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08/05/2016

SERVIÇO PÚBLICO: O corporativismo e a TTIP (3) Esquerda e direita iliberal - o que os une é mais do que o que os separa

Continuação de (1) e (2).


«Esqueçam esquerda e direita. Nos dias de hoje, diz-se frequentemente, a linha divisória real na política é entre os liberais de portas abertas e nacionalistas que levantam a ponte levadiça. Como a maioria das grandes afirmações, esta pode ser exagerada. Mas o ataque que o comércio internacional está a sofrer nos dois lados do Atlântico sugere que há nela algo de verdadeiro.

Nigel Farage e Marine Le Pen - líderes de partidos populistas de direita em Inglaterra e França, respectivamente - soam como a extrema-esquerda quando descartam negociações como a Parceria Transatlântica (TTIP), uma proposta de acordo entre a União Europeia e a América, como negociatas que apenas favorecem as grandes empresas. Nos Estados Unidos, as declarações de Donald Trump ("Não é comércio livre, é comércio estúpido") assemelham-se às de Bernie Sanders, o "socialista democrático", que está a travar o caminho de Hillary Clinton para a nomeação presidencial democrata.»


Esta observação da Economist («Trading Places - What the aversion to global trade says about Europe and America») explica conjunturalmente bastante bem as coincidências entre a esquerda (actualmente toda ela iliberal, porque o anarco-capitalismo faleceu há muito de morte natural) e a direita iliberal, que em muitos países é maioritária - como em Portugal.

Dito de outro modo: nos tempos que correm, os liberais só podem ser de direita porque não há lugar para o liberalismo (que exige propriedade privada, interesse próprio, concorrência, mercado, liberdade de escolha e limitação dos poderes do governo) numa esquerda que quer congelar a história ou mesmo voltar ao passado, que venera o Estado e que pretende instrumentalizá-lo para impor o reaccionarismo da sua agenda política, social, económica e cultural.

Exemplos recentes em Portugal da aversão da esquerda e da direita iliberal pelo comércio livre são as reacções de políticos, jornalismo de causas e comentadoria do regime, precisamente a propósito do TTIP, e as suas indignações balofas sobre o secretismo – a este respeito leia-se o este artigo onde se explica que «os documentos agora trazidos a público são tudo menos secretos», artigo em que Vital Moreira, por uma vez liberto das algemas mentais do socialismo proteccionista, desmonta o «segredo de polichinelo».

Daniel Oliveira, que tem o mérito de defender alto e grosso a agenda estatista onde outros se enredam em eufemismos, diz do TTIP que é «a porta dos fundos para assaltar a democracia». Como se fosse concebível uma democracia sem comércio livre e como se uma democracia fosse compatível com o arquétipo de um Estado orwelliano omnipresente e omnipotente. Compatível com esse arquétipo seria uma «democracia popular» - assim se chamaram as ditaduras dos apparatchiks comunistas - , como as que os comunistas implantaram na Europa de Leste e que Daniel Oliveira deve ter admirado na sua fase soviética.

1 comentário:

Antonio Cristovao disse...

Destaco que os cenários que "teóricos" virtuais como D.O. fazem, são fantasias úteis para escrever e fazer de conta que se pensa. Esquerda e direita vão cada vez mais ser lirismo, a medida que os cidadãos estejam mais informados sobre os factos reais, (esses que V. Moreira fala com conhecimento real)