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15/10/2016

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: O mistério do Angoche (6)

Com este fascículo termina aqui esta espécie de conto, escrita a pretexto do misterioso caso do Angoche há 45 anos, sobre a aventura de Ulisses Trinta e Quatro a bordo do dito Angoche no Canal de Moçambique. Haverá mais produções do autor impertinente APS? Ninguém sabe. Nem o próprio.

48. Leviatã [continuação de (1), (2), (3), (4) e (6)]

«Ao longo dos anos lá se foram revelando os dotes anunciados pelo senhor Ulisses como sejam as mezinhas para curar esta ou aquela maleita para a qual as receitas técnicas modernas não estavam disponíveis ou não existiam de todo mas também facetas totalmente estranhas que ninguém compreendia muito bem qual seria o sentido como era a circunstância de em cada porto onde paravam ter família constituída, imagine-se, por mulher e os respectivos filhos com os quais genuinamente se preocupava e procurava ajudar por todos os meios que estavam ao seu alcance, que não eram muitos e aparentemente tal dedicação era plenamente reciprocada. 

Bizarra era também a ideia de se atar durante horas ao pau de carga que ficava a meio do convés entre os dois porões de carga. Era um ritual que ocorria em situações cujo racional nunca foi explicado mas que o senhor Ulisses escondia por detrás de um sorriso tão enigmático quanto o era o próprio ritual. Começava por atafulhar os ouvidos com uma massa qualquer, normalmente pão que ele próprio, previamente, mastigava, e depois imobilizava-se, atando-se solidamente pelos tornozelos ao pau de carga, depois fazia o mesmo por altura dos joelhos, da cintura e do peito; com uma faixa de pano prendia a cabeça entrepondo uma almofada, depois pedia ajuda a um elemento da tripulação, geralmente aquele e quem tinha endireitado a espinha, para lhe prender fortemente os pulsos por detrás do pau de carga e assim ficava durante horas sem se poder mexer e com a recomendação expressa e jurada de, fizesse ele o que fizesse, pedisse ele o que pedisse só o libertariam quando adormecesse naquela incomoda situação. Só uma vez se mostrou violentamente agitado tentando libertar-se e gritando para que lhe acudissem mas a tripulação respeitou o pedido que lhe era feito e só o socorreu depois de adormecer. Viram então um senhor Ulisses extremamente cansado mas infinitamente feliz a confessar que ficava grato por não o terem libertado fora de tempo.

Depois de muitos anos e de várias rotações da tripulação o único membro que conhecia a história de todos era o Senhor Ulisses, tudo o resto mudara e era diferente. Um dia depois de aportados a uma cidade do norte o senhor Ulisses foi chamado pelo comandante que tinha uma notícia boa para ele: iria ficar de férias durante uma viagem. O navio tinha pela primeira vez um passageiro especial e seria altamente inconveniente para o navio e para a tripulação que esse novo passageiro partilhasse esta viagem com o passageiro de todas as viagens. Tratava-se de um inspector e como o próprio senhor Ulisses sabia a sua situação no navio não era legal e consequentemente teria de ficar em terra até ao regresso do navio voltando então ao seu trabalho como já há tanto tempo o fazia. Além do mais, não deixaria nesse período de férias algo forçadas, de receber o seu ordenado, decisão unânime de toda a tripulação que iria certamente ter saudades do senhor Ulisses. Mostrava-se inflexível, o oficial, mesmo perante as lágrimas silenciosas do senhor Ulisses que ficou em terra a ver o navio a fazer-se ao mar e com a tristeza nos olhos dos que vêem alguém pela última vez. 

Seria impossível não perceber o estado de alma do senhor Ulisses e o marinheiro que tinha a coluna meio fraca e que o senhor Ulisses lhe endireitara um dia, no último minuto ainda veio a terra dar um abraço ao desconsolado alinhador de espinhelas que abraçando-o gemia-lhe em surdina:

Os comandante não poder! Só eu proteger tripulação das voz das mulher. Os comandante não saber fazer isso!»

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