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04/12/2014

Lost in translation (215) – há vida para além do orçamento e os ricos que paguem a crise

Titulou o Diário Económico «Sampaio recupera tese de que há vida para além do orçamento» na sessão de abertura das Conferências de Lisboa. Talvez ele não tenho dito literalmente isso mas que fez o discurso do choradinho lá isso fez, como lhe é habitual. Podia, contudo, ter-se dispensado do sound bite dos 85 multimilionários mais ricos do mundo que «dispõem de tantos recursos como as 3,5 mil milhões de pessoas mais pobres».

Em primeiro lugar, porque os milhões de pessoas mais pobres não dispõem propriamente de recursos, entendidos como stocks de riqueza e portanto a comparação é absurda. Dispõe de poucos rendimentos, pouco património e algumas dívidas. Em segundo lugar, porque o que Sampaio chama «recursos» dos 85 multimilionários mais ricos do mundo são alguns activos imobiliários e sobretudo um stock gigantesco de acções de empresas que representam um igualmente gigantesco valor acrescentado bruto e um enorme potencial produtivo. Stock que evidentemente sempre podemos imaginar nas mãos do Estado, mas onde é que já vimos esse filme?

E como pretende Sampaio «corrigir» este problema? Cita Stiglitz e diz que «os mercados por si só não conseguem resultados eficientes e estáveis, por isso os Estados têm de corrigir isto» e, cela va de soi, «o Estado tem um papel insubstituível na correção destas desigualdades».

Sem me meter a esta hora da noite em elucubrações teoréticas, perguntaria ao emérito Sampaio como explica ele que tendo o Estado português passado os últimos 40 anos (e os anteriores, mas isso são contas de outro rosário) a promover a «correção destas desigualdades» porquê elas persistem e, pior do que isso, porquê não só estamos mais desiguais como estamos mais pobres em termos relativos?

1 comentário:

Antonio Cristovao disse...

As narrativas destes gabirus infelizmente não têm graça porque os portugueses comuns sofrem as consequências dessas elucubrações. Não fosse isso até serviriam para adormecer melhor como leitura de cabeceira.