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27/03/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (76)

Outras avarias da geringonça.

A valorização do euro face ao dólar é mais um indicador de que os mercados estão a antecipar o fim da era dos juros negativos do BCE, de que depende a sobrevivência da geringonça para aguentar uma dívida pantagruélica a crescer e com um mercado secundário cada vez menos profundo porque um dos efeitos da compra de dívida pelo BCE é de o secar e torná-lo menos líquido - mais um factor a puxar pelos yields.

A isso devemos juntar o aviso do BCE no seu boletim de Março de que poderá ser iniciado o procedimento de desequilíbrio macroeconómico excessivo em relação à Itália, a Chipre e a Portugal se não apresentarem políticas correctivas até Abril. Para se ter uma ideia do que implicaria este procedimento leia-se esta síntese. O quadro começa a ficar escuro, por muito que o presidente Marcelo invoque o ministro-anexo que agora reside em Frankfurt.

Entretanto, a dívida pública continua a crescer a um misterioso ritmo superior ao do défice. Durante a vigência da geringonça a dívida bruta e a líquida de depósitos já tinham crescido até ao fim do ano passado 7,4 mil milhões e 14 mil milhões, respectivamente - veja-se o diagrama seguinte e leia-se esta radiografia e os avisos de Schäuble, ambos no jornal Eco.


Por falar no misterioso ritmo do défice orçamental, os 2,1% de 2016 têm sido celebradíssimos pelo governo e as suas câmaras de eco - a mesma gente que criticou azedamente o governo anterior pela obsessão do défice. Convém não esquecer, entre outras coisas, os milagrosos défices de 2007 e 2008 do governo Sócrates a que se seguiram os défices astronómicos de 2009 a 2011.

Os desequilíbrios estruturais não deveriam constituir surpresa para ninguém quando se sabe da erosão do capital que Portugal sofre há décadas, resultante da «longa agonia do investimento do Portugal», consequência em parte da quase inexistente poupança (as famílias portuguesas são as que menos poupam na EU) e do inevitável endividamento das empresas portuguesas que são das mais endividadas do mundo e as terceiras com mais passivo na OCDE (fonte). Só o sector não financeiro da economia portuguesa tem uma dívida superior a 600 mil milhões (3,3 vezes o PIB, contra pouco mais de 103% na Zona Euro). Tudo isto agravado porque o bancos financiaram empresas e projectos inviáveis que hoje os atafulham de crédito malparado e continuam a não financiar as empresas exportadores e as de maior potencial de crescimento (fonte).

O folhetim Caixa continua. Segundo o governo, a comentadoria e o jornalismo apologético a emissão de dívida subordinada perpétua da Caixa está a ser um sucesso no Luxemburgo com um prospecto confidencial, como convém a uma empresa pública conhecida pela sua transparência. A taxa final da emissão de 500 milhões ficou em 10,75% e haverá uma segunda emissão de 420 milhões , pelo que só para pagar a dívida perpétua a Caixa precisará de torrar todos os anos mais de 100 milhões de euros.

Fontes: 2008-2015 relatórios; 2016 balanço em 30-09-2016 e informação pública
Acontece que entre 2008 e 2016 a Caixa acumulou mais de 4,3 mil milhões de prejuízos com um ROE negativo de -12,6%. É claro que só se houver um milagre a Caixa nos próximos anos, com capitais próprios aumentados com a recapitalização de 2,5 mil milhões, consegue um ROE perto das taxas a que foram colocadas as obrigações perpétuas. Ainda que essa recapitalização seja provavelmente excessiva para cobrir as imparidades segundo os critérios standard (leia-se o que sobre isso escreveu Helena Garrido), excesso que cria um incentivo perigosíssimo para repetir o financiamento dos elefantes brancos do regime e dos projectos dos amigos do regime.

Nem a DBRS, a única agência que nos mantém a flutuar com uma notação acima do lixo, acredita que o plano de reestruturação da Caixa faça milagres. E tem boas razões para isso, começando porque a classe política capitaneada pelo casal Marcelo-Costa está a querer condicionar politicamente essa reestruturação.

Perguntar-se-à mas então por que cargas de água o governo decidiu lançar este empréstimo no Luxemburgo as taxas superiores a 10% em vez de o reservar para os indígenas à taxa de 3%, por exemplo? perguntou-nos por email um amável leitor. A resposta é simples: o governo não decidiu nada, o governo foi obrigado pela DG Comp da CE a fazê-lo para ser autorizado a injectar capital com o dinheiro dos contribuintes. E o que levou a DG Comp a impor estas condições? A fé é a explicação mais plausível. A fé de que os investidores privados que apostam no cavalo da Caixa a pressionem a ter uma gestão parecida com um banco privado. Duvida-se que a fé da DG Comp salve os bárbaros da ocidental praia lusitana.

Marx escreveu que a história se repete primeiro como tragédia e depois como farsa. Como em quase tudo o resto, Marx também a este respeito estava enganado no seu determinismo histórico. Foi uma tragédia para o país (e para os contribuintes europeus) o desperdício de fundos comunitários durante mais de 30 anos e será outra vez uma tragédia o desperdício que as câmaras se preparam para fazer torrando este ano de eleições quase 70% dos 4 mil milhões de euros que se destinavam a quatro anos de 2017 a 2020. Quanto à câmara de Lisboa (no passado a rampa de lançamento de Costa e no futuro rampa de lançamento de Medina), o Tribunal de Contas forçou, devido ao já elevado endividamento, à redução a metade do empréstimo do BEI (para um suposto plano de obras de 20 anos mas que acabariam por ser a curto prazo para aprimorar a rampa de lançamento) (fonte jornal SOL).

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