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28/06/2016

SERVIÇO PÚBLICO: O comportamento «crescentemente errático» de Juncker

Num artigo recente da revista alemã Der Spiegel, com uma versão em inglês onlineCommission Complaints: Juncker's Leadership Style Under the Microscope»), é feita uma radiografia ao exercício do mandato do presidente da CE que mais parece uma autópsia a Jean-Claude Juncker.

A oportunidade foi a grossa asneira de Juncker ao visitar Putin em S. Petersburgo, no decurso das sanções pelo ataque à Ucrânia, no que mais parece uma homenagem ao czar de todas as Rússias . Ao fazê-lo, Juncker não só entra em rota de colisão com a política externa da UE, já de si mal alinhavada com pontos largos para manter toda a gente no barco, como extravasa claramente o seu mandato que não lhe dá poderes políticos, nomeadamente de política externa. A Spiegel caracteriza o seu comportamento como «crescentemente errático», aponta o dedo à incapacidade de Juncker ler os relatórios, ouvir os assessores e conter a verborreia e deixa implícito que tal se pode dever ao «seu consumo de álcool» - abertamente admitido nos bastidores de Bruxelas e na imprensa inglesa, acrescente-se.


Outro exemplo é o modo displicente como Juncker se refere ao cumprimento do Pacto de Estabilidade, admitindo publicamente, contra os outros comissários, especialmente Moscovici e Dombrovskis, e o Eurogrupo, que se a França não cumpre o limite dos défices ninguém está obrigado a fazê-lo e adiando a discussão para depois das eleições espanholas no que respeita às sanções a Portugal e Espanha. Algo que o presidente Marcelo e o chefe da geringonça tentam aproveitar para escapar entre os pingos da chuva. Já que falo no presidente Marcelo aproveito para sublinhar algumas afinidades de afectos, de repentismo e de hiperactividade com o presidente Jean-Claude (afinidades em que não incluo o álcool), tudo coisas muito perigosas na política acima do nível de junta de freguesia ou, vá lá, de região autónoma.

Também as tentativas de Juncker se intrometer em temas da concorrência estão a causar tensões na CE e há quem já lhe tenha traçado uma linha vermelha a este respeito.

Em relação ao referendo britânico, o artigo acusa Juncker de ter exacerbado as forças centrífugas britânicas com o seu comportamento eurocêntrico e assim contribuído para o êxito do Brexit. Merkel e o governo alemão não apreciam o comportamento de Juncker e em particular o papel que teve na saída do Reino Unido e certamente não apoiarão a negociação rápida que pretende fazer e a punição exemplar que parece pretender aplicar para prevenir outras saídas.

Não é de todo impossível que Juncker venha a ser a primeira baixa do turbilhão bruxelense gerado pelo Brexit. Não deixará saudades.

1 comentário:

Antonio Cristovao disse...

Presumo muitas saudades do cherne e ainda só passou o 1º ano.
A nivel caseiro ainda aguardo sentimento semelhantes; afectos a mais ainda acabam a chapada.