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05/07/2012

Ideias para resolver o dilema dos bastonários dos médicos e enfermeiros

O bastonário dos Médicos produziu hoje um sound bite que parece funcionar como uma munição na batalha da corporação para manter os direitos adquiridos e a sua posição na teta da vaca marsupial pública, batalha que passa pela greve convocada para os dias 11 e 12. «Ao contrário de outros concursos, o dos médicos não tem um limite mínimo, o que significa que, no extremo, os médicos podem ser contratados a dois, ou três euros à hora», disse.

Na sua bastonada, poderia o doutor José Manuel Silva ter dito 20 ou 30 cêntimos, mas percebendo que o exagero exagerado poderia ter efeitos perversos, preferiu falar em números um pouco abaixo dos enfermeiros, aproveitando o vendaval mediático já desencadeado e induzindo a povinho a pensar coitadinhos dos médicos que ainda vão receber menos do que os coitadinhos dos enfermeiros.

Não me parece que este sound bite seja para levar a sério e, por isso, sugiro que os médicos a quem sejam propostos tais salários, se ofereçam como enfermeiros para receberem 3,96 € e estes se ofereçam como empregados domésticos, cujos salários por hora no mercado estão claramente acima deste valor. Essa oferta adicional de mão-de-obra cobriria assim o défice resultante do regresso en masse das emigrantes brasileiras.

Se fosse para levar a sério, deixaria a seguinte questão aos médicos e enfermeiros e a tutti quanti: como explicar que mercados de trabalho tão regulados, com profissões tão nobres, tão protegidas com ordens e sindicatos, tão cheias de direitos adquiridos e de acordos colectivos, como os dos médicos e enfermeiros, possam ter, pelo menos segundo a lengalenga corporativa, salários mais baixos do que profissionais tão humildes como os empregados domésticos, o mercado de trabalho mais desprotegido e desregulado de todos, esquecido pelos sindicatos, pelas corporações, pelos lóbis e pelo jornalismo de causas?

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