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06/11/2013

ARTIGO DEFUNTO: A arte de bem titular (3)

«Estado comprou três carros novos por semana este ano» (título do Expresso)

Num clima de «fadiga de austeridade», como o caracteriza o jornalismo de causas, um título destes só pode irritar o sujeito passivo vítima da extorsão fiscal. É claro que há inúmeras boas razões para um sujeito passivo se irritar com o governo (é isso que está em causa com estes títulos apelando com pouco subtileza à preguiça mental ressabiada). Só que esta não é seguramente uma delas, quando a própria notícia informa que o Moloch estatal possui 26.789 veículos - mais de metade com mais de 13 anos – frota que, admitindo-se uma idade útil média de 10 anos, para manter essa idade média precisaria de ser renovada anualmente com 2.700 novos veículos.

«MP conclui que ex-secretário de Estado esteve implicado nos swaps» (título do Económico)

Certamente o ex-secretário de Estado Joaquim Pais Jorge «esteve implicado nos swaps», visto que, como ele próprio acabou tardiamente por admitir, essa implicação consistiu em representar o Citi, banco para o qual trabalhava, em 2005 em 3 reuniões com o gabinete de José Sócrates para apresentação de instrumentos financeiros chamados swaps que podem servir para uma variedade de propósitos, desde proteger evoluções desfavoráveis de taxas de juro em empréstimos até maquilhar as contas. Contudo, o MP não concluiu o que já estava concluído, mas antes que «não resultam indícios de que o documento exibido pela SIC tenha sido adulterado ou modificado», conclusão que é obviamente diferente e, menos obviamente, conclusão que passa ao lado do que deveria ser investigado, como se mostra no parágrafo seguinte.

E é aqui que entra o título seguinte do Expresso, em artigo branqueador em causa própria do grupo Impresa.

«Arquivada queixa do Governo sobre manipulação de documentos swaps. Ministra das Finanças perdeu a batalha.» (título do Expresso)

A queixa da MF foi quanto às «discrepâncias (que) serviram para introduzir, como segunda página do documento na posse da comunicação social, um organigrama inverosímil, que não consta da apresentação original, com o logótipo do banco com um grafismo diferente. É neste organigrama, e apenas nele, que aparece o nome do secretário de Estado do Tesouro

E o que apurou o MP? Que o «organigrama inverosímil» era um organigrama legítimo? Não. O MP apurou que havia «três versões de documentos que incluem a aludida proposta de contratos 'swap' feita pelo Citigroup ao Estado Português», e «em todas as versões se constata que os termos contratuais são exatamente os mesmos» e, portanto (um silogismo que Aristóteles não aprovaria), «não resultam indícios de que o documento exibido pela SIC tenha sido adulterado ou modificado, tendo em conta a confirmação dos factos e a existência de vários documentos de trabalho com características próprias».

Poderia o MP ter a gentileza de se deixar de fintas à volta dos «termos contratuais», que não estavam em causa na queixa, e explicar se o «organigrama inverosímil» com o nome de Joaquim Pais Jorge constava ou não da «apresentação original» que é esse o objecto da queixa da MF? Poder, podia, mas não era a mesma coisa porque talvez entalasse a SIC e mostrasse mais uma manipulaçãozinha do jornalismo de causas.

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