Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

21/08/2015

CASE STUDY: Os amanhãs que cantarão, segundo o PS, ou o triunfo da fé e da esperança sobre a experiência (4)

Outros amanhãs.


Interrompo aqui os comentários ao relatório dos 12 sábios «Uma década para Portugal», que retomarei mais tarde (se os deuses me concederem a indispensável pachorra), para tratar do último e retumbante anúncio que o Público sintetizou brilhantemente no seu título:
«PS simula criação de 207 mil postos de trabalho até 2019»
Título muito mais apropriado do que, por exemplo, o do Negócios, que titulou «PS promete a criação de 207 mil empregos até 2019», visto que o sábio Mário Centeno teve o cuidado de explicar que não iria criar, mas antes a coisa resultou de uma simulação.

Notemos que, uma vez mais, estamos perante o triunfo da fé e da esperança sobre a experiência. Experiência que resulta do Programa de XVII Governo de José Sócrates que se propunha «como objectivo recuperar, nos próximos quatro anos, os cerca de 150.000 postos de trabalho perdidos na última legislatura».

Como é sabido, o referido objectivo, equivalente a reduzir o desemprego de 150 mil, foi com o tempo mudado para criar empregos em número que foi evoluindo ao longo da legislatura em que o desemprego aumentou quase tanto como o número de postos de trabalho prometidos recuperar e o número de postos de trabalho criados não chegou a 5 mil. Esta saga está amplamente documentada neste post e nos cinco nele linkados.

Evidentemente que então, como agora, o PS conta com o nevoeiro criado pela má-fé e incompetência do jornalismo de causas e dos opinion dealers, para os quais criar 207 mil empregos (o que pode ser feito destruindo 414 mil e portanto aumentando em 207 mil o desemprego) é o mesmo que reduzir o desemprego no mesmo número. É claro que nem vale a pena lembrar que o governo só cria empregos na administração pública, aumentando a despesa pública, e as empresas criarão ou não emprego dependendo de imensas coisas e também do que o governo faz.

Que medidas pretende o PS que o seu putativo governo tome para que as empresas criem 207 mil postos de trabalho nos próximos 4 anos? Com base no resumo do Público encontrei as seguintes:

1. «Eliminação da sobretaxa sobre o IRS em 2016 e 2017»
2. «Redução temporária da taxa contributiva dos trabalhadores»
3. «Complemento salarial anual para os trabalhadores pobres»
4. «Renovação das políticas de mínimos sociais»
5. «Condição de recursos nas prestações sociais não contributivas»
6. «Resolução do problema do financiamento das empresas»
7. «Limitação de contratos a termo»
8. «Procedimento conciliatório para cessação de contratos»
9. «Agravamento da contribuição para a Segurança Social por parte de empresas que abusem da precariedade»
10. «Revisão do sistema de descontos dos recibos verdes»
11. «Esforço de reintegração no mercado de trabalhadores de meia-idade»
12. «Estímulo da actividade nos sectores da reabilitação do património e da restauração»

Se das medidas 1 a 5 poderá resultar o aumento indirecto dos salários e, portanto, do rendimento disponível e, portanto, do consumo e, portanto, das importações e, portanto, do défice da balança comercial, só por bruxaria terão algum impacto na criação de emprego.

Das medidas 7, 9 e 10 resultará aumento do desemprego. Das restantes medidas, a 8 tem um impacto positivo irrelevante na redução dos custos de contexto, pelo que a esperança socialista fica residente nas duas últimas, isto é:

11. «Esforço de reintegração no mercado de trabalhadores de meia-idade»
12. «Estímulo da actividade nos sectores da reabilitação do património e da restauração»

Chegado aqui pergunto-me: estarão os sábios do PS convencidos que destas duas medidas resultará a criação de 207 mil empregos?

Se estiverem convencidos fico ainda mais preocupado do que se for só a costumeira mistificação.

(Continua)

20/08/2015

Títulos inspirados (46) - «Quer engravidar? Será que está a fazer tudo bem?»


Li três vezes este título do Observador, apesar de parecer estar dirigido ao sexo feminino – «sexo» que a idiotia do PC (politicamente correcto) passou a chamar «género». Fui ver se o artigo tinha desenhos a exemplificar como «fazer tudo bem», tipo ilustrações do Kamasutra. Desilusão. Só tem conselhos, na sua maioria tão aplicáveis ao sexo para engravidar como às doenças da coluna.

É mais uma maldição: para pagar as facturas, até os jornais inteligentes têm de ter conteúdos estúpidos, o que, apesar de tudo, é preferível aos jornais estúpidos terem conteúdos inteligentes que nos obriguem à trabalheira de catar as agulhas da clarividência no palheiro da boçalidade.

A maldição da tabuada (26) – A multiplicação dos emigrantes

Ao ler este artigo de Inês Domingos do Observador, lembrei-me das acusações ao governo por «fabricar estatísticas» há 2 semanas pela deputada socialista Ana Catarina Mendes a propósito das estatísticas de desemprego. Segundo a deputada terão emigrado 500 mil trabalhadores nos últimos 4 anos.

Inês Domingos refere 49 mil emigrantes em 2014, número que não me parece que o INE já tenha tornado público, mas está em linha com os dos 3 anos anteriores: 43.998, 51.958, 53.786 (2011 a 2013) das estatísticas do INE e do Eurostat. No total dos 4 últimos anos são, portanto, 199 mil emigrantes, isto é menos de 40% dos números citados pela deputada socialista – como era de esperar à medida que caminhamos do PS para a extrema-esquerda os números vão ficando ainda mais delirantes.


Como compreender esta incapacidade de lidar com os números? A explicação simples é que se trata de gente atingida pela maldição da tabuada. A explicação mais completa, aplicável à gente que até sabe fazer contas mas não lhe convém fazê-las, é o trilema de Žižek.

Pro memoria (253) – Ponde as barbas de molho

Realizaram-se ontem «dois leilões, um da linha de BT com maturidade em novembro de 2015 (BT 20NOV2015), colocando EUR 400 milhões (fase competitiva). e outro da linha de BT com maturidade em julho de 2016 (BT 22JUL2016), colocando EUR 750 milhões (fase competitiva). EUR 500 milhões (fase competitiva) e outro da linha de BT com maturidade em outubro de 2013 (BT18OUT2013), colocando EUR 1000 milhões (fase competitiva).» (Fonte)

Os yields ponderados foram -0,013% (sim, uma taxa negativa) e 0,021%, para os prazos de 3 e 11 meses, respectivamente. Nos leilões de 2010, em plena vigência do socratismo e antes da intervenção da troika, para os mesmos prazos, os yields ponderados foram 1,818% e 3,260%. Se recuarmos até princípios de 2008, meses antes da falência do Lemon Bros em Setembro desse ano, que anunciou o princípio da crise, encontramos leilões de BT a 12 meses com yields ponderados da ordem de 3,9%.

Imaginemos o putativo Futuro Primeiro-Ministro de Portugal, um admirador das obras do preso 44 e do Syriza, com acesso com taxas negativas ou próximas de zero para desenvolver o seu programa keynesiano.

19/08/2015

ACREDITE SE QUISER: «Pena não ser leão e não se chamar Cecil para que as redes sociais o recordassem»

«Khaled Asad, 82 anos, foi agora publicamente decapitado após ter sido interrogado durante um mês pelo Estado islâmico. O seu corpo ficou pendurado numa coluna no centro da cidade. O seu crime: querer salvar Palmira.» (Blasfémias)


O assassinato de Asad pelo Estado Islâmico deixou a Internacional da Indignação indiferente. O abate do leão Cecil pelo dentista americano incendiou a Internacional da Indignação.

ARTIGO DEFUNTO: Ora que espanto

Continuando no tema salário mínimo.

Com grande espanto, o DN descobriu agora que «desde 2011, a percentagem de trabalhadores a ganhar o SMN subiu 73,6%». Pois não é inevitável que os aumentos em termos reais do SMN determinem que aumente o número de trabalhadores abrangidos, sobretudo quando o salário médio se mantém ou mesmo diminui como em 2013?

Espantou-se o DN mas ainda não descobriu que depois o aumento do SMN em Setembro do ano passado o desemprego interrompeu a descida precisamente nessa altura e só recomeçou a descer vários meses depois e só no 2.º trimestre deste ano melhorou significativamente.

Se descobrisse também se espantaria, pelo menos enquanto não percebesse a relação entre salário mínimo e desemprego. Pode começar pelo post «Salário mínimo e desemprego - unintended consequences», continuar na etiqueta salário mínimo e acabar, por agora, com o artigo da Economist «A reckless wager - A global movement toward much higher minimum wages is dangerous».

18/08/2015

ARTIGO DEFUNTO: Se queremos alinhar o salário mínimo com a Óropa devemos diminui-lo (2)

«O partido espanhol PSOE vai apresentar terça-feira, 18 de Agosto, uma série de propostas para a reforma da União Europeia, que incluem a criação de um orçamento europeu, e a uniformização de impostos, salário mínimo e idade da reforma. O objectivo é aprofundar a coesão da Zona Euro e caminhar em direcção a uma "Europa federal".» (Negócios)

Destaco de entre as propostas do PSOE, que reconheço têm a coerência do caminho para a “Europa Federal” (ainda que esse grande salto em frente, ou para o abismo, já não seja viável por falta de suporte dos eleitorados), a uniformização do salário mínimo, sobre a qual publiquei em tempos um post o qual no essencial continua aplicável mutatis mutandis, apesar de a pretexto de uma situação interna. Aqui vai ele.

O governo com a sua pequena jogada promocional colocou na ordem do dia a questão do salário mínimo e não foi preciso mais para se levantar um enorme clamor comparando o actual com o de 1974, tentando demonstrar que as «conquistas de Abril» estariam a ser atacadas pelo governo «neoliberal» ou comparando-o com os salários mínimos na Óropa.

Quanto à primeira comparação, o Pertinente já aqui mostrou fazer mais sentido comparar os salários actuais com os dos períodos anteriores de intervenção do FMI, e constatar que o salário mínimo actual é mais alto, em termos reais.

Quanto à segunda comparação, se o jornalismo de causas não fosse, mais uma vez, tão incompetente, não faria tais comparações. Ao fazê-las, sem se dar conta, está a fundamentar uma redução do salário mínimo. Exemplo: quando o Expresso publica este diagrama (+) mostrando que o salário mínimo português era de 86,1% da média europeia e desceu para 83,2% em 2009, arrisca a que alguém publique um diagrama comparando a produtividade portuguesa com a média europeia, como o abaixo.

Fonte: Labour productivity per hour worked (Eurostat)
Ao fazer esta outra comparação, constataria que a produtividade portuguesa já era baixa e ainda diminuiu nos últimos anos, representando em 2012 apenas 52,6% da produtividade média europeia. Dito de outro modo, se queremos alinhar pela Europa devemos reduzir o salário mínimo para 296 euros = (52,6% x 485) : 83,2%. (*).

(+) Link do Expresso actualmente não disponível
 (*) Valores de 2012

Dúvidas (116) - Será assim tão difícil de perceber que não adianta discutir vacuidades como os outdoors

«A economia portuguesa está a crescer de forma moderada e as exportações continuam a ser o motor da economia. É esse o caminho, apesar de o crescimento económico precisar de aumentar bastante mais para se poder desalavancar o endividamento do país. 

A opção pelo aumento do consumo, ainda que seja uma ideia generosa, tem como senão o inevitável aumento das importações e o desequilíbrio da balança comercial que o país tem conseguido contrariar nos últimos tempos, vendendo mais ao estrangeiro do que aquilo que está a comprar. 

Portugal é uma das economias mais endividadas do mundo. Segundo a McKinsey, ocupa a quarta posição, com um rácio de 358% do PIB. Estas contas são consistentes com os 228% de dívida do sector privado reconhecidos pelo Conselho das Finanças Públicas, a que se somam os 130% do rácio da dívida pública. À nossa frente, com dívida mais elevada, diz a McKinsey, só o Japão com 400% do PIB, a Irlanda com 390% e Singapura com 382%. Já no que se refere à dívida externa bruta - Estado e privados -, o Conselho das Finanças Públicas refere, na análise prospectiva para 2015-2019, um total de 233% do PIB no final de 2014.

Estes dados mostram como é extemporâneo dizer que a crise já foi ultrapassada, que já não vão ser necessários mais rigor e sacrifícios e que o que é necessário é aumentar o consumo.»

Francisco Ferreira da Silva, «Constituição deve impor limites para defender o país», no Económico

Estou certo que este endividamento é um problema - é uma mochila demasiado pesada para as nossas forças no declive que temos de subir. Não estou certo que a medida proposta tenha um contributo significativo para uma solução. A Constituição também tem uma colecção de garantias e direitos positivos que não passam de palavras.

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Não é um pouco esquizofrénico? (3)

Já em várias ocasiões salientei a esquizofrenia que nos leva (ou pelo menos leva os mídia portugueses) à obsessiva procura de patrícios em lugares de destaque para mitigar os nossos complexos de inferioridade. Frequentemente os patrícios encontrados ou não são patrícios, por terem nascido noutras paragens, ou são reconhecidos no bairro onde vivem o que para nós faz deles personagens galácticas.

E no entanto, há uma actividade em que os portugueses, não um ou dois, mas centenas, estão no topo e são considerados competitivos a nível mundial, apesar disso não ser reconhecido pelo pretensiosismo e pela bem-pensância. Refiro-me ao futebol onde num meio altamente competitivo temos centenas de patrícios que são referência na sua profissão e não apenas os jogadores.

Quanto se babariam os profissionais tugas da literatura, da engenharia civil, da física das partículas, da pintura, do bailado, ou da gestão, se uma revista online internacional como a Politico publicasse a seu respeito na edição europeia uma peça com o título «Portugal’s army of ‘special ones’ - It has more Champions League coaches than any other country» e este texto?

17/08/2015

Chávez & Chávez, Sucessores (33) – A caminho do socialismo na modalidade bolivariana

Execuções em pleno dia em Caracas dos inimigos do socialismo (via Insurgente). Uma inspiração para os partidos irmãos?

Curtas e grossas (23) - Promessas não são para cumprir

«Er hatte das Gegenteil versprochen, das kann er nicht halten. Er muss das Gegenteil machen.» (Entrevista da Deutsche Welle a Schäuble)

Ele (Tsipras) deve fazer o contrário do que prometeu.

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (XXXVI) – Desta vez também não será diferente

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

A troika chegou a acordo com o governo grego sobre as condições do novo resgate, o parlamento grego aprovou as medidas, os bancos gregos reabriram com o dinheiro fresco do BCE, mais 86 mil milhões (36% do PIB) vão ser entornados na economia grega. A Grécia está, pois, no bom caminho. Certo? O mais provável é estar errado.

Em primeiro lugar por razões históricas. Há décadas que a Grécia não tem contas equilibradas, a evasão fiscal é endémica e a falsificação das contas é a ciência nacional. O que mudou para esses hábitos mudarem?

Em segundo lugar por razões políticas internas. O governo é uma coligação de dois partidos extremistas de esquerda e de direita que não acreditam nas medidas que terão de implementar e só assinaram porque não tinham dinheiro. O suporte parlamentar diminui cada dia. Um terço dos deputados do Syriza votaram contra na madrugada de 6.ª feira e as medidas só foram aprovadas com o voto da oposição. E vem mais rebelião a caminho.

Em terceiro lugar por razões políticas externas. Os dados da questão são:
  • É indispensável a participação do FMI (a única instituição com know-how e estômago para acompanhar o resgate); 
  • Christine Lagarde está ansiosa por renovar o mandato e sob pressão dos membros não europeus do FMI para aplicar a receita habitual que implica um haircut aceite pelos credores - com excepção do próprio FMI; 
  • De onde haverá enorme pressão sobre os membros da Europa Central e do Norte que querem respeitar o artigo 125.º do Tratado de Lisboa;
  • Alguns dos governos desses países sabem de ciência certa que não terão apoio dos seus eleitores e a criação de precedentes conduzirá uma situação insustentável que só poderia ser resolvida com mais união política - outro grande salto em frente, desta vez para o abismo porque já não existe suporte eleitoral.
Falando de precedentes, como seria possível justificar aos eleitores, por exemplo aos portugueses, um perdão de 200 mil milhões de euros à Grécia, país que comparativamente com Portugal e apesar de imensa destruição ainda é «mais rico»? Como se diz no futebol, seria dar o benefício ao infractor.


É claro que se sabe que o infractor desperta simpatias e pode contar com quase toda a esquerda promotora da irresponsabilidade e do despesismo, que se excita com a desgraça auto-infligida e, embora nem toda tenha a ousadia de o proclamar, no fundo defende «os ricos que paguem a crise».

E não só a esquerda europeia, também luminárias americanas como Paul Krugman, Joseph Stiglitz e Jeffrey Sachs - «an odd alliance of Anglo-American economists and European leftists sympathetic to Greece’s Syriza party», nas palavras da Economist. E ainda alguns governos, como o americano que, como aqui escrevi, tem pressionado a UE para atirar mais dinheiro para cima da Grécia comprando o governo Syriza-Anel para que não se venda à Rússia, a exemplo do que os EU fazem ao Paquistão com o sucesso conhecido: venda da tecnologia da bomba nuclear à Coreia do Norte, apoio do exército paquistanês aos taliban no Afeganistão e hostilidade contínua ao maior aliado dos EU na região – a Índia, o único país na região que se pode considerar ter um regime democrático.

16/08/2015

DIÁLOGOS DE PLUTÃO: Figurantes

- É uma vergonha o Pafe… 

- O Pafe? Isso tem algo a ver com o Pif?

- Não. É a coligação PSD-CDS que nos vem sufocando com a austeridade… 

- Mas não foi o PS que negociou e assinou o memorando? 

É uma vergonha o Pafe  ter utilizado figurantes estrangeiros nos seus outdoors. 

- E que figurantes deveria ter usado em vez disso? 

- Ora, que pergunta. Funcionários de uma junta de freguesia.

[Diálogos de Plutão é uma homenagem a um planeta impertinente que foi despromovido]

CASE STUDY: O que a Óropa deve fazer para resolver os nossos problemas


A pretexto de esclarecer que nunca lhe teria passado pelas meninges defender a saída do Euro, Nicolau Santos, o nosso pastorinho da economia dos amanhãs que cantam favorito, faz questão de deixar bem claro o seu pensamento e escreve na 5.ª coluna página do caderno de Economia do Expresso

«… com as atuais regras de funcionamento da Eurolândia países como Portugal vão inevitavelmente declinar económica e socialmente e tentarão compensar esse declínio reduzindo as funções do Estado social, cortando no investimento público e embaratecendo mais e mais os custos do trabalho através da precarização dos laços laborais

Até aqui quase concordo com ele, se der de barato que do lado português não há nada a fazer (mas há) ou que, havendo, está fora do nosso alcance (e estará enquanto for dominante o pensamento dos pastorinhos). Mas Nicolau Santos não se conforme e interroga-se

«Pode haver remédio para isto? Pode», escreve ele.

E qual será o remédio? Pergunto eu. Libertar a economia da tutela asfixiante do Estado pondo-o a tratar dos custos de contexto, fomentar a iniciativa privada, incentivar a poupança para financiar o investimento produtivo, aumentar a produtividade e assim melhorar a competitividade, manter as contas públicas e as contas externas equilibradas, etc. e esperar uma ou duas décadas?

Certo? Errado. Para Nicolau quem deve resolver os nossos problemas é a Óropa.

«Mas do lado da Europa não se vê que haja disponibilidade para aceitar as transferências intracomunitárias para fazer face a choques assimétricos, nem uma união bancária que impeça as PME nacionais de pagar o triplo de juros de uma empresa alemã.»

Tradução: mandem para cá dinheiro e cobrem-nos os juros como se o nosso risco fosse igual ao dos alemães. Ah, já quase me esquecia. Também temos de tomar decisões.

«O que está nas nossas mãos é tomar decisões, ao nível da competitividade fiscal e noutras áreas, para atrair capital estrangeiro. Mas até agora nenhum Governo ousou promover esse choque fiscal.»

Competitividade fiscal? Essencialmente reduzir o IRC e fazer o que tem feito a Irlanda que Nicolau e os outros têm criticado? Seja. E como se mantêm as contas públicas equilibradas? Aumentando a carga fiscal sobre as famílias? Reduzindo a despesa pública? E as funções do Estado social que tanto preocupam Nicolau? Ou pensará Nicolau que devemos repetir a receita de Sócrates, que ele tanto apreciou, e esses problemas deixariam de existir porque ele também aprendeu que as dívidas não são para se pagar?

15/08/2015

ACREDITE SE QUISER: E se de repente os países fossem medidos pela capitalização bolsista?

Fonte: Bank of America Merrill Lynch (via Market Watch)

Pro memoria (252) – Há 70 anos o imperador Hirohito proclamou a rendição do Japão

Tradução em inglês
O discurso foi gravado na véspera e só foi radiofundido porque os oficiais revoltosos que se opunham à rendição não conseguiram encontrar a gravação no palácio imperial que pretendiam destruir. A gravação acabou por sair do palácio escondida num cesto de roupa feminina para lavar e foi difundida no dia 15 de Agosto de 1945.

14/08/2015

BREIQUINGUE NIUZ: Pela enésima vez um tribunal rejeita um recurso de José Sócrates

Desta vez foi o Tribunal Constitucional que julgou «improcedente» o recurso em que se invocava a inconstitucionalidade do fundamento e da forma de comunicação da prisão preventiva.

Se para mim os acórdãos do TC, este e os outros, fundados em princípios gerais que podem ser interpretados com leituras políticas como aprouver aos juízes, não são decretos divinos, para as resmas de luminárias, que, recorde-se, se babaram com os acórdãos que consideraram inconstitucionais as medidas de austeridade com base em argumentos especiosos, este acórdão sobre a prisão do querido líder deveria ser matéria de fé. Ou não?

Pro memoria (251) – O choque com a realidade do carro eléctrico de Sócrates (III)

[Continuação de (I) e (II)]

A última vez que aqui fizemos um balanço, no final de 2013, a situação era a seguinte:
  • Planos socráticos até 2020: 180 mil carros eléctricos e 25 mil locais de carregamento 
  • No final de 2013 havia 1.300 pontos de carregamento normal, 50 pontos rápidos, postos que terão custado 15 milhões, e 426 carros eléctricos vendidos desde 2010 sendo 140 em 2013 até Outubro (Expresso) 
  • Desde 2010 até 2013 foram feitos 27 mil carregamentos - o que dá 555 euros de investimento por carregamento nos 1.300 pontos, equivalentes a 7 carregamentos por ponto e ano ou um carregamento em cada 52 dias.
Em 2014 foram vendidos 216 carros eléctricos. Este ano existiam cerca de 900 carros eléctricos (uma parte significativa do Estado ou empresas públicas) e com um incentivo de 4.500 € venderam-se 187 até Maio. Sabe-se lá porquê (maldição da tabuada ou abate de pontos de carregamento) já só restam «mil postos de carregamento na via pública em cerca de 20 concelhos». (DN)

Entretanto, o governo ressuscitou o projecto Sócrates, vai instalar mais 49 pontos de carregamento e publicou a portaria 241/2015 prevendo que «o licenciamento da atividade de operação de pontos de carregamento será simplificado, de forma a estimular a emergência, num ambiente concorrencial, de novos operadores com cobertura nacional ou local».

Com essa concorrência, o número de pontos de carregamento por veículo e o custo por carregamento irão certamente aumentar. De onde se conclui que podemos continuar as políticas de Sócrates mesmo com o sujeito ausente.

NÓS VISTOS POR ELES: Tempestade demográfica perfeita, dizem eles

Com o título «Portugal faces ‘perfect demographic storm’» o FT publicou um artigo que não diz nada que não se soubesse e cuja relevância consiste apenas em confirmar a gravidade do problema visto de fora - uma consequência não desejada do Estado Social e talvez a sua maior realização.

«Portugal is the EU country hit hardest by a Europe-wide demographic problem as falling fertility rates and ageing populations threaten economic growth and the provision of pension, public health and elderly care services.

If nothing changes, the worst-case projection by the National Statistics Institute (INE) sees the population of Portugal dropping from 10.5m to 6.3m by 2060, while the number of over-65s for every 100 under-15s — the so-called ageing index — would soar from 131 to 464, the highest in Europe.

Even in INE’s more optimistic central forecast, Portugal is expected to lose 2m inhabitants over the next 45 years with the ageing index rising to 307. In little more than a generation, estimates the EU’s Eurostat agency, Portugal will be the EU country with the smallest proportion of children, with the percentage of under-15s falling from 14.6 per cent of the population in 2014 to 11.5 per cent in 2050.»

13/08/2015

Um dia como os outros na vida do estado sucial (24) – A falta que o nanny state nos faz

«Estado falha na proteção de bebés de toxicodependentes que não vão às consultas» um título do DN que diz mais sobre o desvelado amor ao nanny state do que qualquer declaração de princípios. A falha não é da mãe que fugiu do hospital – ela é inimputável; a falha não é do pai que nem sabe de nada - ele é inimputável; a falha não é da família da mãe – eles são inimputáveis; ainda menos da família do pai - eles também são inimputáveis.

A falha é da jornalista que não escreve notícias, defende causas, promove a irresponsabilidade dos responsáveis e aponta o dedo ao nanny state que é também é inimputável.

Quem à primeira vista parecia ter perdido a fé nas virtualidades do nanny state é o PS que mandou um dos 12 sábios de «Uma década para Portugal» dizer que a recuperação da produção industrial não se deve ao nanny state mas apenas aos empresários. Á segunda vista percebe-se que a fé é inabalável, porque logo acusa o governo «que nada fez para apoiar os empresários» - por isso tiveram os empresários que dar corda aos sapatos o que aos socialistas não parecerá uma boa ideia porque evidenciaria a irrelevância das suas políticas, salvo para gerar crises.

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: As teorias da conspiração do czar Putin

«America is preparing a provocation against Russia. Possibly a war, almost certainly a local conflict, because its indebted economy can only be remedied by pillaging others. These are not the gibberings of a conspiracy theorist, but Sergei Naryshkin, chairman of Russia’s parliament and a close ally of Vladimir Putin’s, writing in the official state newspaper. Russia’s neighbours worry: the Kremlin often carries out the plans it ascribes to others. The likely cause of this bout of warmongering lies in the Russian economy. In the worst figures for six years, GDP shrank year-on-year by 4.6% in the second quarter. A tumbling rouble, low oil prices, a sharp drop in consumer spending, and sanctions which have cut Russia off from international capital markets all contribute to a deepening crisis. Unable to fix the economy, the Kremlin may indeed divert public attention inside the country by escalating tension abroad.»

Fonte: newsletter Espresso da Economist
Nenhum ditador resiste à tentação de encontrar um inimigo externo ou, mais raramente, interno para desviar a atenção dos desastres da sua governação e canalizar para esses inimigos os ódios e os ressentimentos que lhe seriam dirigidos. O czar Vladimir Putin é um perito nessa matéria.

12/08/2015

Pro memoria (250) – Com amigos como Israel talvez os Estados Unidos possam dispensar os inimigos

A propósito da provável libertação condicional de Jonathan Pollard, um analista de informação naval dos EU preso em 1987 por espionagem a favor de Israel, a Economist escreveu num artigo de há 2 semanas:
«Mr Pollard was uniquely damaging: some of what he gave to Israel ended up in Soviet hands. They say that Mr Pollard was motivated not by patriotism but by ego and greed—Israel paid him handsomely, and he spent the money on cocaine, alcohol and expensive meals. He tried to sell documents not only to Israel, but also to several other countries».
Fiquei a remoer o que teria levado os israelitas a passar informação para os comunistas 40 anos depois de ter terminado o apoio pós-guerra da URSS a Israel (antes da aliança da URSS com Israel ser substituída pela aliança com a maioria dos Estados árabes). Em troca de quê?

A resposta chegou sob a forma de uma carta de Karl Polifka, Deputy director of intelligence US Central Command, entre 1989-91, que a Economist publicou na última edição:
«Well, yes, a very large amount of it was used by Israel to facilitate the large emigration of Soviet Jews to Israel. This severely damaged America's cryptology system to the extent that by1990 the damage-control bill had hit $2.5 billion. Although this may have been judged by the Israelis to be in their national interests, it was not in the interests of the United States. Ally? One does wonder
Em troca de judeus. Lord Palmerston não ficaria surpreendido. Duas vezes primeiro-ministro britânico no terceiro quartel do século XIX e também ministro dos Negócios Estrangeiros, disse nesta qualidade «Nations have no permanent friends or allies, they only have permanent interests.»

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (32) Unintended consequences (IX)

Outras marteladas.

Já várias vezes citei nesta série de posts as consequências indesejadas do intervencionismo dos bancos centrais na modalidade alívio quantitativo. Quando esse intervencionismo se associa, como frequentemente e nesta crise desde 2008 está a acontecer, à redução das taxas de juro os efeitos multiplicam-se. Com a redução das taxas de juro incentiva-se o investimento em activos de riscos e em projectos inviáveis sem retorno a taxas «normais». Com o alívio quantitativo proporciona-se a liquidez necessária para esse investimento.


Como o diagrama anterior mostra (fonte) as taxas reais dos títulos do tesouro americano a 3 meses são negativas desde 2008 e desceram aos níveis dos anos 70, com a «pequena» diferença que, sendo a inflação elevada nessa década, as taxas nominais de juro altas mitigavam os efeitos das taxas reais negativas.

Por muito empurrada que seja com a barriga, a factura acabará por chegar.

11/08/2015

Dúvidas (115) - Costa com «obra feita» em Lisboa. Amanhã em Portugal? (10)

Outras obras feitas de Costa.

Cada tiro cada melro
«Vitor Tito, o publicitário que nega ter feito os cartazes do PS que causaram polémica nos últimos dias, não é novo na relação quer com o PS quer com António Costa. A empresa de publicidade de Tito obteve, entre 2008 e 2014, contratos na ordem dos 836 mil euros com a autarquia lisboeta quando Costa era presidente, o que significou mais de metade da faturação nesses anos da sua empresa em contratos com entidades públicas. 

Agora, o publicitário recusa a ligação da empresa com a campanha polémica dos cartazes socialistas. Mas no PS são várias as fontes que indicam que terá sido ele mesmo, Vitor Tito, a título individual (e não através da empresa, daí que as suas declarações não o comprometam), a oferecer os serviços ao partido para a elaboração da segunda série de outdoors que o PS pôs nas ruas (a dos rostos com frases).»

(Observador)

CASE STUDY: Os amanhãs que cantarão, segundo o PS, ou o triunfo da fé e da esperança sobre a experiência (3)

Outros amanhãs.


Continuando os comentários ao relatório dos 12 sábios «Uma década para Portugal», vou continuar a abordar sequencialmente os seus cinco capítulos: 1. Princípios de governação económica pela confiança no futuro; 2. Diagnóstico económico e social; 3. O cenário macroeconómico; 4. Medidas para transformar as condições de crescimento da economia portuguesa e 5. Cenário final. Trato agora do capítulo 2.

2. Diagnóstico económico e social


Começa por se aceitar que a redução do investimento resultou da redução da taxa de poupança ainda antes da entrada no euro, o que se tinha negado umas páginas antes no capítulo 1. Conclui-se que a poupança das famílias se destinou nos últimos anos exclusivamente a pagar o crédito à habitação, sem se perceber que isso foi a resposta a incentivos que levaram a um excedente de 735 mil casinhas. Como tudo isso se compatibiliza com uma política de estimular a procura não se explica.

Continua a glorificar-se o investimento em infra-estruturas, boa parte delas improdutivas, o qual drenou recursos que ficaram indisponíveis para investimento produtivo e responsabiliza-se o «modelo de crescimento seguido nos anos 80 e 90», como se o modelo dos anos seguintes não fosse mais do mesmo acentuando as políticas erradas.

Com uma enorme inconsciência atribui-se à baixa das taxas de juro subsequente à adopção do euro e à «falta de enquadramento institucional» a «excessiva concentração de investimento em sectores de bens não-­transacionáveis» quando é visível que foi o «enquadramento institucional» de 12 anos de governos socialista (com a ajuda de 3 anos de governos PSD-CDS) que transformou a oportunidade de financiamento barato na ameaça das aplicações improdutivas. Insiste-se em ignorar que há mais de 15 anos que o crescimento da economia portuguesa é inferior à média europeia.

A taxa de poupança das famílias que umas páginas «atingiu valores preocupantes no auge da actual crise» passa umas páginas depois a atingir «valores superiores em 2 p.p. aos verificados antes da crise»,

No que respeita às contas externas, ao mesmo tempo que se nega o crescimento das exportações desde 2011 (8,3 mil milhões a preços constantes de 2011, em 3 anos de crise) exalta-se «desde 2005 a evolução muito positiva» (os mesmos 8,3 mil milhões a preços constantes de 2011, mas em 5 anos, dos quais 4 anos antes da crise). E ainda assim o crescimento das exportações desde 2011 deve-se, segundo os sábios, à «entrada em funcionamento de alguns grandes projectos em implementação desde antes da crise». Ficamos sem saber que projectos foram esses devidos ao governo PS que impulsionaram as exportações nos anos seguintes à sua queda.

Esta narrativa tem pouco a ver com a realidade e mais a ver com o paradigma orwelliano: «quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado... quem controla o passado, controla o futuro».

(Continua)

10/08/2015

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Não é um pouco esquizofrénico? (2)

Este post poderia ser uma continuação por más razões deste, no qual diagnostiquei a esquizofrenia que nos leva à obsessiva procura de portugueses em lugares de destaque para mitigar os nossos complexos de inferioridade. Ainda há dias assistimos ao delírio mediático a pretexto de António Simões.

Pois bem, temos agora disponível mais um herói nacional. Rui Salvador (ex-motorista de autocarros – também podemos a exaltar a nossa proverbial mobilidade social) montou uma chafarica unipessoal e lançou na internet um esquema de Ponzi ou de Dona Branca (cá está mais uma portuguesa ilustre que teria chegado ainda mais longe se fosse do tempo da internet) prometendo ganhos de centenas por cento ao ano.

O «apresentador evangélico» (uma espécie de tele-evangelista das finanças) como o classificou o El País chegou a enganar quase dois milhões de papalvos em 26 países. Em Espanha onde tem 250 mil clientes até já foi criado um movimento de lesados - bem poderiam ter consultoria dos nossos movimentos, o que seria mais um motivo de exaltação. (Fonte: Expresso)

Pro memoria (249) - Os assassinos são todos iguais, mas há uns mais iguais do que outros

«É constrangedor voltar a isto, mas constrange mais que, em 2015, os crimes do comunismo mereçam a indiferença, ou até a simpatia, que os crimes do fascismo felizmente nunca suscitaram. As vítimas deste foram mártires, as daquele obstáculos, baixas necessárias à construção do homem novo. Era assim em 1930 e assim continuamos, com as avaliações do Bem e do Mal hipotecadas a ideologias e com os representantes da iniquidade à solta por aí, a homenagear o "Che" nas T-shirts ou no olhar. Nos comentários da imprensa, nos programas de debate e nas notícias andam imensos, embora não sejam notícia pelas razões adequadas.»

Alberto Gonçalves, no DN a propósito das indignações por um futebolista português usar uma T-Shirt com o rosto do general Franco na apresentação na equipa espanhola

ARTIGO DEFUNTO: Há duas versões do relatório do FMI

esta versão oficial do Second Post-program Monitoring cujo Executive Summary apresenta os seguintes 5 highlights que são a transcrição integral dos itens 31. a 35. do «Staff Appraisal e de que não se encontram traços nos jornais:
  • «Portugal’s economic recovery remains on track, boosted by a generally supportive external environment and a rebound in confidence. 
  • Further fiscal adjustment is needed to reduce risks from high public debt, particularly given volatile market conditions. 
  • More decisive steps to improve banks’ balance sheets are needed. 
  • A proactive approach to corporate debt work-outs is needed to accelerate the structural transformation of the economy. 
  • It will be essential to regain momentum on structural reforms after parliamentary elections later this year.» 
E, suspeito, há outra versão só acessível aos mídia domésticos onde só se fala da sobretaxa do IRS. Só pode ser essa a explicação.

09/08/2015

ACREDITE SE QUISER: Cartazes do PS. Uma teoria da conspiração

Depois do outdoor de estética maoísta e poucos dias depois o outdoor associando subliminarmente o querido líder engavetado em Évora ao desemprego, seguiu-se hoje a demissão de Ascenso Simões, o director de campanha do PS, com uma explicação que é uma sugestão bastante mais do subliminar para o actual líder se demitir.

«Quem é responsável por uma máquina deve assumir todas as falhas que ela demonstra, deve tirar ilações de tudo o que, publicamente, se reconhece como erro», escreveu na sua página do Facebook Ascenso Simões, no mesmo Facebook onde em Outubro do ano passado escrevera a «missiva protesto» ao PR exigindo a Cavaco Silva que atribuísse àquele que viria a ser preso poucas semanas depois «a mais alta condecoração que o Estado Português entrega a todos os que exerceram a função de primeiro-ministro».

Nada acontece por acaso. Quem está por trás de tudo isto? Estará aquele que alguns intuíram ao recriarem o cartaz de estética maoísta?


E porquê estaria por trás aquele que pode estar por trás? O que teria sido diferente se a sua obra tivesse sido exaltada e se tivessem mantido as visitas ao estabelecimento prisional de Évora pelo outro que lhe ocupa o lugar? Nunca saberemos.

ACTUALIZAÇÃO:
Entretanto hoje (2.ª feira) ficou-se a saber que Ascenso Simões será substituído na direcção da campanha do PS por Duarte Cordeiro, um dos quatro deputados do PS de tendência Syriza que votaram a favor do não pagamos (eles chamaram-lhe reestruturação da dívida). É mais outro ziguezague de Costa a mostrar que não tem uma visão para o país e está simplesmente a tentar segurar as pontas do PS.

Exemplos do costume (32) – Querendo promover a homossexualidade insultam o homossexual

Se tivesse tido dúvidas sobre o sucesso da promoção da causa gay já as teria perdido por alturas deste post de há um ano em que citei a Economist que escreveu sobre «The Glass Closet» de Lord Browne: «he has even heard of business students pretending to be gay in order to increase their chances of landing jobs at elite companies».

Se, ainda assim, alguma dúvida tivesse sobre o sucesso, não sobreviveria às dezenas de referências nos mídia (e milhares nas redes sociais) ao facto de António Simões ser gay, a pretexto da sua promoção a CEO europeu do HSBC. Com poucas excepções, todas essas referências, sendo obviamente uma promoção da homossexualidade, ao atribuírem o sucesso de Simões ao facto de ser gay, são um insulto à sua competência e dizem mais sobre o jornalismo que temos do que sobre o próprio Simões.

Talvez em parte essas referências obsessivas à orientação sexual de Simões se devam à dificuldade interpretativa de muitos jornalistas da entrevista publicada no Expresso no princípio do ano em que Simões, certamente um sujeito inteligente, disse «se não fosse gay provavelmente não seria CEO do banco». No contexto dessa entrevista, isso significa que, segundo ele, o esforço de ultrapassar o preconceito o tornou «uma pessoa mais autêntica, com mais empatia e melhor inteligência emocional» e essa evolução permitiu-lhe estar melhor colocado para ser CEO do banco. Ou, dito de outro modo, não foi de per se a qualidade de gay que lhe permitiu ser CEO, foram as suas qualidades pessoais, apesar de ser gay – se fosse coxo não seria muito diferente.

CASE STUDY: bendita econometria (a confirmação)

Este é uma espécie de continuação do post de há 9 anos onde escrevi:

Segundo o modelo econométrico que os doutores Pereira e Jorge Andraz usaram no estudo "O impacto económico e orçamental do investimento em Scut" que acabam de publicar, por cada milhão de euros que o governo investir em infra-estruturas rodoviárias o efeito acumulado no PIB será de 18 milhões de euros, a longo prazo (quando todos estivermos mortos, como dizia o velho Keynes).

Ultrapassando a dúvida inconveniente que se poderia colocar a respeito dum país como a Irlanda que, não tendo praticamente auto-estradas, conseguiu em 20 anos passar de um PIB per capita igual ao português para praticamente o dobro, o modelo dos doutores Pereira e Jorge Andraz mostra claramente o auto-estrada para a convergência real.

Nove anos depois o multiplicador de Pereira e Andraz contribuiu para criar a 2.ª dívida pública mais elevada da UE e deu o resultado exemplificado no infograma da Visão (que mostra as AE do Sul incluindo as SCUT).

Clicar para ampliar

Para uma retrospectiva do que foram as SCUT, uma invenção de Cravinho apadrinhada por Guterres e continuada pela dupla Sócrates - Mário Jamais Lino, clicar a etiqueta CCUT.

08/08/2015

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (114 bis) – O maior fabricante de estatísticas indigna-se com esta alegada actividade do governo (as roupas mal cosidas do PS)

Escrevi que os deputados socialistas «rasgaram as vestes de indignação» pela «fabricação de estatísticas» de desemprego que atribuem ao governo – o que pode até resultar do excesso de boa vontade de quem projecta no outro qualidades próprias.

É verdade que a esquerda em geral, e os socialistas não são excepção, rasga tão frequentemente as suas roupinhas que já me tinha interrogado como poderiam ter em tempos de crise um guarda-roupa tão volumoso. Encontrei a resposta neste comentário com o exemplo dos «notáveis da nomenclatura religiosa judaica (que) usavam, em reuniões importantes, roupas com pontos fracos na confecção — zonas "mal cosidas". Assim, podiam "rasgar as vestes de indignação" e, mais tarde, em casa, mandá-las recoser.»

Quod suus eam!

Ressabiados do regime (17) – Abandonado pela pusilanimidade


Depois de se ter deixado arrastar pelos factos consumados do fundador Soares que impôs Sampaio da Nóvoa como candidato a Belém, António Costa, um líder pusilânime, parece estar deixá-lo cair no caixote do lixo dos embaraços do PS, fazendo companhia a Sócrates, à reestruturação da dívida e ao Syriza.

Não obstante a proclamação de ideias enevoadas para Belém e os múltiplos exercícios de vacuidade gongórica, Sampaio da Nóvoa vê-se abandonado pelo PS na companhia convicta de Soares e na companhia equívoca de Eanes e Sampaio.

É mais um condenado a remoer ressentimentos e a produzir platitudes com aquele ar de profeta incompreendido a revelar a Verdade ao povo ignaro.

ACTUALIZAÇÃO:
Para o abandono de Sampaio Nóvoa pelo PS passar a humilhação só faltava um «apelo» de 100 «notáveis» à candidatura de Maria de Belém e entre essas luminárias encontrarem-se dois reitores. Segundo o Expresso na próxima semana já não faltará nada.

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (XXXV) – Ad infinitum

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Segundo um estudo do National Institute of Economic and Social Research (NIESR), citado pelo Negócios, o terceiro programa de assistência irá afundar ainda mais a economia grega e a Grécia precisará de um perdão da dívida de 55% do PIB. É difícil não concordar com a primeira conclusão e quanto à segunda poderá duvidar-se se 55% serão suficientes.

Há só um pequeno problema quanto ao perdão preconizado pelo NIESR de 55% do PIB, equivalentes a 131 mil milhões, a saber: este perdão seguir-se-ia ao de 2011 de mais de 100 mil milhões de euros de dívida detida por privados, perdão cujos resultados foram tais que se tornou indispensável mais um resgate e, segundo o NIESR, um novo perdão ainda mais elevado.

O NIESR não explica no seu estudo o que terá mudado para se esperar que este processo não prossiga ad infinitum com grande gáudio dos eleitores gregos e provável irritação dos eleitores dos outros 18 países da Zona Euro, o que não preocupará especialmente o NIESR que estará mais atento aos eleitores britânicos.

Esta falta de explicação talvez se explique sabendo-se o que é o NIESR. Segundo o próprio NIESR, «is Britain's longest established independent research institute, founded in 1938 (and) is independent of all party political interests.» Esta independência convive alegremente com o facto do seu director Jonathan Portes ter sido o chief economist de Gordon Brown durante os anos em que o Labour esteve no governo e um dos inspiradores da política económica que deixou o UK de joelhos.

07/08/2015

BREIQUINGUE NIUZ: Costa em S. Bento e Benfica campeão

Desta vez é de vez. Não obstante mostrar uma subida da coligação PSD-CDS e uma descida do PS, a sondagem da Eurosondagem mostra sem lugar a dúvidas que há mais portugueses que acreditam que o Futuro Primeiro-Ministro de Portugal será António Costa (41,3%) do que os que acreditam que será Passos Coelho (34,7%).

É uma sondagem da máxima fiabilidade, desde logo porque se trata da Eurosondagem, uma empresa de Rui Oliveira e Costa, ex-deputado e dirigente do PS e comentador desportivo.

Qualquer dúvida residual sobre a fiabilidade da sondagem desaparece sabendo-se que na resposta à última pergunta a maior parte dos inquiridos (38,8%) também mostrou acreditar que o Benfica sem Jesus e com a dupla Vieira-Vitória será campeão.

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (43) – O PREC do GES. Nada aprendem e nada esquecem

O furor nacionalizador está tão incrustado nas meninges comunistas que nem mesmo o desastre que foi a nacionalização do BPN, que era para não custar nada e o nada poderá ficar em 7 mil milhões, e muito menos o facto de a resolução do BES até ver ser da responsabilidade dos accionistas e credores subordinados e do sector financeiro, no que respeita à capitalização pelo Fundo de Resolução do Novo Banco (ver FAQ do BdP a este respeito), fazem o PCP desistir da ideia de nacionalizar o BES. O comité central (do PCP e não do BES que esse está desactivado) assim o decidiu e o camarada secretário-geral assim o anunciou.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Eu diria mesmo mais


«Se tivesse sido a primeira-ministra Ferreira Leite a aplicar o memorando de entendimento, Pacheco teria sido o grande ideólogo da austeridade (e talvez passasse fins de semana na Marmeleira à procura de citações de Sá Carneiro para a justificar)

«Pacheco Pereira: Um político falhado», João Marques de Almeida no Observador

ACREDITE SE QUISER: Outro tiro no pé


Depois de ter produzido um outdoor «inspirado na melhor estética da revolução cultural maoísta ou, indo mais atrás, no "realismo socialista" da era soviética», o departamento de agitprop do Partido Socialista dá um salto em frente e produz um que subliminarmente aponta o dedo ao seu querido ex-líder, actual preso 44, contemporâneo do desemprego de «há 5 anos» e, como se isso fosse pouco, faz uma espécie de autocrítica aos socialistas que andam a brincar com as estatísticas de desemprego.

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (114) – O maior fabricante de estatísticas indigna-se com esta alegada actividade do governo

Há um limite para tudo na vida, até para a demagogia, a ignorância e a estupidez. Esses limites foram excedidos várias vezes na intervenção da deputada socialista Ana Catarina Mendes que acusou o governo de «fabricar estatísticas». Ainda que isso pudesse ter acontecido, os deputados socialistas que mantiveram de Conrado o prudente silêncio durante as cosméticas de toda ordem feitas durante os 6 anos do governo Sócrates (por exemplo o meio milhão que passou pela Novas Oportunidades entre os quais muitos desempregados e esqueço por piedade os anos de Guterres em que a administração pública inchou com dezenas de milhares de empregos) não têm um pingo de moral para virem agora rasgar as vestes de indignação.

Onde está a falsificação que a deputada Ana Catarina Mendes apontou?

  • Os 500 mil trabalhadores emigrados durante os 4 anos são afinal menos de 130 mil saídas líquidas, segundo os dados do INE; 
  • A população empregada a tempo completo não se reduziu, até aumentou 85 mil entre o 2.º trimestre do ano passado e o deste ano;
  • Os «desencorajados» não aumentaram - os «inativos disponíveis mas que não procuram emprego» na verdade diminuíram 12 mil; 
  • Quanto à destruição de 218 mil postos de trabalho foi na agricultura (que apesar disso aumentou a produção porque a produtividade melhorou) e na construção (que outra coisa poderia acontecer com o superavit de centenas de milhares de casinhas e o excesso de oferta rodoviária?).

Não há ninguém na Mouse Square of Economics que se envergonhe e se sinta obrigado a fazer uma correcção ao chorrilho de dislates da senhora deputada?

06/08/2015

ACREDITE SE QUISER: Há benfeitores que estão a pagar-nos 72% das despesas de saúde

«Os últimos dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística dizem-nos que os portugueses estão já a pagar do seu bolso 28% das suas despesas de saúde, uma percentagem que cresce continuamente», ilumina-nos o Dr. José Mário Martins, estomatologista e membro da Associação de Medicina de Proximidade num artigo publicado nesse repositório de iluminação que é o jornal Público.

De onde surgem dúvidas inquietantes. Quem serão os benfeitores que filantropicamente se dispuseram a pagar-nos 72% das nossas despesas de saúde? Será a Comissão Europeia, será a troika, será a Alemanha ou será a Grécia? Ou será o Pai Natal?

A maldição da tabuada (25) – A teoria dos números do emprego só tem números imaginários (III)

Continuação de (I) e (2).

É uma coisa doentia assistir outra vez a discussões estúpidas sobre o emprego, o desemprego e o subemprego em que o governo se-atacas-se, ou seja atasca-se e deixa-se atascar. Umas vezes porque faz leituras miraculosas sobre os dados estatísticos, tentando imitar o inimitável José Sócrates (ver esta saga do grande líder a propósito do seu programa de governo). Outras vezes a oposição, mesmo sem ajudas do governo, como é o caso agora com a divulgação pelo INE dos últimos números, faz leituras que são um insulto à inteligência dos eleitores com as meninges em bom estado.

Citando o Destaque do INE de 5 de Agosto:

«A taxa de desemprego no 2º trimestre de 2015 foi de 11,9%. Este valor é inferior em 1,8 pontos percentuais (p.p.) ao do trimestre anterior e em 2,0 p.p. ao do trimestre homólogo de 2014. A população desempregada, estimada em 620,4 mil pessoas, registou uma diminuição trimestral de 13,0% e uma diminuição homóloga de 14,9% (menos 92,5 mil e menos 108,5 mil pessoas, respetivamente). A população empregada foi estimada em 4 580,8 mil pessoas, o que corresponde a um acréscimo trimestral de 2,3% (mais 103,7 mil pessoas) e a um acréscimo homólogo de 1,5% (mais 66,2 mil pessoas). A taxa de atividade da população em idade ativa situou-se em 58,6%, valor superior em 0,1 p.p. ao observado no trimestre anterior e inferior em 0,4 p.p. ao do trimestre homólogo.»

Desta vez, estes números colocam um maior desafio aos delírios da esquerdalhada que não se poupa na demagogia e põe em causa os mesmos indicadores, metodologias e fontes que ainda recentemente aceitava quando mostravam um aumento do desemprego.

Já se escreveram no (Im)pertinências resmas de posts sobre a teoria dos números do emprego e falece-me hoje a pachorra para escrever mais do mesmo. Vou por isso remeter para o post «Mitos, falácias e verdades sobre o desemprego» do Insurgente que trata com a clareza habitual do assunto.

ACTUALIZAÇÃO:
Outra leitura recomendada para melhor perceber a realidade por trás da fantasia: «O que ninguém quer ver nos números do emprego e desemprego» de José Manuel Fernandes no Observador.

05/08/2015

Lost in translation (250) – O inglês é uma língua muito difícil

Por isso, não é de estranhar que o Público ao ler a imprensa inglesa tenha entendido «O mais rebelde dos trabalhistas quer enterrar o New Labour e ressuscitar a esquerda clássica» referindo-se à candidatura de Jeremy Corbyn à liderança do Labour, que se propõe não apenas enterrar o New Labour mas fazer o mesmo ao Old Labour afastando-o durante uma década do governo.

A percepção de que o esquerdismo de Jeremy Corbyn - um declarado admirador do Syriza - faz de Ed Miliband um centrista – o líder esquerdista anterior que enterrou o Labour na oposição para os próximos 5 anos – é tão forte que se especula estarem simpatizantes do Partido Conservador a gastar as 3 libras necessárias para se inscreverem como registered supporters do Labour e votarem em Corbyn.

Presunção de inocência ou presunção de culpa? (24) - O gesto é tudo (2.º acto)

Lula, Dirceu e Dilma
1.º acto (Novembro de 2013)

José Dirceu (ver alguns posts em que a criatura é mencionada), guerrilheiro, petista emérito, segundo homem no governo de Lula e organizador do «Mensalão» (o esquema de compra de votos dos deputados federais de outros partidos para votarem as propostas do governo Lula), pelo qual acabou de ser condenado, entregou-se às autoridades para ser detido de braço erguido e punho cerrado e ao som de «A Internacional» e de palavras de ordem gritadas por petistas solidários: «somos vítimas da imprensa elitista» e «presos políticos, outra vez».

Dirceu até ao ser engavetado mostra que é o «nosso homem», segundo a doutrina Somoza.

2.º acto (na passada 2.ª feira)

Desta vez o braço não estava erguido nem o punho cerrado. Ainda em prisão domiciliária a que foi condenado pelo seu papel no Mensalão, José Dirceu foi outra vez engavetado pelo seu papel no «Pixuleco»,  a 17ª fase do Lava Jato, um processo de extracção de dinheiro centrado na Petrobrás com ramificações que chegam a Portugal aos suspeitos do costume.

Por falar em suspeitos do costume, recomendo este artigo de João Miguel Tavares onde faz se faz a ponte da corrupção tropical para os sujeitos do costume cá deste lado do Atlântico: que vão desde José Guilherme (o amigo que oferece milhões a Ricardo Salgado), ao inevitável José Sócrates e o seu amigo Vara, passando por Paulo Lalanda e Castro (o empregador de José Sócrates), Hélder Bataglia e outros.

Espero ansiosamente que Miguel Sousa Tavares não deixe de vir, outra vez, em defesa do seu amigo Dirceu e, aproveitando as economias de escala, pode reincidir na limpeza das folhas de José Sócrates e do compadre Ricardo. Espero também que Ricardo Araújo Pereira acrescente Dirceu no Brasil às únicas três pessoas em Portugal que, segundo ele, Miguel Sousa Tavares considera acima de qualquer suspeita (José Sócrates, Ricardo Salgado e Pinto da Costa).

DIÁRIO DE BORDO: a passarada que me visita (28)

Gaio (Garrulus glandarius)

04/08/2015

Lost in translation (249) – Espero que os nossos amigos do Podemos sigam o exemplo do Syriza, queria ele dizer

«España aún corre el peligro de acabar como Grecia» garantiu Yanis Varoufakis, o ex-ministro das Finanças Gregas, ao El País. (veja aqui o vídeo e aprecie a bela camisa de Yanis)

CASE STUDY: Estado, muito Estado, demasiado Estado, ontem, hoje e amanhã (2)

[Continuação deste post]

Entretanto, a Fosun anunciou que vai aumentar o capital da Fidelidade em 607 milhões de euros, dos quais 500 milhões em cash, com vista a cumprir os níveis de capital requeridos pelo novo regime europeu Solvência II que entrará em vigor no próximo ano. Não haverá distribuição de dividendos ao accionista, contrastando com a distribuição de 600 milhões que o governo decidiu pagar a si próprio antes da privatização reduzindo o capital e distribuindo reservas (Fonte: Observador).

Em termos práticos, isto significa que a Fosun comprou 80% da Fidelidade por 1,7 mil milhões. De onde se pode concluir que o capitalismo de estado chinês trata melhor as suas empresas e tem melhores condições de as financiar do que o capitalismo de estado português.

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: A fábula do surto inventivo que nos assola (10)

[Outros posts sobre a mesma fábula: 08-08-2010; 28-11-2010;28-11-2012; 08-12-2013; 16-12-2013; 26-12-2013; 17-01-2014; 25-02-2014; 11-03-2014; 08-04-2015; 18-05-2015; 23-05-2015]

«Há cerca de um ano, quando muitos inundavam os media com textos inflamados sobre a "catastrófica, incompetente e ilegal" avaliação das Unidades de Investigação (AvUI) encomendada pela FCT à European Science Foundation (ESF), o Expresso publicou um curto texto em que eu adiantava alguns argumentos a favor dessa avaliação. Em resumo, eu considerava, então e agora, que a tão contestada AvUI fora superior às anteriores em abertura, equidade, isenção, transparência e estratégia. Já então me parecia que, sendo a distribuição dos resultados finais idêntica à da avaliação anterior que passara completamente desapercebida, os motivos de tal vozearia tinham certamente outras motivações. Note-se, desde logo, que os que mais protestavam tinham interesses diretos nas UI avaliadas, ou seja, faziam de juízes em causa própria com total à-vontade, talvez por força do hábito. Depois, sendo que os mais vocais eram próximos dos anteriores poderes na Ciência, não seria de excluir tratar-se de uma campanha política. O cidadão interessado, todavia, tem de ser respeitado e não se lhe deve vender gato por lebre. Acresce que falsidade nos dados e a falácia nos argumentos não podem ser nunca desculpados a personalidades da Ciência, ainda que a sua notoriedade nos media, que por vezes esconde a medianidade científica, possa convencer os menos informados. Por isso me insurjo, em defesa dos cidadãos instrumentalizados e dos que foram publicamente insultados, apenas por dar o seu melhor na defesa da Ciência.

03/08/2015

Dúvidas (114) – «Parlamento já está preparado para receber deputada cega»?

Falhou-me este título bizarro no diário da manhã, título que também me coloca dúvidas.

Se, apesar de não conhecer as competências da transexual Júlia Pereira que a qualificam para ser deputada, ainda percebo a sua inclusão nas listas do BE na quota do sexo, tenho mais dificuldade em compreender a inclusão nas listas do PS de uma deputada cega na quota da cegueira num parlamento onde esta deficiência é mais a regra do que a excepção.

Repito, pois, a dúvida. Se é por ser transexual ou ser cega, não deveríamos ter também candidatos assexuais, ou de sexo mutante, ou, por exemplo, paraplégicos?

Títulos inspirados (45) – O diário da manhã no seu melhor


Alguns títulos de agitprop no diário da manhã de hoje, jornal presidido pelo Dr. Proença de Carvalho, uma espécie de Mefistófeles do regime:

«Resolução do BES "pode custar muitos milhões aos contribuintes"»

«José Miguel Júdice e a deputada do BE Mariana Mortágua dizem que os contribuintes vão pagar»

Lamentavelmente nenhuma destas luminárias se manifestou sobre quanto vão pagar os contribuintes pela nacionalização do BPN tão celebrada pelo Berloque de Esquerda e não lhes convém perceber que, até ver, é o Fundo de Resolução dos bancos que tem a responsabilidade de suportar a diferença entre o capital injectado no Novo Banco e o valor da venda.

Já agora recorde-se que neste momento da negociação a diferença entre o empréstimo do Estado ao Fundo de Resolução (4,9 mil milhões) e a melhor proposta de compra do Novo Banco (4,2 mil milhões) é de 700 milhões de euros. A nacionalização do BPN que, segundo Teixeira dos Santos, era para custar nada, já vai em 7 mil milhões.

«509 mil desempregados não entram nas contas oficiais. Taxa seria de 22%»

«Há 257 mil inativos e 252 mil trabalhadores em situação de subemprego que não são contabilizados como desempregados pelo INE».

Não são nem nunca foram nem está previsto nos critérios do Eurostat. Se tivessem sido o desemprego que o preso 44 deixou também seria de 22%.

«Estado deve às famílias 19,6 mil milhões. Mais 40% num ano»

Não se assustem, o que a criatura quereria significar é que as famílias estão a poupar mais e a aplicar as suas poupanças em certificados de aforro.

Bons exemplos (102) - «As empresas privadas têm de se mexer por elas próprias», lá ter, têm

«Os governos não estão cá para salvar as empresas privadas. Têm que avaliar o risco sistémico, o que afecta os contribuintes, mas não estão cá para as salvar. Mas não estou na posse de toda a informação. Acho é que estas coisas não se devem transformar em temas políticos. Isto é a falência de uma empresa, de um grupo financeiro, não tem nada a ver com política. Acho que Passos Coelho, e o tema do BES é simbólico, tem feito uma reforma na economia, no sentido em que as empresas privadas têm de se mexer por elas próprias. (...)
Por muito que isto me custe, a vida é assim mesmo. É bom que os privados percebam isso. E isso pode ser uma verdadeira reforma na economia.
»
Isabel Vaz, ex-presidente da Espírito Santo Saúde do GES e actual presidente da Luz Saúde participada Fosun através da Fidelidade, em entrevista ao Negócios.

CASE STUDY: Estado, muito Estado, demasiado Estado, ontem, hoje e amanhã

«A Fosun comprou a Fidelidade por €1,1 mil milhões. A Fidelidade investiu mil milhões em dívida da Fosun e mais €300 milhões em imobiliário espalhado pelo mundo. Imóveis que ninguém conhece e papel comercial cujo risco é elevado. O supervisor dos seguros diz que está tudo bem. Que não há problema em pegar nas poupanças dos portugueses e enviá-las para a China, Austrália ou Japão. (…)
O supervisor que garante que é tudo transparente e de acordo com as regras é o mesmo que foi convidado para ir falar num seminário da Fosun em Xangai, a título pessoal, que tirou férias para o fazer e que até pagou do próprio bolso a deslocação e estada durante três dias. E ninguém acha estranho. Pois eu acho. E muito. (…)»
Compreendo as preocupações e as críticas de João Vieira Pereira – que faz parte da minoria de jornalistas que me parecem profissionais e independentes - no seu artigo «E se não vendessem o Novo Banco?» no Expresso, a propósito da Fidelidade. Ainda assim, convirá olhar para o fotograma sem perder de vista o filme de onde foi extraído e que vem sendo rodado nos últimos 40 anos.

02/08/2015

CONDIÇÃO MASCULINA: Camille Paglia sobre a fraqueza do sexo anteriormente considerado forte - «Sim, sim! É isso aí!»


Camille Paglia é uma feminista dissidente, professora na universidade de Filadélfia, conhecida pelas posições heterodoxas face ao feminismo, de que foi uma figura de proa, e pelo seu repúdio de sempre do movimento politicamente correcto. O texto seguinte é a tradução livre de um excerto da entrevista da revista online SALON a Camille Paglia (via Portugal Contemporâneo) que fica muito bem na área temática «Condição masculina» do (Im)pertinências na companhia de dezenas de outros posts.

«O que estou a dizer é que a sexualidade masculina é extremamente complexa e a formação da identidade masculina é muito hesitante e sensível e a retórica feminista não permite compreendê-la. É por isso que as mulheres têm tanta dificuldade em lidar com os homens na era feminista. Não os entendem e demonizam-nos. As mulheres pensam que os homens têm muito mais poder no sexo do que eles realmente têm. As mulheres controlam o mundo sexual de uma forma que a maioria das feministas simplesmente não entende.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA:«O horizonte cor de rosa»


«O novo cartaz da pré-campanha eleitoral do Partido Socialista parece inspirado na melhor estética da revolução cultural maoísta ou, indo mais atrás, no "realismo socialista" da era soviética. O cartaz retrata uma jovem com ar sonhador a puxar uma cortina que, por um lado, tapa um céu carregado de nuvens negras e, por outro, abre para um sol radioso em fundo de céu azul. 

A frase inscrita neste amanhecer maravilhoso tem igual inspiração: "É Tempo de Esperança". Podia ser "o horizonte é cor de rosa" (adaptação do maoísta "o horizonte é vermelho"), mas ficou mais próximo dos "amanhãs que cantam", surripiada ao Partido Comunista. Em qualquer caso, o que lá está é todo um programa. Um passado tormentoso, em que o Partido Socialista não se revê, um futuro de felicidade, que o Partido Socialista antecipa.

01/08/2015

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (113) – Faz como eu digo e não como eu faço

Mário Centeno, uma criatura socialista («liberal, a caminho de ser ministro», sabe-se lá o que isso significa para o Expresso), Ph.D. in Economics e M.A. in Economics pela Harvard University, lê o programa da coligação PSD-CDS e diz ao Observador:
«Não é assim que se faz política, muito menos em tempo de eleições. Aos olhos de um economista o que salta à vista é o que não está lá. Não está nada quantificado. Não estão identificados os custos de cada medida de modo individual. E há aqui potenciais bombas atómicas.»
Mário Centeno diz isso estribado na sua autoridade de futuro ministro do Futuro Primeiro Ministro de Portugal e colaborador do programa do PS que nas suas densas 134 páginas apresenta as seguintes quantificações, entre as quais não se encontra um único custo de uma só medida:
  • 600 milhões de euros (custo das 150 mil reprovações anuais no ensino básico) 
  • 300 milhões de euros (custo das infecções em meio hospitalar) 
  • 1.000 milhões de euros (receita de IRC não cobrada pela não revisão dos benefícios fiscais) 
  • 120 milhões de euros (cadência regular da contrapartida financeira nacional do PDR) 
  • 5.000 milhões de euros (défice tarifário)
Não desfrutasse Centeno da boa imprensa de Costa e o jornalismo de causas roer-lhe-ia as canelas mal ele tivesse acabado as suas declarações.

DIÁRIO DE BORDO: Herr Schäuble tem razão, mas o mais importante não é a razão dele


Possivelmente vai ser mais um pretexto para vilipendiar Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças da Alemanha. No entanto, Schäuble uma vez mais tem razão ao defender que Comissão Europeia não deveria ter um papel político mas apenas de enforcement da legislação europeia e de supervisão das regras do mercado interno.

Na verdade, a CE é um órgão não eleito cujos membros são nomeados em resultado de cozinhados entre os países dominantes da EU e que tendem a prosseguir os próprios seus interesses como corporação, empurrando os Estados para uma «construção europeia» que dá sentido aos seus lugares e brilho aos seus egos, Construção que tem sido um processo com contradições que foram sendo resolvidas com uma espécie de abordagem maoísta de grandes saltos em frente.

E chegamos assim ao que verdadeiramente interessa e que possivelmente Wolfgang Schäuble, um europeísta convicto («le dernier européen» du cabinet Merkel, palavras de Jürgen Habermas), terá dificuldade em reconhecer. A construção europeia cada vez mais se revela uma perigosa utopia que no passado foi sendo enfiada pela garganta dos eleitorados à custa do lubrificante da ilusão de eterna e crescente prosperidade e do complexo de culpa alemão. Estando a crescente prosperidade comprometida no horizonte visível e em dissipação o complexo de culpa alemão (afinal só os alemães vivos com mais de 90 anos podem ter algum), ganha cada vez mais peso a realidade de 28 países com histórias, culturas e línguas diferentes que no passado se guerrearam frequentemente entre si, com níveis de desenvolvimento muito diferentes.

Essa realidade é incompatível com um Estado único como a história tem demonstrado e ainda mais incompatível com l'air du temps das autonomias e independências - nos últimos 35 anos a União Soviética desintegrou-se em 15 Estados, a Checoeslováquia e a Jugoslávia deram origem a 9 Estados e na Espanha várias regiões e no Reino Unido a Escócia querem a sua independência.