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01/02/2015

Mitos (185) – A democracia liberal não nasceu na Grécia mas pode morrer lá

Com a vitória do Syriza, uma vaga de excitação invadiu os mídia domésticos infestados de esquerdalhada.

Não faltam exemplos, mas vou referir o caso do Expresso onde o camarada Tsipras, Alexis para os amigos, faz a capa da revista e oito densas páginas incluindo um panegírico do tele-evangelista Louçã. De entre as numerosas efabulações, destaco uma de Nicolau Santos, cuja imensa credulidade às narrativas que gosta de ouvir já o fizeram enfiar barretes históricos, como a fraude do alegado professor doutor Artur Baptista da Silva, alegado membro do PNUD e alegado chefe de uma missão da ONU para montar em Portugal um Observatório dos países da Europa do sul em processos de ajustamento.

Escreve o pastorinho Nicolau: «a esmagadora vitória do Syriza na Grécia representa o grito de revolta de um povo a que, depois de terem tirado muito, estavam a tirar a esperança. E foi essa esperança que o Syriza veio dar aos gregos - para já apenas em palavras

«Esmagadora vitória» é uma vitória em que o Syriza tem 2,2 milhões em 6,2 milhões de votos expressos (36,34%) e 9,9 milhões de votos possíveis (22,7%) e obtém 49,7% dos deputados com um suplemento de 50 lugares para o partido mais votado, expediente constitucional a que o Syriza sempre se opôs – até beneficiar dele. Escreve Luís Marques umas páginas mais à frente, a «vitória da extrema-esquerda é o resultado do colapso do sistema politico grego assente num bipartidarismo corrupto que arrasou a Grécia para a bancarrota. Basta olhar para o resultado do PASOK, o partido socialista local que dominou em larga medida a política grega do pós-guerra para perceber o descrédito a que chegou.»

«Grito de revolta de um povo»? Só se for contra as suas elites medíocres. Para usar as palavras de João Vieira Pereira, duas páginas antes da prosa gongórica de Nicolau Santos, «A crise grega é gigante. E os primeiros culpados são os gregos. A Grécia andou durante anos a inventar, que era um país cumpridor e eficiente. Na realidade andou a enganar os parceiros da zona euro. Inventaram a subsidiodependência e a desorçamentação. Fomentaram a economia paralela como um modo de vida. Faziam o que queriam, enganavam e ainda se gabavam disso. Algo facilmente atestado por que visitou essa Grécia. Quando a troika chegou fizeram o mesmo. Iam dizendo que sim mas empurraram com a barriga as principais reformas estruturais que lhe foram exigidas.»

Numa coisa Nicolau Santos tem razão, a coisa é «para já apenas em palavras». E o melhor que poderá acontecer é ficar por aí, antes de os coronéis voltarem a sair dos quartéis.

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