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18/12/2013

SERVIÇO PÚBLICO: Uma revolução francesa … à portuguesa?

«Como, para não sairmos da matriz francesa, percebeu o malogrado Luís XVI. Isto não vai acabar bem para o TC e muito menos para o parlamento: provavelmente iremos assistir a uma tentativa de presidencialização do regime que no seu messianismo só agravará os nossos problemas. Mas o esfrangalhar das instituições inquieta bem menos a pátria do que uma tentativa falhada de negociação.


Por fim endividámo-nos de tal modo que, em menos de quarenta anos, por três vezes tivemos de pedir que nos emprestassem dinheiro para assegurar o dia-a-dia das despesas estatais. Mas todas as tentativas de colocar um mínimo de ordem na crescente despesa pública acabaram com os reformistas transformados em alvo de consensuais condenações e sem que ninguém naquele momento os defenda. Posteriormente, tal como sucedeu com Turgot, fazem-lhes grandes elogios. Mas aí já é tarde. Tal como agora, mais uma vez, começa a ser tarde. A nossa Versalhes doméstica está farta e cansada de tanta austeridade. Os comités revolucionários fazem a festa do costume e pedem cabeças.

Os bons burgueses querem a habitualidade. O que nos vai acontecer? Uma Revolução? Não. A nós não nos espera nenhuma barcaça para afogamentos no Tejo, nem guilhotinas no Terreiro do Paço e mesmo a reconversão do Campo Pequeno em praça de fuzilamentos levanta sérios problemas, como se viu em 1975. Não, a nós só nos espera a ruína e muita demagogia porque como a natureza do povo e o Estado Social nos poupam desta vez aos excessos da Revolução passamos logo directamente da tentativa falhada de reforma para a fase do declínio. O nosso próximo sobressalto será chamarmos de novo a ‘troika'.»

Reforma ou revolução?, Helena Matos no Económico

A comparação do Portugal do século XXI  com a França do século XVIII - a sequela da tragédia na história é a comédia - faz muito mais sentido do que possa parecer à primeira vista. Segundo os estudos de Geert Hofstede, muitas vezes citados no (Im)pertinências, Portugal (índice 63) é comparável à França (índice 68) na dimensão «distância hierárquica» que podemos relacionar com a propensão revolucionária dos povos que aguentam a canga até se revoltarem. Em contraste com a propensão reformista dos países anglo-saxónicos que têm valores muito mais baixos (UK 35, US 40, Alemanha 35).

A diferença entre a França do século XVIII e o Portugal do século XXI, como assinala Helena Matos, é no primeiro caso assalta-se a Bastilha e enviam-se os nobres para o cadafalso e no segundo, esgotados, os ímpetos da queda do salazarismo em que ainda se assistiu ao assalto à PIDE ou se pensou enviar os reaccionários para o Campo Pequeno, hoje «a natureza do povo e o Estado Social» fazem-nos passar «logo directamente da tentativa falhada de reforma para a fase do declínio».

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