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14/12/2014

Pro memoria (211) – O mistério é sério e anda tudo trocado

Face ao aumento homólogo do emprego no 3.º trimestre de 2,5%, muito acima do crescimento do PIB no mesmo período (0,9%), os maiores crânios económicos do país coçaram os respectivos invólucros interrogando-se: como é isto possível? Até que os geniais economistas do BdP fizeram uma descoberta surpreendente: o emprego suplementar criado foi resultante dos estágios profissionais ou, como titulou o Diário Económico, «Banco de Portugal desvenda mistério da queda do desemprego».

E porque é surpreendente a descoberta? Simplesmente porque a explicação vem sendo publicada há mais de 2 anos no Diário da República, cuja leitura, como se sabe, é rigorosamente desaconselhada aos economistas. No mandato deste governo foram aprovados pelo menos os seguintes diplomas relacionados com estágios:
  • Medidas Passaporte Emprego, Passaporte Emprego Economia Social, Passaporte Emprego Agricultura e Passaporte Emprego Associações e Federações Juvenis e Desportivas 
  • Programa de Estágios Profissionais na Administração Pública 
  • Programa de Estágios Profissionais 
  • Passaporte Emprego Industrialização, Passaporte Emprego Inovação e Passaporte Emprego Internacionalização, e aprova o Regulamento Específico Passaportes Emprego 3i 
  • Programa de Estágios Profissionais na Administração Central do Estado (PEPAC) 
  • Apoios a conceder pela administração regional autónoma ao funcionamento do mercado social de emprego na Região Autónoma dos Açores 
  • Medida Estágios Emprego 
A minha surpresa pela descoberta surpreendentemente tardia pelos maiores crânios económicos do país da explicação para o aumento do emprego só foi superada pela minha surpresa pelos protestos indignados após a referida descoberta por parte de um coro que inclui esses maiores crânios, os comentadores do regime e o jornalismo de causas, cujas reacções foram do tipo «assim não vale», «assim também nós» e até «isso é uma mistificação».

E porquê a minha surpresa? Porque estaria à espera que tal indignação viesse por parte das pouquíssimas criaturas liberais deste país e não por parte da legião de cultores do Estado e em particular de keynesianos indignados pelo governo, por eles acusado de «neoliberal» (uma acusação despropositada que deve em partes iguais à estupidez e à falta de princípios), tomar o tipo de medidas que a legião de cultores do Estado defende e que no passado aplicou com prodigalidade: a alavancagem da criação de empregos pelo Estado.

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