes. Keynes amava a beleza e o prazer. E desejava que todos tivessem acesso a essas coisas, tanto assim que dedicou um tempo precioso a conseguir dinheiro para criar o Arts Council e financiar a Royal Opera House, a National Gallery e a Portrait Gallery. O senhor está dizendo que o Tratado sobre a Moeda foi escrito para devolver o mundo à belle époque?

É mais ou menos isso se estamos falando das motivações profundas, da maneira como a obra de Keynes se relaciona com a sua história de vida e a sua personalidade. Keynes participou activamente do grupo de Bloomsbury, formado por artistas e escritores como Virgínia Woolf.

Qual foi a importância dessa convivência para Keynes?

Era um ambiente estimulante para ele, embora todos os artistas fossem menos inteligentes que Keynes. Eram criativos, não intelectuais. Creio que um elemento-chave que Keynes exercitou com o grupo de Bloomsbury foi a arte de flertar. Ele sempre se achou feio. Para compensar isso, foi charmoso e cativante. Gostava muito de flertar com todos, não necessariamente no sentido sexual. Ele desenvolveu a capacidade de dominar as conversas como nenhuma outra pessoa naqueles tempos. Nunca foi arrogante. Só na velhice surgiu nele um traço de impaciência. Não suportava mais conversar com pessoas de mentalidade lenta, convencionais demais, que lançavam mão de clichés para justificar tudo.»

A entrevista continua com questões relativas à vida sexual de Keynes o que para o caso é irrelevante (apesar do que possivelmente pensam os gays e os homófobos).

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