Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

25/07/2013

ESTADO DE SÍTIO: Balanço e Conta de Ganhos & Perdas

Dá-se por concluída ou interrompida (cortar conforme o gosto) a saga do «pacto de salvação nacional», classificada pela Economist como uma intervenção inábil do PR (uma tradução benévola para «Cavaco Silva intervened ineptly»), consistindo em 3 semanas de psicodrama que acabaram quase como tinham começado: um governo remodelado com um peso reforçado de Paulo Portas e do CDS e uma mudança discursiva da austeridade para o marquetingue do crescimento.

Sem cultivar grandes expectativas, que os tempos não estão para isso, creio poder dizer-se que o ponto de chegada não é pior do que o ponto de partida – à parte a saída de Vítor Gaspar, em qualquer caso inevitável, como agora se percebeu. Vejamos as principais alterações.

O desdobramento dos dois «megaministérios», que se revelaram um pouco mais ingovernáveis do que os outros, tornou-se inevitável, não porque o governo fosse pequeno, como dizem os comentadores encartados, com os seus 13 ministros e 3 dezenas de secretários de estado (o executivo federal americano tem apenas 17 membros, incluindo presidente e vice-presidente e uma estrutura que quase não tem tido alterações), mas pelo micromanagement resultante do intervencionismo endémico dos governos portugueses que este continuou a praticar.

A promoção do «salta-pocinhas» (Soares dixit) também se tornou inevitável para revogar a sua «irrevogável» demissão. A atribuição da coordenação económica a Paulo Portas, comportaria um enorme perigo, se houvesse dinheiro, e revelaria provavelmente mais uma faceta da criatura – a «industrialista», a juntar à liberal, lavoura e feiras, provedor da 3.ª idade, etc. Não havendo, e com a troika por perto até ao fim do PAEF e provavelmente depois, a exibição constante daquela conhecida vaidade doentia poderá ser irritante, mas não terá consequências. O resultado líquido poderá até ser positivo, ao colocar algumas baias aos truques da criatura de andar com um pé no governo e outro na oposição.

Quanto à troca de Álvaro Santos Pereira por Pires de Lima é o resolver de um erro de casting, não porque o ASP não tivesse boas ideias, mas porque, como todos os teóricos sem hábitos de lidar com tugas e meter a mão na massa, e num papel dificilmente concilável com suas inclinações liberais, ficou tão complexado por não ser visto como um prático que, em vez de ser pragmático, tentou criar adeptos e ser popular. Uma vez mais, não havendo dinheiro, um ministério da Economia, perfeitamente dispensável num país com uma economia que funcione e absolutamente a evitar quando a economia não funciona, irá ocupar-se sobretudo de assistência psicológica e animação cultural dos empresários – algo que Pires de Lima tem obrigação de fazer melhor do que o ASP.

A nomeação de Jorge Moreira da Silva para o Ambiente, como a de Poiares Maduro, dará uma melhor imagem ao governo mas quanto ao resto será praticamente inócua.

Finalmente, a entrada de Rui Machete para os Negócios Estrangeiros, que poderia ser positiva pela sua experiência e sossegar um pouco o clã cavaquista e os restantes ressabiados do regime, arrisca-se a ser uma alternativa ao bombo-da-festa Relvas e dar à oposição e ao jornalismo de causas pasto para temas de diversão à volta dos casos BPN e BPP. De passagem, esta diversão poderá servir para fazer esquecer os grandes responsáveis pela nacionalização das perdas do BPN a pagar pelos contribuintes, a saber: José Sócrates e Teixeira dos Santos. Nacionalização que, recorde-se, segundo o antigo ministro das Finanças, não custaria nada e foi crescendo sucessivamente para 2 mil milhões, 4,5 mil milhões, 6,5 mil milhões, e sabe-se lá o quanto mais.

Em conclusão, não estamos tão mal que não possamos ficar pior, e, por anos que dure, este governo ficará refém do pecado original de ter oferecido facilidades na campanha eleitoral quando devia ter anunciado dificuldades, o que lhe retirou uma parte importante da legitimidade para fazer as reformas mais difíceis, e pelos pecados subsequentes como seja o de empurrar durante dois anos essas mesmas reformas substituindo-as por aumentos de impostos – reveja-se, a propósito, o que escrevi no post de há quase um ano «Acabou-se o tempo do governo».

Em boa verdade, o melhor argumento deste governo é a oposição. E não me refiro apenas, nem principalmente, ao actual líder do PS. Refiro-me principalmente às políticas do actual líder e às do futuro in waiting – as mesmas que nos conduziram à bancarrota, ao estado de protectorado e às liberdades limitadas por um Estado assistencialista falido e pela ditadura dos direitos adquiridos.

Sem comentários: