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07/03/2011

Estado empreendedor (45) – o efeito Lockheed TriStar avant la lettre

Já contei a história do Lockheed TriStar que me inspirou o efeito com o mesmo nome designando uma estratégia que consiste em torrar mais dinheiro a pretexto de recuperar o dinheiro já torrado. A obra acaba sempre numa perda muito maior do que a já inevitável no momento da decisão de entornar lhe mais dinheiro em cima.

Recontando a história: nos finais dos anos 60 a Lockheed desenhou um novo avião para concorrer com o Boeing 747, que usaria motores revolucionários especialmente desenhados pela Rolls Royce. Primeiro desastre: a Rolls Royce entrou em falência para produzir os motores a um custo 4 vezes superior ao orçamentado. Para piorar as coisas, o choque petrolífero de 1973 aumentou o preço do jet fuel a um nível que tornou economicamente inviável para as companhias de aviação a operação do Tristar com esses motores excessivamente gulosos, desenhados para os tempos do petróleo a pataco. Segundo desastre: a Lockheed, com o argumento de já ter investido muitos milhões de dólares, decidiu continuar a investir e a produzir o L-1011 TriStar para não perder o investimento já realizado. Em resultado, ao fim de 14 anos de produção, vendeu, a preços de saldo, metade do volume de break-even e perdeu várias vezes o valor que teria perdido se interrompesse a produção em 1974, quando já era claro que o avião era inviável.

Na altura em que baptizei o efeito, a propósito da Quimonda, não me ocorreu que por cá já tínhamos tido um efeito Lockheed Tristar avant la lettre. Em 1981, quando já toda a gente tinha percebido que o avião estava condenado, até a própria Lockheed, estava o Conselho de Ministros da altura, chefiado por Pinto Balsemão, a assinar quatro Resoluções 10/81 a 14/81 de 5 de Fevereiro concedendo avales a vários empréstimos da TAP totalizando 350 milhões de dólares para a compra de cinco aviões Lockheed Tristar L1011-500, motores e acessórios. Depois de muitos anos de custos de operação elevadíssimos a TAP foi-se vendo livre destes aviões vendendo-os a preços de saldos a vários pequenos operadores (Air Luxor, EuroAtlantic, etc.).

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