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11/04/2016

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (26)

Outras avarias da geringonça.

Um exemplo terminal da estratégia da geringonça de re-governar o país (a única estratégia discernível nas medidas até agora tomadas) é a re-posição das freguesias, anunciada pelo secretário de Estado das Autarquias Locais. A fusão de freguesias com o desaparecimento de 1.168 foi o arremedo de reforma autárquica que o governo PSD-CDS foi capaz de fazer. Re-colocar este tema esquecido no baú das velharias políticas é algo gratuito e intrinsecamente estúpido.

Com o anúncio a semana passada de que o governo irá obrigar os senhorios a subsidiar até 2027 as rendas das lojas que os socialistas considerarem históricas e as rendas das habitações dos idosos, a geringonça demonstrou, mais uma vez, uma espécie de lei de Lavoisier modificada: no Estado Sucial nada se cria, tudo se transforma ou se perde.

A mesma lei poderá explicar que, se os senhorios vão subsidiar as rendas dos reformados, os reformados irão subsidiar os senhorios através da reabilitação do património para arrendamento habitacional a «preços acessíveis», reabilitação que será financiada em 1,4 mil milhões de euros pelo Fundo de Estabilidade Segurança Social, constituído com os excedentes da SS e como reserva para o dia cada vez mais próximo em que as receitas correntes serão insuficientes para pagar as pensões dos reformados.

Não está provado que a lei de Lavoisier modificada se aplique à cativação de verbas do orçamento das universidades por um governo que jurou apostar na ciência e no ensino universitário. Porém, poderá a lei aplicar-se ao re-cuo que o governo fez nos dias seguintes, face às pressões dos seus parceiros, re-pondo a cativação e transferido assim mais um poucochinho do seu poder para os seus parceiros da geringonça.

Entretanto, a opinião pública, suavemente anestesiada pela opinião publicada na boa imprensa, acompanha com bonomia e displicência o caminho já quase familiar que nos conduzirá ao sítio do costume. Toldado pelo nevoeiro informativo produzido pelos mídia e à falta de radares domésticos de uma intelligentsia composta na sua maioria por apparatchiks, não se vê aquilo que é óbvio visto de fora. Leia-se por exemplo este artigo do Financial Times que cita um investidor: «A situação macroeconómica é muito fraca. O crescimento é não é espectacular. A situação política é incerta, e de um ponto de vista técnico ;do mercado o contexto global é também incerto». Por isso, sem surpresa, as emissões de OT da semana passada ficaram longe de ser um sucesso, e os yields das OT a 10 anos subiram um ponto percentual desde as eleições.

Para terminar a crónica desta semana, evoco a sessão de espiritismo promovida pelo presidente Marcelo que decorreu no Conselho de Estado com a presença de Mario Draghi, o presidente do BCE. Da comunicação de Draghi, que pode ser lida integralmente aqui, ressaltam essencialmente quatro recados, parcial ou totalmente ignorados pelos comentatori do regime: o reconhecimento positivo das medidas do governo PSD-CDS, a necessidade de não as re-verter, o prosseguir das reformas ainda necessárias e o recordar do compromisso que o governo PS sempre negou de tomar as medidas adicionais quando necessário. E, por falar destas medidas, termino fazendo um palpite baseado no paleio encantatório de Costa em entrevista à TSF: o IVA irá aumentar - é o fim da austeridade tal como a conhecemos.

1 comentário:

Anónimo disse...


A do IVA é má mas há uma que pode ser pior: a tributação dos depósitos e aplicações acima de um certo valor (Eur 100k?).

Agent Provocateur