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01/11/2011

As coisas nunca estão tão mal que não possam ainda piorar

O governo grego decidiu realizar um referendo vinculativo sobre o segundo plano de resgate, quatro dias antes considerado por Papandreou «um novo dia para a Grécia». Como é evidente, a simples decisão de realizar o referendo tem, está já a ter, consequências funestas que se agravarão com a incerteza durante os próximos 2 meses. E a provável rejeição do plano de resgate implicará muito provavelmente a saída da Zona Euro e a consequente falência da Grécia, sem crédito, com uma desvalorização brutal e uma recessão mais profunda e prolongada do que a resultante de quaisquer medidas de austeridade.

Independentemente do resultado e independentemente da bondade do plano de resgate, está em causa o sentido político numa democracia representativa de referendar opções complexas com consequências igualmente complexas e difíceis de antecipar, com sentido contrário no curto e no longo prazo. No caso de um plano de resgate com consequências penosas de austeridade durante alguns anos e de reformas difíceis como condição, admitamos, para a longo prazo retomar o crescimento e a prosperidade. O que está à escolha dos eleitores é entre um sim e um não aos sacrifícios? Ou é entre as suas consequências de os aceitar ou não?

É claro que se pode responder sempre com a lengalenga de o povo é soberano, mas faria sentido, por exemplo, referendar uma declaração de guerra à Turquia se esta ocupasse a ilha de Rodes, mesmo ali à mão de semear, a 10 milhas da costa turca?

Também se pode olhar para o problema numa perspectiva pragmática e defender o referendo como a saída para a falta de apoio político do governo e a resposta à revolta da rua, onde uma pequena minoria tenta impor a vontade à maioria. Mas, nesse caso, porque diabo o governo não se demite obrigando a eleições antecipadas, caso a moção de confiança seja rejeitada na próxima sexta-feira em vez de inventar um referendo como sucedâneo?

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