Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

26/04/2016

DIÁRIO DE BORDO: Grande Auditório Gulbenkian, o Pequeno Met dos tesos (8) - continuação

Quanto há duas semanas fiz aqui uma referência à prestação «superlativa» de Sondra Radvanovsky na Elisabetta da «Roberto Devereux» de Donizetti tive o cuidado de avisar que, como apreciador de ópera, sou como o apreciador de vinho que, por um misto de falta de talento para escanção (ou sommelier, como dizem os connaisseurs) e excesso de apreciação de vinho, passa directamente à ingestão.

Apesar desse aviso, quando alguns dias mais tarde lia atrasadamente a Revista do Expresso e deparei com a crítica demolidora de Jorge Calado fiquei … embaraçado como se estivesse expressado uma apreciação muito positiva de um briol que o sommelier de serviço considerou uma verdadeira zurrapa. Leia-se o que escreveu Calado (cuja erudição e bom gosto costumo apreciar):
Para o papel de Elisabetta exige-se voz, técnica de bel canto, convicção e génio dramático. Infelizmente, Radnovsky falha em todos os aspectos. O que se ouve é aquilo a que os ingleses chamam, em trocadilho, can belto (berros de cão).
Só recuperei do can belto depois de ter googlado algumas críticas quase superlativas à prestação da Radvanovsky de gente que deve saber do que escreve, que passo a citar:
The depth of Radvanovsky’s dramatic commitment to the scene was tremendous… (New York Classical Review)
On every level — visual, vocal and histrionic — Radvanovsky rose to the occasion. She unleashed shattering fortes when power was required, floated exquisite pianissimos when it was not. (Financial Times)
True to form, Ms. Radvanovsky sings with searing power, flinty attack and incisive coloratura passagework. (NY Times)
Sondra Radvanovsky … with a triumphant and bravura performance as Queen Elizabeth I in the Met Opera’s premiere production of Roberto Devereux. (Huffington Post)
O único crítico que não se rendeu incondicionalmente à Radvanovsky foi um francês (só podia ser) que, ainda assim, escreveu:
Sondra Radvanovsky accuse une certaine fatigue en début de soirée qui se traduit par un voile sur le timbre et quelques aigus stridents dans son premier air, mais très vite la voix se chauffe, la soprano recouvre peu à peu ses moyens et livre une scène finale hallucinante, tant sur le plan dramatique que vocal. (Forum Opera)
Em conclusão, se houvesse uma conclusão poderia ser «presunção e água benta, cada qual toma a que quer». Vou continuar sem olhar para o rótulo, sem cheirar a rolha, sem abanar o copo, sem cheirar o vinho e sem o cuspir.

Sem comentários: