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25/02/2015

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (VIII) – a lista do Yanis não é SMART

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Afinal em que consiste a «first comprehensive list of reform measures it is envisaging, to be further specified and agreed by the end of April 2015» enviada por Yanis Varoufakis ao presidente do Eurogrupo?

Trata-se de um enunciado em 4 páginas A4 com 63 medidas cuja formulação chumba no teste SMART que qualquer estudante de gestão tem obrigação de conhecer. De facto, nenhuma dessas medidas é simultaneamente Specific, Measurable, Achievable, Realistic, Time-Bound, o que desde logo tem uma consequência: a menos que a troika as instituições as especifiquem, tornem verificáveis, atingíveis, realistas e com prazo de aplicação não vai ser possível sequer concluir se foram cumpridas.

Comentando algumas das poucas medidas que se podem considerar verificáveis:
  • Reduzir o número de ministros de 16 para 10 - gostava de ouvir o que tem a dizer sobre isso o PS e a esquerdalhada que tanto criticaram este governo a respeito da redução de ministérios;
  • Manter as privatizações que «tenham sido completadas» - é claramente um recuo do governo Syriza-Anel mas a medida seguinte («rever as privatizações que ainda não tenham sido enunciadas») permite tudo, a menos que a troika ponha ordem na caserna; 
  • «… the ambition to streamline and over time raise minimum wages in a manner that safeguards competiveness and employment prospects» (a formulação desta medida é um case study da treta semântica saída das meninges de um esquerdista) – daqui resulta outro evidente recuo no aumento do salário mínimo, mas fica a porta aberta para os maiores dislates.
Em conclusão, ou bem que a troika converte as 4 páginas de verborreia em algo exequível e verificável que contribua para a consolidação das contas públicas e obrigue aquela gente a fazer as reformas mínimas para tornar a economia grega competitiva, ou bem que a única consequência deste acordo é empurrar o problema com a barriga para a frente até que a barriga bata na parede. Nesse caso, o melhor desfecho será a saída da Grécia mais ou menos controlada da Zona Euro. O pior será o colapso da Zona Euro.

Actualização:

Afinal o enunciado das medidas, ainda que vago, pode não ter sido produzido pelo governo grego mas por um alto funcionário da CE. A ser assim, imagine-se se tivesse sido obra de Varoufakis.
Depois de o Eurogrupo e a CE terem feito o seu papel de polícia bom, et pour cause, estão agora a chegar ao local do crime os polícias maus. O BCE e o FMI avisaram hoje que para avançarem com os fundos que restam do programa de assistência são necessários «clear commitments on tough pensions, VAT, privatisation and labour reforms» (FMI) e porque «the commitments outlined by the authorities differ from existing programme commitments in a number of areas … we will have to assess whether measures are replaced with measures of equal or better quality in terms of achieving the objectives of the programme» (BCE).

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