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01/10/2011

Nem só o Estado é amigo do empreendedor (3)

aqui falei da YDreams liderada por António Câmara, empreendedor do ano em 2009 e um dos darlings empresariais do jornalismo de causas económicas. Já então com a Ynvisible, a nova empresa do grupo YDreams acabada de entrar na bolsa de Frankfurt e a perder metade do seu valor numa semana, a coisa exalava um odor a esturro.

Vê-se agora que o guisado está a ficar torrado: estão por pagar subsídios de férias, metade dos salários de Agosto e começou a debandada do pessoal. Em teoria, está tudo normal. É uma empresa inovadora, investe em I&D, num sector muito competitivo, internacionalizou-se, expôs-se ainda a maiores riscos, e sabe-se que a mortalidade das start ups tecnológicas é muito elevada. Noutras paragens, teria sido financiada por um venture capitalist, espécie não representada entre os aborígenes, que avaliaria a sua viabilidade putting the money where the mouth is e a acompanharia do berço até a vender através de uma IPO ou por outro meio e ganhar merecidamente um bom dinheiro.

Porém, neste país tudo é original. Em vez do venture capitalist, constitui-se uma coligação que leva ao colo as empresas, constituída pelo governo, a banca do regime com a Caixa à cabeça, tudo cozinhado pelos lóbis partidários e devidamente promovido pelo jornalismo de causas. Se tem sucesso, o empreendedor vende a empresa em poucos anos, vai viver dos rendimentos e passa a ser convidado para todos os fóruns sobre empreendedorismo e inovação onde é apresentado como um veterano a quem se pede conselho. Se não tem sucesso, é o calvário do costume: antes da débâcle tenta extrair uns dinheiros para os dias maus e, claro, deixa de ser convidado seja para o que for e o jornalismo de causas económicas tenta esquecer o caso e passa para o seguinte.


A YDreams parece ser mais uma vítima a juntar à lista das fatalidades nas empresas de sucesso do regime. É a maldição do jornalismo promocional.

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