«Sou um utilizador frequente de táxis em Lisboa (várias vezes por semana). Há vários meses sou utilizador da Uber, de forma crescente, hoje em dia quase exclusiva. Julgo que, enquanto consumidor, sei do que estou a falar.
Há 10 anos que saio de Portugal via Portela (desde Maio deste ano tem sido via Humberto Delgado) pelo menos 10 vezes por ano. Há pelo menos 10 anos que nunca mais fui apanhar um táxi às chegadas. Subo às partidas e aí apanho um táxi. Porquê? Porque os que estão lá em baixo com o único intuito de lhes sair na rifa um estrangeiro incauto e enganá-lo formam uma mafia que controla o aeroporto. Não sou eu que o digo, mas sim os inúmeros taxistas lá de cima, eles próprios maltratados pelos colegas.
Naturalmente essas poucas dezenas de taxistas não são o bolo, só são uma fatia, mas uma fatia bem podre que, não contaminando o bolo, contaminam sim a imagem do bolo.
Quanto aos outros, sejamos realistas: muitos (não todos, eu sei) têm carros velhos, nunca usam ar condicionado, andam de janela aberta, conduzem como Fitipaldis ou andam ao rallenti. Frequentemente os carros cheiram a tabaco. Mais do que uma vez, os condutores – os mais velhos – cospem pela janela ou parecem ser tuberculosos (não o digo para ser mau: é a minha experiência). Várias vezes tenho que pedir para baixarem o volume do rádio ou tirar a merda do relato do futebol. Fazem-no, normalmente de má vontade.
Antigamente os taxistas conheciam todas as ruas. Hoje em dia é raro os que sabem e frequentemente me pedem o caminho, não no sentido de saber se eu tenho um caminho preferido (isso até seria um bom serviço) mas sim porque andam á nora.
Isto não retira o facto de haver taxistas de primeira qualidade, tanto na qualidade do carro, na qualidade do trato, na qualidade do serviço. Esses mereceriam trabalhar para a…Uber! Uma vez gostei tanto do serviço de um deles que passei a usá-lo para ele ir buscar a minha filha quando ela saia à noite. Em Madrid, tenho o número do telemóvel de um taxista fixo que me vai buscar e levar ao aeroporto. Poupo 5 Euros, o homem é simpático e o serviço bom.
Nem tudo é mau nos táxis. Tem havido renovação do parque automóvel (mesmo sem esconder que tenho saudades do antigo Matateu) e dos próprios condutores. A aplicação MyTaxi é bastante boa. Pena que tenha surgido em resposta directa à Uber. Benefícios do aparecimento da concorrência…
Grande parte do problema para mim, como sempre, é o Estado. Ao impor um número máximo criou artificialmente um mercado de licenças (um alvará em Lisboa pode – ou podia – ultrapassar os 110 mil euros!). Sem esse alvará, parece-me que a resolução seria fácil: impunham-se condições de acesso ao mercado iguais (formação, seguro, impostos). O resto é o mercado a funcionar. Outra regra bizantina: um táxi que vai de Loures a Lisboa não pode carregar um passageiro em Lisboa, obrigando o de Loures a pagar a volta. Isso sim é defesa do consumidor. Na mesma linha, eu proibiria os corretores de Lisboa trabalharem no Porto. Outro ponto que me irrita: a bandeirada e o custo da chamada: mais de € 4 logo à cabeça para ir do Chiado à Rua de Santa Marta! Ontem fui de Uber. Paguei € 3,82. Directamente descontado de um cartão Visa sem custos adicionais. Gorjetas (isso é um problema real nos EUA que neste aspecto são terceiro mundistas… )? Nunca! Recebi factura detalhada por e-mail no minuto seguinte a ter terminado a corrida. Com um táxi, tenho que esperar que ele passe a factura, dizer duas vezes o número de contribuinte, soletrar o nome da empresa e lá me entrega ele um recibo, naturalmente depois de ter lambido o dedo para conseguir destacá-lo mais facilmente.
O serviço da Uber é simplesmente melhor: carros limpos, condutores educados, música à escolha, temperatura à escolha, chamada dos veículos à vontade, possibilidade de escolher um veículo ecológico (eléctrico) ou um mais topo de gama (paga-se mais, mas se for isso que o cliente pretende, tudo bem).
Ah! um pormenor: a corrida com a Uber é quase sempre mais barata do que a do táxi (com uma ressalva: nunca fiz percursos longos, mas dizem-me que do Aeroporto a Cascais também é ligeiramente mais barato).»
De um email do Agent Provocateur, leitor bastante impertinente e amigo do (Im)pertinências
Notas do «editor»:
(1) Tomando os 110 mil euros como valor de mercado do alvará e sabendo-se que, segundo o troll presidente da ANTRAL, existem 4.500 táxis na área metropolitana de Lisboa, e esquecendo o resto do país onde existem, também segundo o troll, mais 8.500 táxis, chegamos a um valor da capitalização das rendas do «oligopólio dos táxis» de 500 milhões de euros. Preparem-se para uma longa guerra da corporação.
(2) Parece que o presidente dos afectos vai receber uma delegação de trolls. Para quem ache insólito, a foto do presidente quando jovem esclarecerá as «afinidades electivas».
Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
