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01/12/2014

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: Prenúncios de mais do mesmo, agora com a varinha mágica do economista escolhido

Se o economista Rocha Andrade é, como escreve o Jornal de Negócios, «um dos escolhidos de António Costa para o seu núcleo duro, a quem o secretário-geral dará ouvidos em matérias de economia e finanças públicas», podemos pôr as barbas de molho e começar a preparar o regresso da troika.


A criatura apesar de com falsa humildade reconhecer que o PS não «tem uma varinha mágica e que de repente resolve os problemas do crescimento», logo de seguida, ou seja de repente, tira a varinha mágica do bolso e recorre ao discurso milagreiro «de uma política alternativa (para) criar essa margem, diminuindo o impacto que as políticas de austeridade cegas têm tido sobre a capacidade do país gerar riqueza».

Contudo, a parte mais preocupante é a criatura meter numa mesma curta frase duas mentiras/ignorâncias (cortar conforme o gosto) e o anúncio de um desastre. A frase é:

«A continuar no ritmo que o Governo imprimiu à dívida pública e ao PIB, a reestruturação passará a ser uma inevitabilidade

O economista começar por ignorar/mistificar que a soma dos défices deste governo no triénio 2012-2014 foi 14,4% (5,5%+4,9%+4,0%), ou seja metade de 28,4% (9,8%+11,2%+7,4%) do governo anterior no triénio 2009-2011. Em consequência, se o incremento da dívida pública só tivesse resultado, como seria normal, da soma dos défices acumulados «o ritmo que o Governo imprimiu à dívida pública» só poderia ser muito menor. Acontece, porém, que nesse período o Eurostat alterou as regras de contabilização obrigando o governo a adicionar à dívida pública as dívidas colossais de várias empresas do SEE acumuladas nos governos anteriores e, last but not least, obrigou a tirar debaixo do tapete o lixo que a dupla Sócrates-Teixeira dos Santos para lá tinha enfiado. O economista ignora/mistifica ainda que enquanto o governo de Sócrates não tinha literalmente dinheiro para pagar os salários do mês seguinte (ver aqui a demonstração) este governo tem agora um saldo de caixa de quase 20 mil milhões que naturalmente fazem parte da dívida.

Quanto ao PIB, a sua queda durante o resgate foi muito inferior às dos outros países resgatados (Irlanda e Grécia). Como quer que seja, apesar dos governos de Sócrates terem torrado de milhares de milhões em «investimento» público, e apesar das alegadas virtude deste, o crescimento médio anual nos anos 2005-2011 foi … 0,3%.

Quanto à «reestruturação» da dívida, o economista ignora/mistifica que nos últimos 3 anos tiveram «reestruturações»: o reescalonamento das maturidades que permitiu retirar a pressão de curto prazo e a redução de juros. Qual é então a reestruturação que falta? Falta o haircut, ou seja a redução da dívida. Saberá o economista as consequências durante pelo menos uma década no acesso ao mercado de capitais de um haircut unilateral, ou seja, em termos práticos, um default? Saberá o economista como seria possível Portugal negociar um haircut sem a Irlanda ou a Grécia? Saberá o economista qual é a soma da dívida dos países resgatados e a penalização que os credores teriam ao aceitarem um haircut significativo?

2 comentários:

Antonio Cristovao disse...

O maior descredito dos políticos , alem da corrupção e auto benesses que por vezes raiam o escandaloso advêm deste "ajeitar" da verdade com recurso a sonegar parte da informação ou até a mentiras descaradas. Muitos cidadãos não têm conhecimentos para detectar logo a marosca. mas conseguem perceber quando lhes andam a prever sucessivamente chumbos da troika, segundo resgate, terceiro resgate,mais chumbos e depois nada acontece e os arautos não acham necessário explicar o que não correu como o prometido. Claro que tirando os religiosos a reacção é:«são tudo uns aldrabões»

Antonio Cristovao disse...
Este comentário foi removido pelo autor.