Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

22/10/2011

ESTADO DE SÍTIO: Com um PSD destes nem seria preciso oposição

Seja por maquiavelismo, seja por diletantismo, seja para criar distâncias prudentes, seja para ficar num rodapé da história, seja simplesmente sacanice, não há um dia que não se veja ou ouça ou leia um barão, uma prima-dona, uma reserva da nação, um pateta arvorado em senador, um putativo candidato a uma qualquer coisa, um pensador, um comentador ou analista encartado, ou simplesmente um despeitado a debitar sound bites semeando areia nas engrenagens e enfiando gravetos nas rodas da carroça periclitante da governação. Sempre com o álibi da livre opinião, suspeita-se que pouco praticada dentro do PSD, e, frequentemente, com um acinte contrastando com a prudente ambiguidade usada com a governação desastrosa do governo do animal feroz.

Declaração de interesse: não tive nem tenho nenhuma ligação ao PSD.

21/10/2011

De boas intenções está o inferno cheio (7) - vem aí outro comboio


«É preciso mostrar aos cidadãos que há esperança, que há luz no fundo do túnel, que há soluções.»
José Barroso, presidente da CE (Comissão de Extinção), na conferência sobre o orçamento da União Europeia pós-2013

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Comissão Europeia quer matar o mensageiro

Secção Tiros nos pés

«União Europeia (UE) quer proibir as agências de rating de avaliar Estados, noticia o matutino alemão Financial Times Deutschland, que teve acesso a um projecto ainda confidencial do comissário europeu para o mercado interno, Michael Barnier.

No projecto de reforma da lei sobre as agências de rating, Barnier propõe que a nova agência europeia de supervisão de títulos bolsistas, a ESMA, passe a ter o direito de "proibir temporariamente" a publicação de avaliações sobre a solvabilidade financeira dos Estados.

A Comissão Europeia quer ver esta proibição aplicada sobretudo a Estados que negociaram ajudas externas com a União Europeia ou com o FMI.

"Uma proibição podia impedir que haja uma avaliação de uma agência de rating em momento inoportuno, com consequências negativas para a estabilidade financeira do país em questão, e eventuais efeitos desestabilizadores para a economia mundial", afirma-se no projecto citado pelo Financial Times Deutschland.» (lido no OJE)

Se fosse um potencial investidor em dívida soberana dum Estado europeu «em momento inoportuno» esperaria que o momento fosse oportuno e entretanto tentava desfazer-me da dívida que tivesse em carteira aumentando assim as «consequências negativas para a estabilidade financeira do país em questão».

Por isso, oferece-se à CE 3 bourbons por nada aprender nem esquecer e 5 chateaubriands por imaginar que a divina providência faz passar os rios pelo meio das cidades.

20/10/2011

¿Por qué no te callas?

Repetindo-me, a quem ficou calado durante 6 anos, assistindo silencioso, impávido e sereno ao crescimento da despesa e da dívida públicas, é difícil de aguentar sem reacção a verborreia dos últimos meses e em particular dos últimos dias a propósito do corte de 2 meses nos salários dos funcionários públicos e dos reformados, minando o terreno ao governo.

Podia enveredar pelo caminho do assassínio de carácter, baseado em factos geralmente conhecidos e outros menos conhecidos, classificando Cavaco Silva como um homem prepotente sempre que julga ter as costas quentes, como agora com o PSD no poder dando um púlpito à tralha cavaquista. E como um homem com grande falta de coragem quanto tal não acontece e tem que enfrentar seja uma aula de alunos contestatários durante o PREC, seja o animal feroz Sócrates e os seus cães-de-fila, e nestas circunstâncias mete o rabinho entre as pernas e ensaia a vitimização.

Podia ir por aí, mas não vou (além do que já fui, claro). Vou apenas fazer algumas perguntas ao antigo primeiro-ministro que criou as bases para a pletora da máquina estatal e ao presidente da República tornado co-responsável por inacção e silêncio pelos défices e dívida monstruosos. Sem esquecer ter sido beneficiário de um aparente enriquecimento sem causa com a venda e compra de favor de acções do BPN. BPN cujas fraudes, em que estiveram envolvidos várias pessoas dele próximas, só por si significaram rombos no orçamento de vários milhares de milhão de euros correspondentes a uma parte significativa dos cortes que ele agora contesta.

Se o corte dos 2 meses aos funcionários públicos e reformados, de que resultará a redução da despesa pública, é um imposto e constituiu «violação de um princípio básico de equidade fiscal» como é que ele se fosse primeiro-ministro atingiria o défice negociado com a troika? Aumentando em montante equivalente a carga fiscal sobre os trabalhadores do sector privado e ampliando a falta de «equidade salarial» em relação aos funcionários públicos que já têm salários superiores em empregos vitalícios? Aumentando a carga fiscal sobre as empresas e reduzindo ainda mais a sua competitividade?

E porque não propõe em troca o despedimento 50 a 100 mil funcionários públicos que teria o mérito de mostrar uma coragem que nunca se lhe viu, preservando ao mesmo tempo a sua estimada «equidade fiscal»?

E, já agora, se a coligação PSD-CDS tiver a coragem de aprovar no parlamento a «violação de um princípio básico de equidade fiscal» terá Cavaco Silva coragem para enviar o OE 2012 para o Tribunal Constitucional, vetá-lo depois e enfrentar a tempestade financeira que se seguirá?

DIÁRIO DE BORDO: Ainda hoje estou espantado

Sábado passado, li no Expresso uma pequena crónica com o título «Amanhã, vou comprar um iPad» onde a certa altura Maria Filomena Mónica, numa inesperada evasão intimista, escreve esta frase para mim surpreendente:
«Na minha família, era considerado de mau gosto tocarmo-nos. Após uma estadia prolongada fora de casa, a minha mãe podia condescender em fazer-nos uma festa no cabelo, mas não me recordo de ter tido outros afagos.»
Criado numa família e criando duas famílias onde as pessoas frequentemente se tocam, beijam e afagam (e até se batem, com menos frequência), dei comigo a imaginar os alçapões freudianos por onde se afundam as mentes das criaturas duma família em que isso é considerado mau gosto. Talvez isso explique as «confissões» de gosto duvidoso do seu «Bilhete de identidade».

19/10/2011

Concurso de ideias sobre o OE 2012

João Cravinho, o inventor das SCUTS, acusa o governo de «uma espécie de ressentimento e ressabiamento vingativo em relação ao funcionalismo público e pensionistas» por lhes cortar 2 dos 14 meses, com a autoridade que lhe advém de ter sido um dos maiores responsáveis por dar ao governo razões para este se «vingar» do funcionalismo público e pensionistas.

«Este OE constitui uma declaração de guerra e é um programa de agressão aos trabalhadores, ao povo e ao país» disse Arménio Carlos, membro da comissão executiva da CGTP, com a autoridade que lhe advém de não ter a qualidade de trabalhador há algumas décadas.

O OE 2012 é «como uma recessão induzida, um suicídio assistido à classe média» disse o economista Sandro Mendonça do ISCTE, com a autoridade que lhe advém de, sendo especialista em inovação, não ter inovado nada repetindo baboseiras de sindicalista.

O corte dos 2 meses aos funcionários públicos e pensionistas «é a violação de um princípio básico de equidade fiscal» disse o professor de economia que habita em Belém, aproveitando para ensinar aos ignaros que «a redução de vencimentos e pensões a grupos específicos é um imposto porque obedece à definição de imposto», com a autoridade que lhe advém de ter ficado calado durante 6 anos, assistindo silencioso, impávido e sereno ao crescimento da despesa e da dívida públicas que tornou indispensável reduzir os vencimentos e pensões ou aumentar os impostos ou fazer outra coisa qualquer para reduzir o défice que ele diz que deve ser reduzido.

Provisoriamente, o professor de economia que habita em Belém ganha o concurso. Não apenas pela originalidade do seu pensamento fiscal, mas porque acrescenta a isso a sofisticação de fazer o papel de Soares ao contrário. Durante os últimos anos do consulado de Cavaco, enquanto este implorava deixem-nos trabalhar, Soares apelava ao direito à indignação para preparar o terreno para o retorno do seu partido ao governo. Cavaco faz o mesmo para o partido do doutor Soares.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: «Em estado de transe induzido»

«As "Assembleias populares" dos "indignados" são mais um dos sinais do grau zero da política dos dias de hoje. Para além do absurdo de ver cem pessoas, que depois se reduzem a umas dezenas, a tomarem-se a sério, se é que isto não é uma contradição nos seus termos, como se estivessem a governar o país, sem suscitar o ridículo geral, há quem escreva entusiasmado sobre aquele Petit Guignol, como se de um soviete se tratasse. Acresce o orwelliano tique de se chamarem "assembleias" quando são ajuntamentos ad hoc, em que ninguém representa ninguém, nem muitas vezes se representa a si próprio dado que está em estado de transe induzido, e de usarem o nome de "populares", quando, se aquilo é o povo português, eu quero emigrar para as Desertas.»

JPP no Abrupto

DIÁRIO DE BORDO: Labirintos de milho em homenagem aos voos da NASA (3)

18/10/2011

DIÁRIO DE BORDO: Não há pachorra para tanta lamentação

O coro das lamentações da «brutalidade» do orçamento é maioritariamente composto pelo coro dos amanhãs que cantaram durante 6 anos, os mesmos amanhãs que tornaram indispensável a «brutalidade» de hoje, ampliado com o coro a bocca chiusa dos que geriram ou venderam os seus silêncios durante os mesmos 6 anos.

O doutor Jorge Sampaio um dia disse haver vida além do orçamento. O coro com as suas lamentações desmente um dos seus mentores.

Não há pachorra.

Evolução na continuidade

«Portugal vai reactivar as relações com a Venezuela para tentar dar um novo impulso às exportações portuguesas e ajudar as empresas nacionais a promover os negócios já iniciados com o país de Hugo Chávez. O Executivo de Pedro Passos Coelho reabilitou a comissão mista Portugal/Venezuela, criada por José Sócrates, criando uma nova. E já está a reactivar alguns dos acordos assinados em 2008 e que ainda estavam por concretizar

Tudo indica ser um exemplo de chuva na eira (negócios furados, como a experiência demonstrou) e sol no nabal (relações com regimes de coronéis).

«Evolução na continuidade» é um copyright de Marcelo Caetano, querendo significar a tentativa de fazer algumas diferenças na situação sem muitas ondas, para não assustar os antigos situacionistas. Neste caso, o Alberto e Passos Coelho não querem assustar os novos situacionistas.

SERVIÇO PÚBLICO: O monstro eléctrico

«Portugal é o campeão do rácio energia renovável/consumo médio e na relação eólica/consumo de vazio de verão estamos em segundo lugar, o que levanta o problema do que fazer a tanta energia. Criou-se um novo monstro.

A APREN encomendou a uma consultora, 'treinadora' da EDP, um estudo sujeito à máxima 'quem paga, encomenda o resultado'. É um exercício de publicidade enganosa. Apenas três observações: ao contrário do dito, o preço médio pago pela eólica continua a ser superior a €90 Mwh, embora as novas entrem a preço mais baixo; nas renováveis intermitentes, o que é esquecido no estudo, ao preço político da tarifa há que acrescentar os sobrecustos sistémicos da térmica de back up (de dia quando não há vento) e da bombagem (à noite para acumular a energia excedentária), havendo pois um triplo investimento; os actuais e grandes parques eólicos, bem como as grandes centrais solares da época Pinho, exigem vultuosos investimentos nas redes de transporte, e não têm a 'beleza' das pequenas renováveis do meu tempo, junto do consumidor ou embebidas nas redes de distribuição, poupando no transporte, como o estudo insinua.

As centrais térmicas deveriam trabalhar pelo menos 7000 horas/ano. Agora, funcionando apenas como apoio às eólicas, ficam por metade, o que não chega para cobrir os custos fixos do investimento. O excesso eólico leva assim a que se pague sempre a eólica produzida, consuma-se ou não, e depois ainda se pague através de uma vergonhosa 'garantia de potência' esses custos fixos para ver as térmicas paradas ou subutilizadas!

Por outro lado, as centrais da EDP sujeitas aos CAE (já aqui explicados) passaram para os CMEC, fazendo ofertas no mercado grossista, em que se simula o funcionamento em mercado livre, mas tendo um mecanismo de compensação que lhes permite a recuperação do investimento feito, no caso de terem cash flows inferiores aos obtidos nos CAE.

Então, por causa da eólica, a capacidade instalada é pouco utilizada, os custos fixos destes investimentos ociosos evidenciam-se e os custos dos CMEC disparam.

A EDP tem beneficiado enormemente disto e por uma complexa engenharia financeira (em que se tornou especialista) ganhou na secretaria um balúrdio, pois em termos económicos tal significava que estava a ser remunerada a 8,5% em activos cujo custo de capital era inferior a 5%. Quando for grande, também gostaria de ter esta renda de situação para parecer um grande gestor...

Também é condenável o preço político pago às cogerações (produção simultânea de electricidade e calor) a fuelóleo (!) e às falsas cogerações (que só produzem electricidade), tendo-se esquecido os coeficientes técnicos entre electricidade e calor que eu tinha imposto.

O monstro criado dará aumentos de preços superiores a 30% este ano, se não for domado. Este Governo, forçado a asfixiar com impostos a classe média e os pensionistas, terá coragem para o domar como recomenda a troika e o conselho tarifário?»

Luís Mira Amaral, no Expresso de 15-09

17/10/2011

Uma nova causa facturante fracturante para o berloquismo

As despesas com alimentação infantil (cerca de 100 milhões) foram já ultrapassadas pelas despesas com rações de animais de companhia (cerca de 150 milhões), incluindo cerca de 1,5 milhão de cães e de 1 milhão de gatos. Em conjunto, os canídeos e gatídeos dão 25 a 1 aos apenas 100 mil humanos nascidos em cada ano. (Fonte: Expresso)

É uma nova frente que se abre ao berloquismo em crise: exigir já abono de família para a bicheza doméstica e sair da situação «abaixo de cão» em que ficou depois de ter sido humilhado na Madeira pelo Partido dos Animais, como oportunamente lembrou o berlogue 5 dias.

DIÁRIO DE BORDO: Grande Auditório Gulbenkian, o Pequeno Met dos tesos (3)

Anna Netrebko, a ex-empregada de limpeza do Teatro Mariinsky, uma extraordinária Bolena

16/10/2011

DIÁRIO DE BORDO: A maldição da tabuada (outra vez)

Porquê os «indignados» estão indignados? A acreditar no que eles dizem, o que requer alguma fé, estão indignados por não terem emprego. Se fossem sinceros diriam que poderiam bem continuar a viver sem trabalhar, o lhes faz falta é a grana.

E porque não têm emprego? Talvez por não saberem fazer nada que alguém esteja disposto a pagar para ser feito. Dito assim, de repente, pode parecer uma provocação reaccionária. Pode mas não é. Ou melhor, apesar de reaccionária, não é provocação. Vejamos mais de perto.

Na manifestação de ontem, segundo a organização e a imprensa amiga portuguesa  estiveram 100 mil indignados. Segundo El País, terão sido 12 mil ou 25 mil (segundo a versão da organização para El País) ou 30 mil (segundo a versão do Público do que teria sido a versão do El País), mas também poderão ter sido 50 mil.

O que indicia esta disparidade de estimativas de manifestantes variando entre 12 mil e 100 mil? Indicia problemas de numeracia, dificuldades com a aritmética, quer dos manifestantes quer dos jornalistas old fashioned quer dos jornalistas de causas (supondo que é possível distinguir entre uns e outros). Não será a maldição da tabuada o obstáculo principal para os «indignados» conseguirem o almejado emprego, sabendo-se que já não há vagas no jornalismo, uma das poucas profissões em que do domínio da aritmética não é um requisito?

O socialismo autárquico é o nosso fado fardo

O facto de o passivo da câmara municipal de Lisboa ultrapassar 2 mil milhões de euros não foi um obstáculo para António Costa, presidente da câmara em estágio para a liderança do PS e putativo futuro primeiro-ministro, acrescentar mais um milhão para financiar um «museu vivo da Mouraria», um projecto apresentado por uma recém-licenciada em Antropologia a que um apparatchik dum Gabinete de Apoio ao Bairro atrelou «20 entidades envolvidas em trabalhos sociais e culturais no bairro», para ajudar a torrar o dito milhão. (Fonte: Expresso)

DIÁRIO DE BORDO: Labirintos de milho em homenagem aos voos da NASA (2)

15/10/2011

Não se pode ser bom em tudo

Segundo o Eurostat, Portugal é vigésimo nos 27 países da UE na produtividade industrial que só é menor na Estónia, Lituânia, Roménia, Letónia e Bulgária. Para o DE «Portugal é o sexto país da UE com menos produtividade no trabalho» que é uma outra maneira mais suave de dizer o mesmo.

Em compensação, segundo a FIFA estamos em 5.º lugar à frente a Itália e do Brasil, somos o 9.º país do mundo com melhor cobertura rodoviária e o 4.º com mais automóveis por 100 habitantes e, o nosso grande feito, segundo o CMA, temos a segunda maior Cumulative Probability of Default da dívida soberana pública.

Pro memoria (39) – tenham medo, tenham muito medo

«Não deixaremos de, parceria público-privada a parceria público-privada, contrato a contrato, saber quem, porquê e como estiveram na origem dos encargos insustentáveis», garantiu Passos Coelho ontem no parlamento.

Tomemos nota para conferência futura. Se tomada à letra, esta garantia exigiria um investimento de muitos milhões de euros para construir uma prisão onde guardar os «agentes» responsáveis pelos «encargos insustentáveis». Seria uma espécie de parlamento com todos os partidos representados e uma maioria absoluta do PS comandada pelo animal feroz que teria de continuar os seus estudos de filosofia por correspondência. Seria também necessária uma cela de segurança máxima para armazenar o Bokassa das Ilhas.

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: O verdadeiro sinal da crise – as acções do Lemon Brothers BCP

[Enviado por JARF]

14/10/2011

CASE STUDY: a pátria do capitalismo é o inferno dos capitalistas (6)

Anjos caídos recentemente: (1), (2), (3), (4) e (5).

Raj Rajaratnam, fundador do Galleon Group, já havia sido considerado culpado em Maio por inside trading e foi agora condenado a 11 anos de prisão.

É para mim mais um mistério como a justiça americana consegue investigar, provar, julgar e condenar os crimes de colarinho branco sem deixar prescrever, sem o enriquecimento sem causa, sem a doutora Maria José Morgado, sem o Conselheiro Fernando José Matos Pinto Monteiro, e sem todas as inúmeras luminárias que não conseguem provar nada e quando provam já o crime está prescrito.

DIÁRIO DE BORDO: Quem os viu e quem os vê

Setembro de 1996, comboio de Budapeste para Praga. Devido à falta de visto duma pessoa com quem viajava, fomos forçados a sair na primeira estação na Eslováquia – Štúrovo. Ainda se sentia a presença invisível da cortina de ferro. Um apeadeiro miserável, polícias de fronteira com um ar de Checkpoint Charlie. Após complicadas negociações e pesados pagamentos em marcos lá foram buscar uma funcionária a casa com o indispensável carimbo. Perdida a viagem num comboio decente Budapeste-Praga e substituída por outra num recoveiro 4 ou 5 horas depois. Jantar no comboio substituído por snacks comprados na única lojeca (nojenta) do apeadeiro. Foram os snacks mais ranhosos que algum dia nos passaram pela goela, e já nos tinham passado pela goela coisas bastante más.

15 anos depois o parlamento eslovaco vota contra a participação no FEEF recusando contribuir para resgatar os países falidos do Sul da Europa. Um dos partidos da coligação classificou o FEEF como «estrada para socialismo». Eles lá sabem.

13/10/2011

Sacudindo a água do capote

Há o jornalismo de causas que se borrifa para os factos e há o presidencialismo de causas que sacode a água do capote. É o caso de o criador e curador durante 10 anos do monstro ingovernável que está na génese da crise portuguesa, ao dizer em Florença que «as causas radicam nas políticas erradas, nomeadamente orçamentais e macroeconómicas, seguidas pelos Estados-membros e, por outro lado, numa deficiente supervisão por parte das instituições europeias. A responsabilidade por esta crise é claramente partilhada pelos Estados-membros e pelas instituições europeias».

O verbo «radicar» vem do verbo radicare, ou seja enraizar, ir à raiz, neste caso às causas profundas da crise portuguesa. E eu a pensar que a causa profunda era o despesismo público e privado que aumentou o endividamento até ao insuportável, escamoteado por fraudes contabilísticas.

OE 2012: a escuridão no fundo do túnel

Secretos de porco, uma receita portuguesa

«Relatório sobre caso da alegada espionagem a jornalista foi enviado para o Parlamento com a identidade de vários elementos dos serviços de informações. Um deles até é identificado pelo nome completo e actual localização.» (DN)

Dúvidas (10) – Portugal ainda é independente?

«É possível que Portugal, daqui a 30, 50, 100 anos, não seja um país independente como é hoje», questionou-se António Barreto, um dos últimos abencerragens da inteligentsia doméstica. Provavelmente dezenas de coirões que nas últimas décadas contribuíram para afundar o país terão pensado com os seus botões irra que este gajo parece um medinacarreira. Esquecem os coirões que o país que eles ajudaram a afundar é um país tutelado há algum tempo.

DIÁRIO DE BORDO: Labirintos de milho em homenagem aos voos da NASA (1)

12/10/2011

Pro memoria (38) – mil Madeiras florescerão

Enfiar dívida debaixo do tapete é possivelmente a maior contribuição portuguesa para a contabilidade pública. A este respeito, estamos numa espécie de final do Euro 2004 aonde chegámos e só perdemos com os melhores de todos: os gregos. Foram agora descobertas facturas não contabilizadas pelo Hospital de Santa Maria no valor de 7 milhões. É apenas uma gota de água, pouco mais de um por mil da dívida da Madeira. Não seria importante se debaixo do tapete de muitos outros hospitais, empresas públicas, institutos, fundações, organismos, etc. não viessem a surgir, e surgirão, centenas ou milhares de pequenas gotas que engrossarão o caudal do rio subterrâneo da contabilidade do estado sucial.

Quando o rio subterrâneo emergir gradualmente lá teremos de ir outra vez com a corda ao pescoço pedir mais dinheiro à troika, perder o resto do 13.º mês e continuar o calvário de pagar os delírios de décadas escondidos a golpes de trafulhice.

DIÁRIO DE BORDO: Já não era sem tempo

Desde há meia dúzia de anos e uma dúzia de vezes, o (Im)pertinências vem recorrendo aos estudos do antropologista holandês Geert Hofstede para explicar as nossas desgraças. Já agora, é interessante esclarecer que Hofstede não desenvolveu o seu modelo das 4 dimensões culturais numa torre de marfim duma qualquer universidade. Em vez disso, assentou as bases empíricas desse modelo no seu trabalho durante vários anos no departamento de recursos humanos da IBM, onde teve a oportunidade de ter acesso e analisar mais de 100.000 questionários de empregados provenientes das sucursais da IBM em mais de 70 países.

Finalmente, alguém na blogosfera se apercebe da importância desses estudos para compreender a influência da cultura dominante numa sociedade e, em particular, para compreender como boa parte das nossas fatalidades são explicadas pelas características da sociedade portuguesa nas 4 dimensões consideradas por Hofstede: um dos países menos masculinos do mundo, com grande distância ao poder, profundamente colectivista e com enorme aversão ao risco. Está lá tudo.

11/10/2011

Exemplos do costume (6) – qual é a pressa?

Em 1982 uma sociedade dissolve-se e um sócio pede ao tribunal para fixar o valor da sua quota. 25 anos depois o valor da quota é fixado. O tribunal de recurso entendeu só ter havido «três anos e meio de excesso de tempo de promoção de diligências».

Alguém espera que governos incapazes de desempenhar decentemente as suas funções nucleares, como a justiça, vão suprir a falta de iniciativa privada e desenvolver a economia?

SERVIÇO PÚBLICO: A banca europeia à beira de um ataque de nervos

Como qualquer observador informado já sabe há pelo menos dois anos, a banca europeia só sobreviverá ao colapso de alguns PIGS com injecções maciças de capital, por muito que os stress tests realizados pela outra troika (Comissão Europeia, BCE e Comité de Supervisores Bancários Europeus) tentassem tapar o sol com um peneira – ver a este respeito a série de posts Testes de (pouca) resistência.

Isso mesmo mostra o calculador desenvolvido pela Reuters em Junho. Com os valores então assumidos como prováveis haircuts e um target core Tire 1 de 7%, cerca de 3 dezenas de bancos, incluindo os 4 maiores bancos portugueses têm insuficiências de capital superiores a mil milhões de euros.

Clique para ampliar

Simulando haircuts superiores e mais conformes à CPD (Cumulative Probability of Default) implícita nos CDS (Credit Default Swap) as insuficiências disparam. Por exemplo, com um haircut de 50% da dívida pública portuguesa em vez de 26%, as insuficiências de capital dos bancos portugueses aumentariam mais de 50%. Aumentarão ainda mais se o target core Tire 1 for 9% (o calculador da Reuters está limitado a 8%) ou 10% como está previsto acontecer gradualmente.

Ontem mesmo Juncker, o presidente do Eurogrupo assumiu que o haircut da Grécia poderia ultrapassar 60% o que está em linha com a previsão de há 4 meses da Reuters, quando a CPD da Grécia era muito inferior à actual.

Por isso, quando, uma vez mais, a dívida ultrapassa um certo limiar são mais os devedores que têm os credores na mão do que o contrário. E, neste caso, os credores que interessam são os bancos e seguradores alemães e franceses, em primeira linha, e em segunda linha os respectivos Estados que serão forçados a capitalizá-los. Exemplo disso é o bad bank com 90 mil milhões de lixo do Dexia que os governos da França, Bélgíca e Luxemburgo decidiram ontem garantir.

Percebe-se agora melhor o dilema alemão, que um ditado brasileiro descreve assim: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

[Gráfico da Reuters enviado por AB]

Estado empreendedor (57) - a maldição da Rua da Horta Seca (II)

Álvaro Santos Pereira começou mal, muito mal. Começou por não ter percebido a diferença entre a higiene dos papers de macroeconomia e a suja e dura realidade da governação de um país falido, com uma grande falta de iniciativa privada e um grande excesso de iniciativa pública para torrar dinheiro em elefantes brancos. Confirmou o erro de casting e deixou-se transformar no Alvarinho de Viseu. E continua com a mais completa contradição entre as suas soluções teóricas anteriores à sua nomeação e a sua prática de governação, ou mais exactamente as suas declarações, porque governação ainda não se viu.

É mais um caso do complexo de direita, diferente mas comparável aos de Freitas do Amaral e de Basílio Horta, que assustados por serem vistos como de direita acabaram na cama com a esquerda. Com uma doutrina de intervencionismo mínimo do estado na economia, podendo qualificar-se com boa vontade como liberal, ASP está a ir por um caminho que em pouco se distingue dos seus precursores na Horta Seca.

Nos intervalos de declarações enigmáticas sobre os projectos ferroviários, anuncia «alterações profundas ao nível do capital de risco, ao nível da atracção e agilização do investimento, ao nível de reestruturação de empresas, ao nível laboral e ao nível das políticas de emprego». Anuncia a criação de estrutura de apoio à internacionalização. Anuncia a reestruturação do capital de risco público como se as iminências plantadas pelo governo nas EP de capitais de risco sem arriscarem um cêntimo do seu próprio dinheiro fossem capazes de distinguir as oportunidades viáveis das sepulturas de dinheiro. «Diz estar disponível para ajudar directamente empresas em dificuldades» enquanto o governo não paga os milhares de milhões de euros de facturas atrasadas aos seus fornecedores.

Não pode acabar bem. Se os seus antecessores ainda tiveram algum dinheiro (e portanto algum poder) para colocar onde estavam as suas grandes bocas, ASP só tem uma grande boca e nenhum dinheiro para lá colocar. Desagrada aos intervencionistas porque não tem dinheiro para torrar nos seus interesses e nos seus delírios e desagrada aos liberais porque diz que vai colocar o dinheiro que não tem onde não deveria, ainda que o tivesse. Vai ser a vítima mais recente da maldição da Rua da Horta Seca.

10/10/2011

CASE STUDY: a Madeira como região de culto (6)

[Sequela de (1), (2), (3), (4) e (5)]


Sem surpresas, salvo para os distraídos crónicos, o presidente-rei Bokassa foi reeleito com a ajuda de todos os governos da República pelo menos desde Cavaco Silva passando por Guterres, Barroso e Sócrates. Santana Lopes não chegou a aquecer a cadeira e Passos Coelho ainda tem o lugar frio.

Sem essa preciosa ajuda, consistindo em donativos pagos com dinheiro dos contribuintes europeus e dos sujeitos passivos do contenente e olhos bem fechados para as contas, os abusos de poder e os tentados às liberdades, Alberto João Jardim não teria comprado durante 3 décadas o voto dos madeirenses e porto-santenses. É estranho? De modo algum. Imaginemos um Alberto João a liderar um qualquer partido do contenente e a conseguir ousadamente sacar dinheiro a Bruxelas e, cereja em cima do bolo, afagar o nosso ego de pedintes sem vergonha insultando a Comissão, o Parlamento e os contribuintes europeus. Quem julgam que ganharia as eleições?

09/10/2011

CASE STUDY: Efeitos da redução indiscriminada da TSU compensada por um aumento do IVA (4)

Este post está relacionado com este e este posts do Pertinente, pretende refutar algumas conclusões do ensaio de Ricardo Reis (RR), citado aqui pelo Blasfémias, e é uma continuação dos meus posts (1), (2) e (3).

No primeiro post mostrei que nas actividades com taxa normal de IVA, a redução da TSU acompanhada ou não pelo aumento do IVA determinará um aumento do lucro, a não ser que a empresa decida reduzir os preços, e admiti que tal poderá não acontecer nos bens e serviços não transaccionáveis.

No segundo post mostrei que nas actividades com IVA reduzido (se este se mantiver) e nas isentas de IVA, o impacto da redução da TSU combinado com o do aumento do IVA depende da magnitude de uma e de outro, podendo o efeito líquido ser uma redução do lucro seguida dum possível aumento de preços.

No terceiro post mostrei que nas actividades isentas de IVA , e em particular nos serviços financeiros, uma redução relevante da TSU conduziria a um aumento dos lucros, porque dada a estrutura de custos desses serviços o aumento fiscal e socialmente admissível do IVA passivo não seria suficiente para compensar a redução dos custos.

Neste post trato das empresas exportadoras. Consideremos separadamente as vendas para os mercados interno e externo e para simplificar imaginemos a empresa cindida em duas. À «empresa» que vende para o mercado interno aplicam-se as conclusões do primeiro post. Na «empresa» exportadora a redução da TSU terá um efeito directo na redução dos custos e o aumento do IVA não acresce aos seus custos operacionais porque o IVA passivo incluído nas compras aos fornecedores é recuperado posteriormente na totalidade. Assim, do ponto de vista dos resultados, estes aumentariam se os preços de venda se mantivessem. Como a «empresa» exportadora compete no mercado internacional, vamos admitir como provável que baixaria os seus preços na precisa medida da redução da TSU, mantendo assim os resultados. Teríamos então neste caso o efeito previsto pelos macroeconomistas que defendem esta solução. Resta saber a dimensão e outras consequências desse efeito.

Num contexto de falta de liquidez e de restrições no acesso ao crédito como o que vivemos, devemos ainda considerar o impacto financeiro negativo do aumento do IVA passivo na liquidez da «empresa» exportadora, uma vez que existe um diferimento superior a 30 dias entre o pagamento do IVA passivo e a sua recuperação. Mais importante do que esse impacto pode ser o efeito perverso de incentivar estas empresas a substituírem as compras de matérias-primas no mercado interno pelo mercado externo, aproveitando o mecanismo do reverse charge que permite à empresa não pagar o IVA ao seu fornecedor comunitário e na declaração seguinte incluir o IVA dessas compras ao mesmo tempo a pagar e a recuperar do Estado. Neste caso, a consequência é o aumento do IVA passivo, apesar de neutro nos custos da empresa, poder induzir o aumento das importações.

Consideremos agora o impacto da redução da TSU na redução dos custos e o consequente aumento potencial da competitividade da empresa exportadora. Tomemos, por exemplo três empresas fortemente exportadoras e bastante competitivas: a BA Vidro (2/3 de exportações), EFACEC (2/3 de exportações) e SEMAPA (85% de exportações). Em todas estas empresas os custos com pessoal se situam no intervalo 10-15% dos custos operacionais, pelo que mesmo uma redução na ordem dos 8% (a mais alta até agora mencionada, salvo erro) teria um efeito de apenas ao redor de 1%. Sem falar do nosso maior exportador (PETROGAL) onde os custos com pessoal representam menos de 3% dos custos operacionais.

Poder-se-ia argumentar que sendo uma parte significativa das exportações constituída por produtos com uma incorporação média mais elevada de mão-de-obra, o peso dos custos com pessoal em relação aos custos operacionais será muito diferente daqueles exemplos. Poder, poderia, mas não teria sustentação. Segundo o estudo da Central de Balanços do BdeP «Análise Sectorial das Sociedades Não Financeiras em Portugal» acabado de publicar, com base nos dados da declaração IES de 2010, a estrutura dos custos operacionais é a seguinte:


Donde se concluiu que em média na indústria os custos com pessoal representam cerca de 15% dos custos operacionais, e em consequência o impacto nestes custos da mesma redução de 8% da TSU seria apenas ligeiramente superior a 1%. A consideração do peso significativo dos custos financeiros na estrutura da maioria das empresas diluiria ainda mais os efeitos da redução da TSU nos custos totais. Evidentemente, em rigor, deveríamos estimar o efeito nas empresas a montante da redução da TSU a qual, ao diminuir os seus custos, permitiria baixar os preços e induzir a redução dos custos das empresas exportadoras. Tendo em atenção, uma vez mais, a estrutura média de custos não parece que isso permitisse baixar mais do que umas décimas nos preços das exportações, sobretudo se considerarmos que uma parte significativa desses fornecimentos é constituía por bens e serviços não transaccionáveis, como certas matérias-primas, a energia ou os serviços financeiros.

Se nos lembrarmos que esta chamada «desvalorização fiscal» visaria substituir uma impossível desvalorização cambial, fica a pergunta: faria sentido uma desvalorização pontual e única de 1% ou 2%? Recordemos que em 1983, no quadro da intervenção do FMI, o escudo foi desvalorizado 12% one shot. Ainda se fosse um crawling peg de 1% ou 2% ao mês...

No próximo post irei analisar o caso particular do turismo, um dos sectores exportadores mais importantes com 7,6 mil milhões de receitas em 2010.

ARTIGO DEFUNTO: Défice de numeracia

«Ora, convém recordar algumas evidências: o endividamento da Madeira é três vezes superior, em percentagem, ao do país», escreveu Miguel Sousa Tavares (MST) na sua crónica no Expresso.

Não se sabe qual das 3 seguintes versões de dívida da Madeira MST usou para o seu cálculo:
  1. Versão Bokassa 5,8 mil milhões
  2. Versão Gaspar 6,3 mil milhões
  3. Versão líder do PS dívida oculta superior a mil milhões de euros ou seja dívida total 6,8 mil milhões.
Vamos supor que foi a maior. Também não se sabe qual a base de MST para calcular as percentagens. Vamos supor que foi o PIB de 2010. No caso da Madeira são 5,1 mil milhões, pelo que a dívida segundo o Tozé, representaria 133% do PIB regional.

Chegados aqui, sabendo-se que o PIB português de 2010 foi 167,5 mil milhões e que um terço de 133% é 44,3%, segundo as contas de MST só devemos, tudo por junto e arredondado para cima, uns 80 mil milhões. Ficamos assim a saber uma de duas coisas:

  • Estamos safos, porque MST nas suas deambulações pelas catacumbas das contas públicas descobriu que a maior parte da alegada dívida é falsa e devemos muito menos do que os mais de 160 mil milhões que o governo pensa que devemos, sem contar com a dívida das empresas públicas (quase 40 mil milhões) e das autarquias (umas dezenas de milhares de milhões);
  • Continuamos lixados e ficámos a saber, ao contrário do que muitos supunham, que a maldição da tabuada já nos perseguia na época em que MST fez a sua primária - algures na segunda metade dos anos 50, segundo as contas de uma criatura que fez a primária meia dúzia de anos antes.

08/10/2011

BREIQUINGUE NIUZ: António Costa inaugura apartamentos de luxo em Alfama

Este seria o título mais apropriado para notícia da inauguração da reabilitação de dois prédios no Beco do Mexia ao fim de 7 anos e mais de um milhão de euros, à razão de 114 mil euros por fogo, segundo a contabilidade do actual presidente da câmara. António Costa aproveitou para lavar as mãos da obra por ter sido aprovada por Santana Lopes antes da sua breve ascensão ao governo seguida de queda, pela mão do antigo colega de escritório e patrocinador do seu sucessor e actual presidente da câmara. Apesar dos 114 mil euros por fogo, a mobília de quarto da Dona Felicidade não cabe no dito.

[Lido aqui via Blasfémias]

Dúvidas (9) – quem é responsável pelas soluções do passado?

Não sei se Tozé Seguro teve um rebate de consciência na conferência do grupo parlamentar do PS, reconhecendo o óbvio das «soluções do passado (que nos) trouxeram até aqui» serem «responsabilidades de todos» (todos do PS, entenda-se) , ou se é apenas um expediente falsamente solidário para entalar a facção socratina. Na melhor hipótese é tarde e é pouco.

As responsabilidades do PS por 13 dos últimos 16 anos são tão profundas que um novo líder que as não reconheça está condenado a oferecer mais do mesmo a um eleitorado gradualmente mais consciente de estar a começar a pagar a factura da demagogia e irresponsabilidade e, por isso, pouco receptivo a esse discurso.

07/10/2011

Lá se vai o Magalhães

Depois da recusa de paternidade sucessivamente de Sócrates (o que estuda filosofia em Paris), Mário Lino (o do jamais) e Zorrinho (ressuscitado como líder parlamentar), o Magalhães sofrerá mais uma humilhação pelos tabletes produzidos pela DataWind no Reino Unido a 37 euros e destinados a serem vendidos às escolas indianas por 16,5 euros.

Um dia como os outros na vida do estado sucial (3) – a deles é maior do que a nossa

Segundo as contas da equipa do Bokassa – a mesma que não foi capaz de medir a dívida do Reino? - a dívida portuguesa, isto é dos sujeitos passivos que têm financiado a dívida do Reino Bokassa é de 332,8 mil milhões de euros (203,1% do PIB português), incluindo empresas públicas e autarquias, equivalente praticamente o dobro do que os cubanos têm imaginado. Quem o disse foi o vice-presidente da Assembleia da República e putativo substituto de Alberto João Jardim, o mesmo que na entrevista ao SOL aplicou figura da exclusão de ilicitude à fraude contabilística na Madeira.

Segundo essas prodigiosas contas, a RAM com 2,5% da população só teria 1,8% da dívida do país. Fica, portanto, ainda uma folga de 0,7% , uma ridicularia de uns 1.200 milhões de euros, para o Bokassa fazer mais uns túneis.

Après moi le déluge, disse o outro.

06/10/2011

SERVIÇO PÚBLICO: Enriquecimento quê?

«O "ENRIQUECIMENTO ILÍCITO": - LEGISLAR DE FORMA PERIGOSA E SEM QUALIDADE», artigo de Pacheco Pereira no Público e no post do Abrupto.

A ler, para quem tenha dúvidas, como eu (no plano da suja realidade, não dos princípios).

DIÁRIO DE BORDO: No more Jobs (1955-2011)

Jobs com Wozniak, quando jovens fundadores da Apple

Pro memoria (37) – (ainda) mais legados de Sócrates

A obra de José Sócrates foi tão vasta que o seu legado vai aumentar durante décadas (não é exagero, vejam-se as PPP rodoviárias a pagar durante pelo menos mais 2 décadas). Acrescente-se ao legado a plataforma logística Lisboa-Norte, onde foi anunciado em 2008 um investimento de 265 milhões de euros e a criação de «15 mil postos de trabalho directos e mais cinco ou 7 mil indirectos», constituindo-se assim mais um exemplo dos efeitos do efeito multiplicador.

Em termos de postos de trabalho foi criado um indirecto pela Abertis Logística. Quanto ao investimento, ninguém deve saber quanto lá foi torrado, presumindo-se ser apenas uma fracção do investimento total. Espera-se que o Alberto não vá ressuscitar o elefante branco e tentar alcançar os efeitos do efeito multiplicador à custa do Efeito Lockheed TriStar.

Estado empreendedor (57) - Ciudad Real, a Beja dos espanhóis

O aeroporto de Ciudad Real tem das maiores pistas europeias com 4 km, pode receber 2,5 milhões de passageiros por ano (a Portela teve 14 milhões em 2010), tem 91 trabalhadores directos e 200 de empresas concessionárias e é servido por uma estação de TGV.


Com este aparato o aeroporto acolheu 3 voos por semana da Ryanair devidamente subsidiada, agora substituída pela Vueling com 4 voos semanais. Os restaurantes e bares servem apenas refeições aos empregados, únicos clientes durante 3 dias por semana. O elefante branco custou 500 milhões de euros, financiados na maior parte pela Caja Castilla La Mancha, que foi intervencionada pelo Banco de Espanha com avales de 9 mil milhões de euros. A Junta de Castilla-La Mancha também entrou com 140 milhões para cobrir as perdas de exploração.

Se eu fosse ao alcaide de Ciudad Real propunha ao presidente da câmara de Beja geminar as duas cidades.

Moraleja de la historia: nuestros socialismos son hermanos.

[Ver no ABC mais aeroportos fantasmas]

05/10/2011

A metalúrgica do regime afunda-se com ele (3)

(Continuação deste e deste posts)

A Martifer foi uma das empresas amigas do regime durante os governos de Sócrates. Fez vários favores (a compra das minas de Aljustrel à Lundin Mining não foi dos menores), e recebeu outros e uma ampla cobertura mediática pelo jornalismo promocional. Entrou em bolsa em 2007 cotada a 10€ para descer sucessivamente até aos 1,2€ dos últimos dias.

Depois de vários anos a fazer crescer o Grupo Martifer numa espécie de modelo mini-kaebol, o negócio começou a patinar e os irmãos Martins tiverem que vender várias empresas do grupo: a Martifer Renewables e a Home Energy à EDP (os amigos são para as ocasiões), o Tavira Gran-Plaza, a participação financeira na EDP, 2 parques eólicos na Alemanha, participações na REpower Portugal e Powerblades e nos últimos dias 3 parques eólicos na Polónia e prepara-se para vender outros na Roménia.

Com resultados a degradarem-se e um rácio de autonomia financeira em 31-12-2010 inferior a 1/3, que a Martifer considera reflectir «uma estrutura financeira robusta», mas que por via de regra se considera uma excessiva dependência do financiamento por passivos (uma parte significativa a curto prazo). Não admira que tenha sido forçada a vender activos e não vai parar tão cedo.

É a maldição do jornalismo promocional.

ESTADO DE SÍTIO:O corporativismo sobrevive na medicina

«Já temos médicos com dificuldade de empregabilidade, nos próximos anos teremos médicos sem emprego», garante o bastonário da Ordem dos Médicos. Entretanto, o governo continua a contratar médicos estrangeiros para suprir a falta que o chefe da corporação dos médicos diz ser excesso. Apesar do que diz o chefe, os dados mostram existirem em Portugal cerca de 4 mil (quase 10% do total) médicos estrangeiros, número a aumentar na ordem de 100 por ano. Alguns desses médicos estrangeiros são pagos para não dar consultas.

Entretanto e, uma vez mais, apesar do excesso referido pelo chefe da corporação, a procura de serviços de saúde é vista como promissora para mais de 1.300 estudantes portugueses a estudarem medicina no estrangeiro, sem lugar nas faculdades de medicina portuguesas que só aceitam génios (se as classificações do ensino secundário tiverem alguma fiabilidade que outra coisa pode ser um jovem que consegue uma média superior a 18 valores?)

04/10/2011

A extorsão pelo Estado Sucial

Na RTP com dados da Pordata

CASE STUDY: A situação portuguesa é diferente da irlandesa, mas nem sempre para melhor (5)

[Continuação de (1), (2), (3) e (4)]

A maldição da macroeconomia

«No mundo de hoje apenas alguns serviços de proximidade são claramente não transaccionáveis internacionalmente. Pouco mais do que os cortes de cabelo e os dentistas
José Ferreira Machado, professor catedrático e director da Faculdade de Economia no seu artigo «…Então mais vale não mexer» no SOL sobre a desvalorização fiscal via redução da TSU.

Actividades onde predominam serviços de proximidade claramente não transaccionáveis internacionalmente e uma lista das Páginas Amarelas desses serviços

03/10/2011

ARTIGO DEFUNTO: A arte de bem titular

António José Seguro, o mesmo que durante 6 anos assistiu impassível à manipulação das contas públicas levada a cabo pelo governo do seu camarada Sócrates (*), classificou a conferência de imprensa do ministro das Finanças sobre a situação financeira na Madeira com «uma maquilhagem feita para proteger eleitoralmente o PSD na Madeira».

Uma maquilhagem alegada pelo líder do PS passou no título do Expresso a uma maquilhagem de facto: «Vítor Gaspar fez "maquilhagem para proteger PSD na Madeira"»

Percebe-se o estado de necessidade política do Tozé, percebe-se o estado de necessidade financeira da Imprensa e percebe-se o papel da banca do regime na satisfação das necessidades financeiras, mas não seria possível um pouco mais de decoro?

(*) Em caso de dúvida, para reavivar a memória, recomendo uma releitura destes posts.

A ilha da exclusão de ilicitude

Sabia do buraco financeiro da Madeira ou ficou surpreendido?

«Sabia que havia algumas dificuldades mas não sabia os termos exactos em que isso acontecia. Mas, atenção, essa prática ocorreu num momento em que estávamos longe desta problemática da ajuda externa e da relevância que um acto destes podia ter na imagem de rigor do país junto dos credores. A medida de não reportar informação ao Ministério das Finanças, que não está certa, foi feita com vista a evitar um mal público maior, que era acrescentar àquela dificuldade um corte nas dotações. Há no domínio do direito sancionatório a chamada figura da exclusão de ilicitude quando se quer prevenir um mal maior. E é este enquadramento que torna a valoração ética deste acto completamente diferente daquilo que tem sido feitio pelos media e por algumas forças políticas.»

Entrevista ao SOL de Guilherme Silva, vice-presidente do Assembleia da República e putativo substituto de Alberto João Jardim no caso de.

SERVIÇO PÚBLICO: o défice de memória (13)

[Actualização (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11) e (12)]

31-03-2011
Em consequência da inclusão no perímetro do OE dos défices das empresas públicas que cobrem os custos com menos de 50% de receitas próprias, segundo os critérios do Eurostat desde há vários anos não cumpridos pelo governo socrático, o INE corrigiu os défices de vários anos:
  • 2009 - 10,0%
  • 2010 - 8,6%
23-04-2011
«Défice de 2010 revisto em alta para 9,1 por cento do PIB»

30-09-2011
«Défice de 2010 passa de 9,1 para 9,8% do PIB»

02/10/2011

Sondagens de causas?

Na semana passada foram publicadas as sondagens da Marktest (no Público com o título «PSD e Passos Coelho com popularidade em alta») e da Eurosondagem (no Expresso com o título «Sondagem: PS é o único a subir este mês»).

Quem diria que se trata do mesmo país na mesma semana?

CASE STUDY: Dionysius’ miracle of multiplied coins needed again

«The year was around 400 B.C.; Plato was an up-and-coming young philosopher; and Dionysius of Syracuse (Yes, Syracuse is in present-day Sicily, but it was a Greek city at the time.), a noted tyrant, had a problem: He’d borrowed too much money from his subjects.

Dionysius’s solution was to appeal to the solidarity of tribes all across Europe to pool their money into a giant pot that would repay Dionysius’s debts.

Not really. Actually, Dionysius ordered all money handed over to the government upon pain of death. He then reminted every coin, turning each one-drachma coin into a two-drachmae coin. The tyrant was then able to pay all his debts in full; maybe no one noticed that the real value of the coinage had been halved.

If that’s the kind of decisive policy that investors are looking for to solve the euro-zone debt crisis, the Lisbon Treaty will need a few amendments.

It should be noted that Dionysius enjoyed several advantages over the contemporary Greek state. First, he was a tyrant and could largely do what he liked. Second, all his debts were domestically held. He hadn’t borrowed money from barbarian tribes in the northern wilderness, for example. The Greek government, on the other hand, has creditors scattered across the euro zone

An Ancient Greek Debt Solution, D. J. Matthew Dalton, WSJ

01/10/2011

Nem só o Estado é amigo do empreendedor (3)

aqui falei da YDreams liderada por António Câmara, empreendedor do ano em 2009 e um dos darlings empresariais do jornalismo de causas económicas. Já então com a Ynvisible, a nova empresa do grupo YDreams acabada de entrar na bolsa de Frankfurt e a perder metade do seu valor numa semana, a coisa exalava um odor a esturro.

Vê-se agora que o guisado está a ficar torrado: estão por pagar subsídios de férias, metade dos salários de Agosto e começou a debandada do pessoal. Em teoria, está tudo normal. É uma empresa inovadora, investe em I&D, num sector muito competitivo, internacionalizou-se, expôs-se ainda a maiores riscos, e sabe-se que a mortalidade das start ups tecnológicas é muito elevada. Noutras paragens, teria sido financiada por um venture capitalist, espécie não representada entre os aborígenes, que avaliaria a sua viabilidade putting the money where the mouth is e a acompanharia do berço até a vender através de uma IPO ou por outro meio e ganhar merecidamente um bom dinheiro.

Porém, neste país tudo é original. Em vez do venture capitalist, constitui-se uma coligação que leva ao colo as empresas, constituída pelo governo, a banca do regime com a Caixa à cabeça, tudo cozinhado pelos lóbis partidários e devidamente promovido pelo jornalismo de causas. Se tem sucesso, o empreendedor vende a empresa em poucos anos, vai viver dos rendimentos e passa a ser convidado para todos os fóruns sobre empreendedorismo e inovação onde é apresentado como um veterano a quem se pede conselho. Se não tem sucesso, é o calvário do costume: antes da débâcle tenta extrair uns dinheiros para os dias maus e, claro, deixa de ser convidado seja para o que for e o jornalismo de causas económicas tenta esquecer o caso e passa para o seguinte.


A YDreams parece ser mais uma vítima a juntar à lista das fatalidades nas empresas de sucesso do regime. É a maldição do jornalismo promocional.

Lost in translation (124) – já que não posso lá ter o meu empregado Manuel…

«Vejo um grande empenho, uma grande determinação e vejo os governantes a trabalharem todos duma forma bem coordenada com o mesmo objectivo e isso parece-me um aspecto muito positivo. Por outro lado, também vejo na área da economia um sentido inovador porque o senhor ministro da Economia é um homem que está particularmente relacionado com a economia moderna, a economia inovadora e chamou para o seu lado como secretário de Estado um empresário inovador que deu … o Dr. Carlos Oliveira … já deu provas de ser um excelente empresário da inovação

Lip service ao governo do banqueiro do regime Ricardo Salgado

30/09/2011

Resultado ao intervalo: Paulo Macedo 1 - presidente vitalício das farmácias 0

Em 28-02-2010, escrevi aqui: «uma das últimas trapalhadas que emerge das escutas publicadas pelo Sol é o decreto à medida da Associação Nacional de Farmácias (ANF) que o animal feroz José Sócrates ajeitou depois de aprovado no conselho de ministros, pressionado pelos rugidos dum outro animal ainda mais feroz – o presidente vitalício da ANF

Ontem, a Direcção da Associação Nacional de Farmácias demitiu-se por ter sido, segundo o seu presidente vitalício João Cordeiro, «marginalizada da discussão de uma problemática vital para os doentes e para a sobrevivência das farmácias».

CASE STUDY: a Madeira como região de culto (5)

[Sequela de (1), (2), (3) e (4)]


O Bokassa das Ilhas é um verdadeiro, honesto e corajoso socialista capaz de dizer o que os socialistas envergonhados não ousam. Ouçamo-lo no comício-jantar no Arco da Calheta:

«A minha política é para as pessoas. Não estou a fazer política para contabilistas, para a troika, para agradar a União Europeia, que vai por caminhos errados e que está a suicidar-se. Tenho orgulho de ter feito dívida. Abençoada seja a dívida. A dívida está aí. Foi posta ao vosso serviço, para a dignidade de cada homem e de cada mulher.»

Está lá tudo. A bondade do investimento público, a obra feita, a dívida virtuosa, o primeiro as pessoas, o povo, o desprezo pelos contabilistas. E com uma cereja no topo do bolo: em vez de aumentar a carga fiscal dos seus súbditos, como fazem os socialistas envergonhados, tem conseguido trespassar esse aumento para as costas dos cubanos à responsabilidade dos socialistas envergonhados do PS (e do PSD). O homem é um génio.

CASE STUDY: Efeitos da redução indiscriminada da TSU compensada por um aumento do IVA (3)

Este post está relacionado com este e este posts do Pertinente, pretende refutar algumas conclusões do ensaio de Ricardo Reis (RR), citado aqui pelo Blasfémias, e é uma continuação deste e deste meus posts.

No primeiro post mostrei que nas actividades com taxa normal de IVA, a redução da TSU acompanhada ou não pelo aumento do IVA determinará um aumento do lucro, a não ser que a empresa decida reduzir os preços, e admiti que tal poderá não acontecer nos bens e serviços não transaccionáveis.

No segundo post mostrei que nas actividades com IVA reduzido (se este se mantiver) e nas isentas de IVA, o impacto da redução da TSU combinado com o do aumento do IVA depende da magnitude de uma e de outro, podendo o efeito líquido ser uma redução do lucro seguida dum possível aumento de preços.

Ainda em relação ao mercado interno e às actividades isentas de IVA, é interessante considerar em especial os serviços financeiros prestados pela banca e pelos seguros. Tomando como exemplo o BPI em 2010, os custos com pessoal representavam cerca de 40% e os encargos e gastos operacionais cerca de 20% do produto bancário. Como a taxa normal de IVA e a TSU para as empresas têm percentagens muito próximas, para manter inalterado o lucro do banco com a referida repartição de custos, cada ponto percentual de redução da TSU teria que ser compensado pelo aumento de cerca de 2 pp do IVA. Daqui resulta que duma redução da TSU superior a 2pp compensada por um aumento do IVA inferior a 4pp resultaria um aumento do lucro do banco. Sabendo-se que a taxa de IVA dificilmente pode ser aumentada mais do que 1 ou 2%, é fácil concluir que os bancos poderão estar entre os principais beneficiários duma redução indiscriminada da TSU de magnitude suficiente para ter um efeito visível objectivo pretendido - aumentar a competitividade das exportações. Nas seguradoras a situação é semelhante porque a proporção de custos com pessoal e encargos e gastos operacionais é comparável à da banca.

Ainda não é neste post que vou tratar das exportações. Fica para o próximo.

(Continua)

29/09/2011

Lost in translation (123) – no tickets no money

«O conselho de administração e o diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II (TNDM) querem esclarecimentos do secretário de Estado da Cultura sobre a proposta governamental em "valorizar os resultados de bilheteira".» (No Sapo Notícias, vias Blasfémias)

Têm toda a razão. Em vez do discurso redondo, Francisco José Viegas deveria ter-se expressado em inglês. Como escreveu o Impertinente, keep it simple, pá.

CASE STUDY: Chuva na eira e sol no nabal

Frequentemente concordo com as opiniões e as propostas políticas de Vítor Bento. Não desta vez. No seu artigo «Desligados» de ontem no DE, começo por discordar dos dois primeiros parágrafos.
«Sempre se soube que a União Económica e Monetária (UEM) não constituía uma área monetária óptima e que teria que se confrontar com os problemas decorrentes da sua imperfeição.»
Sempre se soube, mas não por cá. Não me recordo de nenhum economista, além de João Ferreira do Amaral, manifestar clara e publicamente reservas quanto à bondade da integração de Portugal na Zona Euro.
«Mas o que ninguém previu é se pudesse fragmentar, voltando as fronteiras nacionais a constituir-se em fronteiras monetárias dentro da própria UEM, desligando alguns membros da política monetária comum. Mas é precisamente o que está a acontecer com os países da periferia e que se encontram monetariamente desligados da UEM.»
Para citar apenas um único alguém, Milton Friedman disse claramente em 1999 que a Zona Euro não era uma zona económica óptima e por isso mesmo dava-lhe no máximo 10 anos ou até à próxima crise para colapsar.

Em contrapartida, concordo com a sua conclusão que tendo a adopção do euro sido justificada com a vantagem de alinhar as condições monetárias dos países integrantes, o seu desalinhamento brutal reflectido nos yields e no custo dos CDS, em resultado da inviabilidade do euro demonstrada pela crise, encontrou Portugal desarmado pela impossibilidade de usar a desvalorização cambial para reagir à crise. Com a adopção do euro passámos a ter chuva na eira e sol no nabal.

Um dia como os outros na vida do estado sucial (2) – onde se fala de buracos talvez azuis e de um Álvaro talvez Manuel

Segundo as contas da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas - espera-se saibam fazer contas - o passivo do sector empresarial do Estado é 38 mil milhões de euros, dos quais 25 mil milhões são de dívida aos bancos e 6 mil milhões aos fornecedores.

O secretário de Estado das Obras Públicas, Transportes e Comunicações - espera-se saiba do que está a falar - diz que as empresas públicas têm um nível de absentismo 5 a 6 vezes superior ao sector privado.

A banca não aceita reforçar os fundos de pensões dos seus empregados a transferir para a Segurança Social – recorde-se para tapar os buracos do OE. Terão talvez razão. Afinal porque não tapar buracos com outros buracos? Tem sido essa a exception portugaise.

Joe Berardo (esse mesmo a quem os bancos ofereceram dinheiro para comprar um deles) garante que existe um «saco azul» na Fundação CCB e lamenta que o saco da Fundação Berardo esteja vazio. O CA do CCB, pela boca do novo situacionista Mega Ferreira, esclarece bla bla bla, está tudo nos conformes e o problema é a falta de grana da Fundação Berardo. Uma coisa é certa, «saco azul» só existia no fascismo e destinava-se a subtrair dinheiro de facto existente da voracidade do Estado Novo. No Estado Sucial não existe dinheiro. Existem de facto dívidas e buracos, eventualmente também azuis.

O ministro da Economia convida para um jantar privado uma dúzia de empresários. O ex-ministro dos corninhos seria melhor e estaria mais à vontade nestes eventos. Estará o Álvaro cansado de ser Álvaro e ansiar em segredo ser Manuel, Manuel Pinho?

28/09/2011

Perguntas desnecessárias

Pergunta-se Rui A. no Blasfémias, «A Entidade Reguladora para a Comunicação Social tem cinco directores e sessenta, repito, sessenta funcionários. Para quê?»

Ora, ora. Pois, para ler os jornais, ouvir as rádios e ver as TVs. Para quê mais haveria de ser?

NÓS VISTOS POR ELES: Quem é desconfiado não é certo

Segundo as conclusões do estudo «Trade, Trust and Institutions» de Shu Yu, Jakob de Haan e Sjoerd Beugelsdijk da universidade de Groningen (aqui citado pelo DN), baseado nos inquéritos e na análise dos padrões de comércio bilateral em 16 países europeus entre 1996-2009, Portugal é o país em que as pessoas dos outros países menos confiam, seguido da Grécia, Espanha e Itália. Curiosamente estes 4 países são também os que menos confiam nos restantes.

Para quem ande distraído e acredite naquelas balelas dos profissionais do optimisto e da treta é um rude golpe. Para quem esteja atento e contacte regularmente com a estranja não é novidade nenhuma. E não é tão mau quanto isso para os profissionais portugueses capazes: na medida em que baixa as expectativas aos olhos da estranja, um desempenho acima da média é uma agradável surpresa e um bom desempenho é um milagre.

27/09/2011

Estado empreendedor (56) - a maldição da Rua da Horta Seca

Boutades do Álvaro ontem no Prós e Contras:
  • Está a caminho um «projecto de investimento do maior que já existiu em Portugal» de uma multinacional «muito conhecida no mundo inteiro».
  • «A aposta na energia nuclear "é uma possibilidade" e que até 15 de outubro será apresentado um modelo sustentável para o mercado de eletricidade
  • «O ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, disse no programa Prós e Contras na RTP1, que o Governo vai criar duas linhas ferroviárias rápidas entre Portugal e Espanha
Admito que o problema não esteja no Álvaro. Pode estar no ministério.

Portugal com mais um défice: o de lucidez

«Nunca lhes fui lá pedir dinheiro. Eles [os bancos] é que vieram oferecer. Fiz um volume de negócios em três ou quatro anos que acho que foi de quase seis mil milhões de euros. ‘O sr. Berardo quer comprar acções?’ Era assim. Era o que estava na moda.» Assim explicou o Sr. Berardo como o BCP, a CGD e o BES lhe emprestaram dinheiro para participar no assalto ao próprio BCP.

«O Governo está a tentar aumentar a comparticipação do QREN para o troço Poceirão-Caia de forma a que o projecto avance sem custos para o Estado.» Sem custos para o Estado? Onde é que já ouvimos isto?

«Governo quer câmaras municipais com orçamento 'base zero'». Orçamento de base zero? Onde é que já ouvimos isto?

«Não encontro nenhuma razão para que o governo deixe de cumprir e deixe de executar o memorando assinado em Maio», declarou Tozé Seguro por duas vezes, enviando uma mensagem aos eleitores para não votarem nele, a menos que queiram deixar o país sem dinheiro, ou seja no estado em que o seu partido o deixou quando assinou o dito memorando em Maio.

«A RTP decidiu na segunda-feira à noite não concorrer à compra dos direitos de transmissão televisiva dos jogos da Liga dos Campeões de futebol para os próximos três anos, disse à Lusa o vice-presidente da estação, José Marquitos» que não explicou como iria a partir de agora a RTP prestar o único serviço público que ainda cumpria.

CASE STUDY: Efeitos da redução indiscriminada da TSU compensada por um aumento do IVA (2)

Este post está relacionado com este e este posts do Pertinente, pretende refutar algumas conclusões do ensaio de Ricardo Reis (RR), citado aqui pelo Blasfémias e é uma continuação deste meu post.

No post anterior mostrei que no caso das actividades com taxa normal de IVA, a redução da TSU acompanhada ou não pelo aumento do IVA determinará um aumento do lucro, a não ser que a empresa decida reduzir os preços, e admiti que tal poderá não acontecer nos bens e serviços não transaccionáveis.

Em relação às actividades com IVA reduzido, em certos casos, dependendo do peso dos bens e serviços de terceiros nos custos de produção, o aumento do IVA passivo (na sua maior parte à taxa normal) pode exceder a possibilidade de dedução no IVA activo a taxa reduzida. Neste caso, a empresa sofreria um aumento de custos e, ceteris paribus, uma redução do lucro que, dependendo da magnitude da redução da TSU, poderia não ser completamente compensada por essa redução. Teremos de admitir poder o efeito líquido ser uma redução do lucro seguida dum possível aumento de preços. Evidentemente, se as taxas reduzidas de IVA forem eliminadas a situação reconduz-se à das actividades com taxa normal já analisada aqui.

Quanto às actividades isentas de IVA, todo o aumento do IVA passivo irá repercutir-se num aumento de custos e, ceteris paribus, na consequente redução do lucro a qual, também neste caso, pode não ser completamente compensada pela redução da TSU.

Em conclusão, nas actividades com IVA reduzido (se este se mantiver) e nas isentas de IVA, o impacto da redução da TSU combinado com o do aumento do IVA depende da magnitude de uma e de outro, podendo o efeito líquido ser uma redução do lucro seguida dum possível aumento de preços.

Até aqui concentrei-me na produção para o mercado interno. No próximo post veremos o que se passa com as exportações.

(Continua)