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07/10/2016

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: O mistério do Angoche (3)

Uma espécie de conto em fascículos, a pretexto do misterioso caso do Angoche há 45 anos, sobre a aventura de Ulisses Trinta e Quatro a bordo do dito Angoche. O autor APS, de quem já aqui publicámos há dez anos os «Contributos para a Teoria Geral do Prego» é um dos detractores mais impertinentes do (Im)pertinências.

48. Leviatã [continuação de (1) e (2)]

De certo modo a coisa vinha a calhar porque havia claramente a intenção de contratar apesar de ilegalmente, alguém que desempenhasse um conjunto de tarefas que nas nossas casas são sempre ou quase sempre ou, ainda mais precisamente, eram sempre ou quase sempre desempenhadas pelas mulheres: basicamente pôr alguma ordem na organização, algum modesto asseio e um pouco de brio no quotidiano sem o que, mais cedo ou mais tarde, se perdem, desde os mais latos aos mais pequenos, os resquícios de civilização, coisa que temos, ou muito melhor, tínhamos de agradecer às mulheres.

Importava saber quais eram as habilidades do senhor Ulisses mas o que roía de curiosidade o imediato era o raio de nome do cidadão candidato a viajar no novíssimo bote acabado de chegar às terras de África: Ulisses Trinta e Quatro era coisa que não passava pela cabeça do mais maduro deste mundo, incluindo África, que na altura não era deste mundo e hoje ainda se discute se é.

O cidadão Ulisses mostrou-se um livro aberto no que concerne às suas competências:

cozinheiro excelente,
copeiro de primeira apanha
garçon atencioso
lavadeiro imaculado
passador de roupa a ferro topo de gama
camareiro discreto
faxineiro generalista
curador de espinhelas caídas
preparador de mezinhas quanto baste 
adivinho só e sempre que necessário
feiticeiro a pedido mas nem sempre
entendedor de horas, ventos e marés, automático

E o relambório de virtudes (conforme se terá oportunidade de verificar) nem sequer foi exaustivo e, tudo isto, mau grado o fulano não saber ler nem escrever.

Para pagar a viagem comprometia-se solenemente e deu a sua palavra de honra (também, aparentemente, não tinha mais nada para dar) de trabalhar afincadamente de modo a não deixar nos comandante e nos marinheiro, a mais leve reticência quanto à qualidade e valia dos seus esforços e resultados 

Ao oficial afigurou-se-lhe que o curriculum desandava fortemente para o lado da fantasia utópica mas a ser verdadeiro seria de aproveitar; o melhor seria falar com o comandante, um pouco mais batido nestas coisas de África e dos seus segredos. O comandante foi curto e grosso:  

O nharro sabe cozinhar? Se sabe, esqueça o resto. 

(Continua)

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