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13/06/2016

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (35)

Outras avarias da geringonça.

Enquanto a geringonça prossegue o seu optimismo impante que de vitória em vitória os conduzirá à derrota final (o que não teria problema nenhum, não fora o pequeno pormenor de nos arrastarem com eles), o BdeP permite-se discordar e volta a baixar as suas estimativas do crescimento médio anual do PIB para 1,3% em 2016 (era 1,5% em Março), 1,6% em 2017 e 1,5% em 2018. Quanto ao investimento o BdeP prevê que não crescerá este ano e o crescimento das exportações descerá de 5,2% em 2015 para 1,6%.

Até as previsões do governo de crescimento do consumo privado não se cumprirão (2,1% do BdeP contra 2,4% do governo). Em todo o caso, como é habitual, o consumo privado crescerá o suficiente para pôr em causa o equilíbrio das contas externas. (Fonte: Boletim Económico de Junho)

Como também é habitual, a geringonça chuta para fora as causas para explicar o fraco crescimento homólogo de 0.9% no primeiro trimestre e assobia para o lado quanto ao crescimento da União Europeia que é o dobro do português no mesmo período.

Entretanto, o governo pela boca do ministro das Finanças diz em NY que «o investimento estrangeiro é mais importante do que nunca». Pois é, tanto mais que a poupança das famílias é metade da europeia, as empresas estão descapitalizadas e a banca está grávida de malparado. E o que faz o governo para o atrair? Leia-se o inventário de João Miranda das medidas tomadas, das medidas em estudo pelo governo e das que o PCP e o BE preconizam e fica claro que a geringonça pode esperar deitada pelo investimento estrangeiro.

Como exemplo dos expediente que a geringonça usa para colocar os seus boys no aparelho de Estado (já lá estão várias centenas), veja-se o caso da demissão da direcção do Compete 2020 e da nomeação de Jaime Andrez no regime de substituição (o que permite fintar a selecção pela CRESAP), um sujeito condenado pelo Tribunal de Contas em 2012 por infracção financeira.

Uma das consequências perversas, provavelmente procuradas mas não confessadas, da eliminação dos exames e da escolha dos anos intermédios para as provas de aferição foi, como aqui assinala Alexandre Homem Cristo, quebrar a «série estatística que, desde 2001, permitia a avaliação do desempenho dos alunos em final de ciclo e a sua comparação com o passado – para identificar melhorias e piorias, como sempre se fez».

E o que dizer da farsa da cruzada anti-sanções por défices excessivos? Presidente Marcelo em Berlim, governo a convocar 27 embaixadores, chuva de resoluções no Parlamento, dramatização da coisa, jornalistas de causas a encheram páginas (leia-se o Expresso do fim de sábado a este respeito uma espécie de folha oficial)... quando todos já perceberam que Bruxelas não vai fazer agora o que nunca fez e no final o governo aparecerá a capitalizar como «bater o pé» a pusilanimidade de Bruxelas. É uma lição de marketing político, a única área de competência de Costa e do governo onde, reconheça-se, Passos Coelho e o seu governo falharam em toda a linha.

Para terminar a crónica desta semana, uma previsão de uma das próximas medidas que a geringonça vai preparar: a re-versão da gestão privada dos hospitais. Segundo o Expresso - mais uma vez a folha oficial a este respeito - que dedica ao tema uma página inteira, a Entidade Reguladora da Saúde apresentou ao governo um relatório de avaliação das parcerias público-privadas onde conclui sibilinamente que «apresentam  globalmente bons resultados mas não há diferenças significativas face aos restantes hospitais do SNS». Se isto pode parecer obscuro, Constantino Sakellarides, uma luminária socialista para a saúde e consultor do ministro da Saúde, citado em destaque pelo Expresso, ilumina a conclusão: «não há nada defensável para a manutenção das PPP».

Eu diria mesmo mais, para a geringonça não há nada defensável para a manutenção do privado na saúde, no ensino ou em qualquer outra coisa. Se os Sakellarides ainda enrolam a coisa na glote, os Tiagos do PCP arrotam-na sem qualquer dificuldade, como o fez o deputado comunista, justificando o desacordo quanto ao inquérito à Caixa sobre a torrefacção instalada no mausoléu da Avenida João XXI dizendo que com a comissão de inquérito se pretende «criar a ilusão que o banco público é igual aos bancos privados».

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