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01/10/2016

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: O mistério do Angoche

Uma espécie de conto em fascículos, a pretexto do misterioso caso do Angoche há 45 anos, sobre a aventura de Ulisses Trinta e Quatro a bordo do dito Angoche. O autor APS, de quem já aqui publicámos há dez anos os «Contributos para a Teoria Geral do Prego» é um dos detractores mais impertinentes do (Im)pertinências.

48. Leviatã

Poderás tirar com anzol o leviatã, ou ligarás a sua língua com uma corda? 
Job 41:1

Dos jornais, e de pouco mais, retira-se, isto é, retira quem tiver esse interesse ou essa preocupação, que no dia 23 de Abril de 1971 o navio de cabotagem Angoche zarpou de Nacala para Porto Amélia onde deveria chegar passadas cerca de 10 horas. Não chegou. E foi encontrado três dias depois, no meio do canal de Moçambique, com fogo a bordo mas sem que isso pusesse em causa a sua navegabilidade e sem qualquer elemento da tripulação cuja era constituída por 23 homens além do que ficou em terra antes da partida que se sabe quem foi e a que se deveria acrescentar um passageiro que ninguém sabe quem era. Todos desapareceram sem deixar rasto e até hoje não foi possível, ou não foi conveniente, ou não se quis desvendar o mistério.

Dos registos de matrícula de navios mercantes podemos inventariar quais eram as suas principais características: assim sabemos, caso queiramos saber, que o navio em causa foi construído em 1958 e media da proa à popa 82 metros redondos, arqueava em bruto 1.689 toneladas e em líquido 884, a velocidade máxima orçava os 11 nós e a tripulação prevista era de 39 elementos. São importantes estes detalhes? Excessivos ou insuficientes para estarem em linha com o que imaginamos ser a configuração do barco? Não sei. Refiro-os como, por exemplo, no basquetebol se refere a altura dos jogadores apesar de não ser capaz de me pronunciar sobre a importância desse parâmetro. 

A função comercial prevista era a cabotagem em África para onde seguiu logo que dado como operacional. Cabotagem, para quem não é versado e nem é obrigado a ser, nas matérias respeitante às artes de marear, é a navegação comercial, isto é, transporte de cargas e acessória e esporadicamente de passageiros, que se efectua geralmente à vista de terra, de cabo em cabo porque geralmente tudo quanto é cabo tem um farol que serve de meio de localização e orientação dos navios que se dedicam a este tipo de navegação. Curiosamente, não foi o facto de na cabotagem se navegar de cabo em cabo que adveio o termo o qual deriva do nome do navegador Sebastião Caboto que nunca na vida fez cabotagem, limitando-se a correr a costa leste dos actuais USA e Canadá em nome e por conta dos reis de Espanha. Por este modo, com a cabotagem, lá se ia de porto em porto, por via de regra não muito distantes uns dos outros, suprindo por mar as dificuldades dos transportes por terra que não existiam ou, por razões várias entre as quais abunda o banditismo, se mostravam muito pouco apetecíveis ou competitivos. Em África, ao tempo do investimento em navios de cabotagem como este, praticamente não se podia viajar por estrada de um porto ao outro, logo havia um aceitável mercado para a cabotagem, sobretudo porque debaixo da confortável protecção de bandeira, cujo mais directo concorrente era o avião mas este somente para nichos demasiado altos em valor acrescentado mas demasiado exíguos em dimensão. 

(Continua)

1 comentário:

Antonio Cristovao disse...

Só para precisar melhor a cabotagem na UE, permite que os navios naveguem entre todos os países, mesmo na Biscaia ou Açores e Canarias. E mais uma denominação marítima de pendor tributário e comercial.