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24/05/2016

CASE STUDY: Um imenso Portugal (31)

[Outros imensos Portugais]

Uma autópsia da queda do petismo, pela Economist:

«Por trás da impugnação de Rousseff encontra-se um duplo fracasso político. O PT em tempos reivindicou o monopólio da ética política; na mente do público é agora identificado com o esquema para saquear a Petrobras, a companhia estatal de petróleo, de mais de US $ 2,4 mil milhões para encher seus próprios cofres de campanha e os bolsos dos aliados. E Rousseff, a quem Lula vendeu ao país como uma gestora de alto nível, provou ser uma dirigente incompetente da economia.

Então, o que deu errado para o maior partido de esquerda da América Latina? A resposta começa com a ambiguidade ideológica do PT. Formada em 1980 por sindicalistas dissidentes (como Lula), padres radicais, movimentos sociais de base e intelectuais marxistas, o PT reivindicou ser um novo tipo de partido, da democracia radical e os desapossados.

Em vez de evoluir no sentido do estilo da social-democracia europeia, permaneceu preso na política da guerra fria. De acordo com José de Souza Martins, sociólogo da Universidade de São Paulo (e um homem de esquerda), a PT adoptou "uma pedagogia política maniqueísta fatal que, ideologicamente, dividiu o Brasil em dois grandes países antagónicos e irreconciliáveis". Ele representava "o povo" e "os pobres"; aqueles que se opunham foram definidos como os "ricos", ainda que Lula tenha abraçado o estado corporativo do Brasil de interesses estabelecidos e dos campeões nacionais de negócios (contra o qual ele se tinha revoltado). Em vez de construir um consenso para as reformas progressistas da despesa pública e do sistema político, Lula aliou-se com partidos conservadores rentistas e, por fim, aos barões clientelistas do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). A obsessão do PT permanecer no poder indefinidamente levou ao esquema de corrupção da Petrobras.

Esta política de polarização funcionou enquanto a economia cresceu, quando havia dinheiro suficiente para despejar banho subsídios sobre o Brasil empresarial, bem como sobre os programas sociais. Essa política virou-se contra o PT quando as coisas começaram a correr mal com Rousseff. Quando milhões foram às ruas em 2013 para exigir melhores serviços públicos e políticas mais limpas, o partido e o governo foram incapazes de responder.

Agora, o PT está em dificuldades. As suas iniciativas sociais já não dispõem de fundos do Estado, nem os seus militantes de empregos confortáveis. A sua imagem de marca foi profundamente afectada e pode ser esmagado nas eleições municipais em Outubro: 130 de seus prefeitos já abandonaram o partido.»

Nota final:
Devo fazer uma correcção ao que escrevi no post anterior desta série. O Brasil com Temer pode ficar pior, como se viu com o episódio da escuta do ministro do Planeamento Romero Jucá. O que vem dar razão à outra parte do que escrevi sobre a «saída limpa» que deveria passar pela dissolução do senado e câmara de deputados, convocação de eleições e revisão da constituição.

2 comentários:

Antonio Cristovao disse...

Pode ser por visão distorcida pela distancia ou falta de dados, mas a imagem que me sobressai é de uma oposição rancorosa, tipo golpista, que se serve dos meios de comunicação para campanhas raivosas e apelando ao odio;a quebra na econimia é o saldo duma instabilidade social; o modelo funcionou bem na Venezuela no tempo do Chaves, na Argentina da Kirchner e agora com a Dilma.

ngoncalves disse...

"o modelo funcionou bem na Venezuela no tempo do Chaves, na Argentina da Kirchner e agora com a Dilma."

O modelo nao funcionou na Venezuela (ja' na altura era visível a limitacao das liberdades e o aumento da violencia), o modelo nao funcionou com a Dilma (os primeiros protestos publicos veem de 2013 !).

Quanto a' Argentina, desconheco mas o cla Kirchener esta' grudado ao poder ha' ja' bastante tempo....