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15/07/2013

SERVIÇO PÚBLICO: Há dois Portugais em Portugal

Há o Portugal dependente (e nalguns casos parasitário).

O Portugal dos políticos medíocres que governam mal e conspiram quando deixam a governação, ocupados com os seus presentes e preparando os seus futuros, e despreocupados com o interesse do país.

O Portugal do jornalismo de causas instrumentalizando-se ao serviço de interesses partidários e corporativos e promiscuindo-se com o Portugal dos políticos medíocres.

O Portugal do Estado tutelado e parasitado pelas corporações e pelas empresas do regime que está perto de atingir um endividamento de 130% do PIB, que gastará 18 mil milhões com amortizações e juros e que precisará de se financiar em 15 mil milhões de euros em média por ano nos próximos 10 anos, que se comprometeu a cortar 4,7 mil milhões na despesa pública e que ainda hoje está à espera do «guião/argumentário» em preparação há meses pelo «irrevogável» «salta-pocinhas».

O Portugal de uma administração autárquica endividada e gastadora - o pagamento de dívidas em atraso e despesas não orçamentadas representou no orçamento rectificativo 1,4 milhões de euros, mais do que a reposição dos subsídios forçada pelo TC.

O Portugal da Administração Pública que destruiu uma vez mais em 2012 a poupança das famílias, aumentando os seus activos em 4,8 mil milhões e os seus passivos em 15,5 mil milhões.

O Portugal dos 3,6 milhões de pensionistas, dos quase 700 mil funcionários públicos e dos muitos milhares de novos situacionistas, que berra pelos direitos adquiridos a pagar pelo outro Portugal.

E há o outro Portugal.

O Portugal da agricultura que duplicou a produtividade em 30 anos, apesar de ser ainda 1/3 da espanhola, e que com menos de metade dos trabalhadores mantém o grau de auto-suficiência alimentar, apesar de um aumento de 50% do consumo e que produziu o suficiente para diminuir o défice alimentar de 4,5 mil milhões em 2011 para 3,9 mil milhões em 2012.

O Portugal do sector exportador que no 1.º trimestre deste ano ajudou a conseguir um saldo da balança comercial de bens e serviços de 1,4% (a ajuda maior foi dos consumidores que travaram a importação de bens) e que em 2012 produziu o primeiro saldo anual positivo desde 1953. E que entre Fevereiro e Abril aumentou as exportações de bens de 3,1% (17,3% em Abril) em relação ao período homólogo de 2012, com uma melhoria de 12,6% no saldo comercial com Espanha, e em Maio aumentou 5,6%.

O Portugal da economia que, apesar da destruição em curso das empresas e sectores alimentados por uma procura dependente do crédito e da despesa pública, com muitas empresas descapitalizadas (mais de 1/3 das empresas lucrativas têm uma autonomia financeira inferior a 30%), dá sinais de poder inverter a recessão: no 1.º trimestre baixou o ritmo de queda trimestral para 0,4%; o BBVA antecipa a redução da contracção e a Católica antecipa o crescimento da economia no 2.º trimestre e a OCDE antecipa a recuperação nos próximos 6 meses.

O Portugal dos sapatos que numa década passou de produzir produtos baratos de baixa qualidade para produtos de elevada qualidade e design que são os segundos mais caros no mundo.

O Portugal das famílias que perceberam ser impossível continuar a endividar-se para consumir e que têm aumentado a poupança, apesar da queda do rendimento disponível. Famílias que pouparam 10,5 mil milhões em 2012, incluindo cerca de 80% por amortização de dívidas, e aumentaram os patrimónios financeiros para 220 mil milhões de euros.

O Portugal dos jovens e menos jovens que saem da zona de conforto e arriscam lançar um negócio e enfrentar as inúmeras barreiras de um Estado inimigo da iniciativa.

Quanto mais tempo aguentará este Portugal o peso do outro?

Este Portugal vai-se cansando e emigrando à procura de oportunidades de trabalho, em alternativa a gastar as solas dos sapatos em manifs de indignação. Como no passado, poderão ficar os acomodados, os velhos e, claro, os parasitas do Estado Social.

1 comentário:

Anónimo disse...

Muito bom e esclarecedor, obrigada.

tina