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18/12/2014

Pro memoria (214) - De como as memórias são como as cerejas

«Os russos dizem que “a Rússia é um país com um passado imprevisível” para sublinhar que a história pode ser reescrita ao sabor dos desejos do senhor no poder. O problema é que o passado é revisto, na maior parte das vezes, para justificar os devaneios do presente.

Quando eu estava na Faculdade de História da Universidade de Moscovo, um professor mais ousado e aberto da disciplina de História do Partido Comunista da União Soviética decidiu mostrar-nos como é que isso se fazia na prática. Trouxe-nos três livros sobre o mesmo tema: a revolução comunista de 1917, escritos entre 1918 e 1929. No primeiro, os principais mentores e realizadores do golpe são Vladimir Lenine e Lev Trotski, aparecendo José Estaline num lugar insignificante; no segundo, Trotski desaparece, passando Lénine a ser acompanhado na direcção por Estaline e, no terceiro, Trotski passa a adversário, Estaline a figura central e Lenine a ajudante do ditador soviético

Ao ler este artigo, de onde extraí o excerto citado, de José Milhazes no Observador ocorreu-me George Orwell que inspirado nesses exemplos escreveu no «1984» «quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado». E, como que a confirmar esta associação, as autoridades russas da região de Kaluga decidiram banir a palavra crise: «é possível que a crise exista, mas proibimos o uso dessa palavra» disse Anatoly Artamonov, o governador da região (via Insurgente).

E ao evocar Orwell e o seu newspeak, lembrei Alfred Kahn, que inspirou ao Impertinente o princípio com o seu nome, por várias vezes citado no (Im)pertinências, «economista e regulador que desregulou o transporte aéreo americano e com isso mudou o mundo». Assessor económico do presidente Carter foi por este repreendido por ter-se referido publicamente em 1978 a uma possível depressão da economia americana. Na sua intervenção seguinte, Alfred Kahn disse que «we're in danger of having the worst banana in 45 years».

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