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18/05/2015

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: A fábula do surto inventivo que nos assola (8)

[Outros posts sobre a mesma fábula: 08-08-2010; 28-11-2010;28-11-2012; 08-12-2013; 16-12-2013; 26-12-2013; 17-01-2014; 25-02-2014; 11-03-2014; 08-04-2015].

Com este já se contam 10 posts desmistificadores de mais esta fábula socialista agora chorosamente recordada por ocasião da morte de Mariano Gago que, para usar as palavras de Daniel Bessa, ocupou-se a comprar os ovos – com dinheiro fiado, acrescente-se – e agora só falta o mais difícil que é fazer as omeletes com os mais de 90 mil cozinheiros. O texto seguinte é uma ilha no oceano da verborreia do jornalismo de causas glorificando a torra de grana para criar um exército de investigadores que não investigam porra nenhuma (com as excepções que sempre houve e haverá). Ou, mais exactamente, investigar eles investigam, porém, na maior parte dos casos, ninguém, para além dos próprios e da sua claque de apoio, considera que isso seja investigação.

«Trata-se de uma grande questão política, com pê grande: deve o país continuar a investir em Ciência, como caminho para um dia, mais cedo ou mais tarde, melhorar a Economia (emprego, salários, condições de vida das pessoas)? Como em todas as grandes questões políticas, há lugar a opinião, mesmo ideologia, absolutamente legítimas; e parecer-me-ia conveniente que houvesse também lugar a informação factual, disponibilizada pela estatística, objetiva, sem opinião.

Portugal tem investigadores: 9,2 por mil habitantes em idade ativa, quando a média da OCDE é 7,2 e a da UE 6,8. Portugal gasta dinheiro em investigação e desenvolvimento: em percentagem do PIB, o Estado português está a 82% e as empresas a 50% da média da UE. Temos aqui um primeiro problema: empregamos mais investigadores do que os outros mas oferecemos-lhes piores condições de trabalho.

A coisa piora, e muito, à medida que nos aproximamos do final da cadeia de valor, dos resultados económicos: ainda em percentagem do PIB, Portugal (os investigadores, o Estado, as empresas, nós), submete patentes ao European Patent Office em apenas 18% da média da UE; e não tira dessas patentes, em receitas de exportação, tanto por venda como por licenciamento, mais de 3% da média da UE.

José Mariano Gago, cuja memória tão justamente homenageamos, ocupou-se de criar condições para que tenhamos os ovos. Falta fazer a omelete. Insistem, alguns, que precisamos de continuar a fazer ovos, mais ovos. Penso, pelo contrário, que temos de intervir na cozinha, onde se torna necessário mudar quase tudo (processos, no Estado, e nas empresas), para que, um dia, com a Ciência se faça Economia.
»

Daniel Bessa, no Expresso

1 comentário:

Antonio Cristovao disse...

Ainda falta muito para desmantelarmos o corporativismo?
1974 já foi a tanto tempo e Brigada das Colheres a volta do tacho publico ainda tem uma formação corporativista!!!