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18/05/2015

SERVIÇO PÚBLICO: Keynes não era keynesiano e, se ainda fosse vivo, morreria de tédio ao ouvir os seus seguidores (1)

Entrevista a Richard Davenport-Hines na Veja (1.ª parte)


«O britânico John Maynard Keynes (1883-1946) é um dos titãs da história da economia. Para o historiador inglês Richard Davenport-Hines, contudo, isso é pouco para defini-lo. Com sua inteligência analítica, seu amor pela arte, sua habilidade social e sua capacidade para influir na política, ele foi um "homem universal". Esse é o titulo da biografia que Davenport-Hines acaba de publicar: The Universal Man: The Seven Lives of John Maynard Keynes. O autor explorou os vastos arquivos pessoais de Keynes, depositados na Universidade de Cambridge, para explicar os motores de sua obra. E afirma que Keynes é maior que as interpretações correntes de seu pensamento. "Ele anteviu os equívocos que viriam e disse: 'Chamo-me Keynes, mas não sou keynesiano'."

Quase setenta anos depois de sua morte, Keynes ainda merece um papel central no pensamento económico?

Sem sombra de dúvida. Houve um período, nos anos 80 e 90. em que se formou uma falsa imagem de Keynes como inimigo do capitalismo. Isso é um completo nonsense. Posso afirmar, pois li minuciosamente tudo o que ele escreveu, que Keynes dirigiu seus esforços para a melhora do capitalismo, não para a sua destruição ou '·superação.,. A crise de 2008 permitiu desfazer um pouco os equívocos e mostrou como os problemas que Keynes procurou abordar ainda são os problemas do nosso tempo. Porque aquela foi uma crise de excessos, de "exuberância irracional". como disse o ex-presidente do banco central americano Alan Greenspan, e Keynes empenhou-se no sentido de salvar o sistema de seus paroxismos de instabilidade. Ele disse, no início do século passado, que a regulação financeira tinha um papel importante a desempenhar, e que a regulação global era mais necessária para a estabilidade do capitalismo do que qualquer mecanismo nacional. E tudo o que aconteceu em 2008 mostrou a importância dessa discussão. Keynes é um autor fundamental.

Keynes era um economista de esquerda?

Era um elitista que nutria uma admiração romântica pela aristocracia e por tudo o que o dinheiro podia oferecer. Sempre foi. na verdade. um antimarxista. Para ele, as ideias de O Capital eram rígidas e ultrapassadas. '.\os anos 1930, dizia: "Como posso aceitar uma doutrina que se impõe como bíblia acima de qualquer crítica. um livro de economia obsoleto sem nenhuma possibilidade de aplicação no mundo moderno?". Suas visitas à União Soviética deixaram nele uma impressão desagradabilíssima. Keynes acreditava no individualismo, na competição, na liberdade, nas artes. Não na burocracia, no comunismo e na regulação excessiva da economia, ou de qualquer outro aspecto da vida.

Keynes era um intervencionista?

Ele acreditava nos benefícios da política económica. Mas também dizia que ela deveria ser alterada a cada quinze ou vinte anos. Não achava que a política económica poderia ser permanente, porque as circunstâncias mudam e as expectativas das pessoas também. Ele não acreditava em pensamento estático em nenhum aspecto. Já no fim da vida, dizia: “Eu me chamo Keynes, mas não sou keynesiano”. Tinha consciência de que estava em curso uma interpretação equivocada de seu pensamento. E. após sua morte, isso de fato aconteceu. Na Europa e nos Estados Unidos, atribuem a ele a paternidade das políticas de expansão do défice público, algo a que Keynes se opunha de forma contundente. Ele era extremamente contra défices de longo prazo. Dizia que governos podiam se permitir um pouco de défice para combater uma crise pontual, em especial ao injectar dinheiro na economia para reduzir o desemprego. Pois ele acreditava que o desemprego era o grande mal, o grande inimigo do potencial humano. Então defendia défices de curto prazo em situações emergenciais. Mas definitivamente era contrário a governos, empresas e famílias contraírem dívidas que jamais conseguiriam pagar.

Keynes não foi só um teórico, ele se aproximou do poder. Keynes gostava de política?

Ele conviveu com políticos poderosos. Mas não se identificava com esse meio, não gostava do relacionamento com os políticos. Em muitas anotações e artigos, descreve-os como entediantes e intelectualmente desqualificados para o cargo que exerciam. Acima de tudo, achava a maior parte deles hipócrita e sem convicções reais. o que era muito incómodo para alguém que tinha uma paixão intelectual pela verdade. Curiosamente, Keynes conseguiu transitar num ambiente de hipocrisia sem se render a ela. Era de uma sinceridade implacável.


Continua

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