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24/06/2012

ARTIGO DE FUNDO: Ainda haverá esperança?

Uma epidemia de realismo parece ter contaminado o Expresso deste fim-de-semana.

Nicolau Santos, um dos mais notórios pastorinhos dos amanhãs que (já não) cantam, depois de uma estadia em Munique e de elaborar sobre documentos da Roland Berger Strategy Consultants e entrevistar o guru que dá o nome à dita, conclui: «Por isso, esqueçam. Da Alemanha não virá nenhum sinal de alívio das medidas de austeridade. Teremos de sair do buraco cumprindo o que acordámos com a troika. A boa notícia é que apreciam o que o Governo português tem vindo a fazer. Pode ser que algures, lá mais para diante, isso nos ajude - se entretanto a Eurolândia não tiver implodido...»

Como se isto fosse pouco, Miguel Sousa Tavares desmonta momentaneamente o seu Rocinante e inspirado pelo Sancho Pança que há dentro de si escreve:

«Façamos o exercício de nos pormos na pele de um pagador de impostos alemão. Porque carga de água haveríamos nós de fazer mais uma atenção ao sr. Samaras, novo primeiro-ministro grego e chefe do partido que, quando no governo, instalou o sistema de batota geral que conduziu à ruína da Grécia e ao resgate financiado pelos contribuintes alemães? Porque carga de água haveríamos de acudir à assustadora perspectiva de bancarrota na Espanha do sr. Rajoy, que com uma mão suplica e com a outra desdenha quem lhe estende a esmola? Porque carga de água haveríamos de prestar atenção ao sr. Hollande, da França (o próximo a ter de ser resgatado), que, para efeitos eleitorais, baixa a idade de reforma para os 60 anos, em alguns casos, enquanto a Alemanha a sobe para 67, e que reclama "políticas de crescimento e emprego", para as quais a França se propõe apenas ser beneficiária? Ah, mas a Alemanha ganhou muito com o euro! É verdade. A Alemanha até ganha nos juros dos empréstimos que faz e com o dinheiro que envia aos resgatados e que, em grande parte, regressa à Alemanha, depositado nos seus bancos! É verdade. Mas de quem é a culpa se os milhões de ajudas comunitárias à Espanha, Grécia ou Portugal foram investidos em agricultura fantasma, em auto-estradas desertas ou em casas sem comprador? De quem é a culpa se os gregos fogem aos impostos e se eles e os espanhóis pedem dinheiro emprestado e vão depositá-lo nos bancos alemães? Vocês têm lido as últimas notícias sobre a dívida ocultada pela trupe do Jardim da Madeira - que o povo madeirense, de tudo ciente, reconduziu para governar em maioria absoluta, no Inverno passado? Se fossemos alemães, quereríamos continuar a sustentar aquilo?

Sim, vamos todos torcer pela vitória da Grécia sobre a Alemanha no Euro. Ou então a de Portugal ou a da Espanha. E vamos todos ficar felizes se isso acontecer. Só que, no dia seguinte, vamos precisar da Alemanha para pagar as contas. E se eles não quiserem pagar mais? Se a Alemanha tiver desistido da Europa?»

Para os lunáticos, estes episódios de realismo podem parecer desistências. Mas não são necessariamente. Como já algumas vezes recordei, o processo psicológico de lidar com os grandes dramas passa pelas fases de negação, revolta, negociação, depressão e, finalmente, aceitação. Ora, no caso destas duas luminárias do pensamento nacional, parece finalmente estar a chegar-se à fase da aceitação. Digamos que terão concluído que o que não tem solução não é problema e só a partir de agora poderão talvez produzir palpites de soluções para os problemas.

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