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09/03/2011

CASE STUDY: Engolir o sapo ou deixá-lo cozer?

É conhecida a fábula, muito contada nos meios do change management, do sapo caído por acidente num tacho com água, ao lume. O sapo – um animal de sangue frio - começa por sentir-se confortável. A água vai gradualmente aquecendo e o sapo só se apercebe demasiado tarde quando as primeiras bolhas da fervura começam a soltar-se do fundo do tacho. A fábula ilustra o problema bem conhecido resultante das limitações da percepção humana e social nos processos graduais de mudança do ambiente económico, financeiro, social ou político.

O que se está a passar com o aumento dos yields da dívida pública, com a informação maciça e habilmente manipulada pela clique socrática, poderia ser um case study no qual o sapo é um eleitorado manso, ignorante da sua ignorância e iluminado obscurecido por elites arrogantemente ignorantes - lembre-se, a propósito, o caso do tonto João Soares, durante a recente campanha eleitoral, a tentar diminuir Cavaco, dizendo que a gloriosa história portuguesa não se fez com contabilistas. As luminárias que não são arrogantemente ignorantes a este respeito, são notoriamente dependentes do Estado e de quem ocupa o seu aparelho administrativo e só agora começam a mover-se espreitando os lugares no novo comboio que ainda não sabem se sai da estação.

Por tudo isto, não admira que tenha vencimento, até na oposição, a narrativa de José Sócrates dos perigos duma eventual intervenção do FMI e das feridas insanáveis que pedir ajuda infligiria ao orgulho nacional. Como se pedir ajuda não fosse o que andamos a fazer recorrentemente, desde a adesão à CEE em 1986 e intensamente desde 2008, em particular ao BCE, cujas torneiras se fechassem amanhã teríamos que comer o alcatrão das auto-estradas, o cimento dos estádios de futebol e da multidão de casinhas que andamos a semear pelo país e pôr no prego a legião de plasmas que plantamos nas nossas paredes.

Como já foi defendido no (Im)pertinências várias vezes, deveríamos rapidamente negociar com o FMI e o FEEF a reestruturação da dívida, um haircut, o reescalonamento e a fixação de juros mais baixos. Não o fazer, poderá ser muito útil para prolongar a agonia do governo de José Sócrates, mas irá exaurir fatalmente o país.

Este gráfico não representa a temperatura da água do tacho

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