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21/10/2016

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: A agenda do jornalismo de causas

«Esta situação oferece-nos duas lições preciosas, tenhamos nós olhos para as ver e boca para as comentar – a primeira sobre os sindicatos, a segunda sobre a comunicação social. Comecemos pelos sindicatos e pelo grande mérito da solução de governo inventada por António Costa: trazer para o arco da governação o Bloco de Esquerda e, sobretudo, o PCP. É certo que eles insistem em manter um pé dentro e outro fora, mas aí o abraço de Costa tem-se revelado eficaz – ninguém se pôs ao fresco. Qualquer português reconhece na actual solução de governo o envolvimento do PCP e respectivas consequências a nível sindical, com uma diminuição acentuadíssima da conflitualidade social, que antes era intensamente produzida por sindicatos da CGTP, sobretudo na educação e nos transportes. Veja-se o Metro de Lisboa: nunca havíamos assistido a uma queda tão acentuada na qualidade do serviço e não há uma greve para amostra.

Isto demonstra que o sindicalismo português é pura encenação. Já toda a gente sabia que a CGTP era menos uma agremiação de sindicatos do que um braço político do PCP, mas agora está demonstrado para além de qualquer dúvida razoável. Quando o governo voltar a ser de direita e os sindicatos voltarem a sair à rua, iremos todos lembrar-nos da sabática do senhor Mário Nogueira, o homem que no seu monopólio sindical nunca vai à 5 de Outubro sem passar primeiro pela Soeiro Pereira Gomes.

A segunda lição a tirar daqui é para a comunicação social portuguesa e para o seu estado de dependência das fontes institucionais, sejam elas gabinetes ministeriais, agências de comunicação ou sindicatos. O alinhamento do Telejornal não pode estar dependente das iniciativas da Fenprof: se Mário Nogueira fala as escolas estão mal, se ele está calado as escolas estão bem. É mais do que tempo de os media começarem a sair para a rua e definir a sua própria agenda, deixando para o Avante! a agenda do PCP.»

«O desaparecimento de Mário Nogueira», João Miguel Tavares no Público

Nota:
É claro que João Miguel Tavares como jornalista não pode  retirar (poder, poderia mas está provavelmente acima das suas posses) do que escreve as óbvias conclusões: não se trata dos mídia portugueses dependerem de fontes institucionais, como se viu, se vê e se verá cada vez que a esquerda não está presente no governo; trata-se de uma dependência dos partidos de esquerda e do jornalismo de causas, um fenómeno que em abstracto também se colocaria com os partidos de direita mas que, por razões históricas e da infiltração das redacções, na verdade só tem consequências relevantes com a esquerda.

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