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29/06/2015

Pro memoria (244) - O equívoco helénico, os desastres infligidos pela França e as pressões de Obama


Se, conforme a lenda (*), a Grécia dos coronéis tivesse sido 25 séculos antes o berço da democracia, o Zimbabué de Mugabe bem poderia ter sido o berço da humanidade e nem por isso alguém com juízo haveria de imaginar o soba no Conselho Europeu e o Zimbabué a ter condições para integrar um mercado comum e ainda menos uma união monetária. Entre outras razões porque o Zimbabué depois de uma década de socialismo africano com inflação de 4 dígitos começou agora a trocar dólares americanos por dólares do Zimbabué a uma taxa de 1 para 35 mil biliões (35 com 15 zeros). Quem diz o Zimbabué diz a República Centro-Africana.

Absurda a comparação? Réfléchissez à nouveau. Pois se Valéry Giscard d'Estaing, amigo do peito de Constantinos Karamanlís, abriu à Grécia em 1981 as portas da então Comunidade Económica Europeia, que só 5 anos mais tarde aceitaria Portugal e a Espanha (com ruidosa oposição e chantagem da Grécia, recorde-se), que sem isso nunca teria sido aceite, o que teria impedido d’Estaing de abrir as portas à República Centro-Africana já que se declarou em 1975 «amigo e membro da família» de Jean-Bédel Bokassa, o canibal presidente até 1987? Possivelmente muito pouco, para além da distância de Bruxelas a Bangui ser 2,5 vezes a de Bruxelas a Atenas.

Não satisfeita por ter infligido à União Europeia, pela mão do gaullista d’Estaing, o desastre da adesão grega, a França ainda infligiu uma década depois, pela mão do socialista François Mitterrand, o desastre do euro, fazendo a Alemanha aceitar a moeda única, com grande relutância de abandonar o querido deutsche mark, como contrapartida da reunificação. Duas décadas depois os dois desastres conjugaram-se para criar o desastre perfeito: a crise da Grécia a cavalo da crise do euro.

Por tudo isto, devemos ver com o maior cepticismo as pressões de Obama para ceder à Grécia e mantê-la na Zona Euro (tradução: mantê-la afastada da Rússia de Putin). Ainda que isso faça sentido para os Estados Unidos que, torrando triliões de dólares para manter um duvidoso controlo sobre as cliques que se sucedem no poder no Paquistão, devem achar barato os biliões de euros necessários para manter as cliques gregas no poder, não faz nenhum sentido para uma Europa já suficientemente dividida para manter no seu interior um Estado falhado governado por uma aliança de comunistas com chauvinistas cujo programa comum é a chantagem à UE.

(*) No dia seguinte a ter escrito este post, Henrique Raposo escreveu no seu blogue no Expresso o post «A Grécia não inventou a democracia», para o qual remeto, que explica o essencial sobre a lenda do berço da democracia,

1 comentário:

Unknown disse...

Tudo o que emperra os nossos competidores(Ucrania, Grecia, refugiados, dificuldades do euro) são pontos para a nossa causa; pensará par os seus botões um negociador realista.E se há coisa em que os anglosaxonicos são bons é em ter a noção do que lhes dá vanatgem - deste e dos outros lados dos mares.