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31/10/2010

CASE STUDY: Anti-selecção

O que há de comum entre a notícia da inspecção da ASAE à cozinha da cafetaria de El Corte Inglés e a notícia da divulgação pelo Wikileaks de novos vídeos sobre acções militares aparentemente ilegais dos EUA no Iraque? À primeira vista, nada. Da primeira resultou o encerramento da cozinha e da segunda o conhecimento da guerra suja americana.

A anti-selecção (adverse selection ou anti-selection) é o resultado de informação assimétrica entre as duas partes numa relação contratual e é geralmente apontada como uma das falhas do mercado (aqui para nós, as falhas do mercado são essencialmente falhas das teorias do mercado assentes em premissas irrealistas). Apesar de existirem negócios em que a anti-selecção é favorável ao comprador (os seguros, por exemplo), na maioria dos casos a assimetria de informação favorece o vendedor que sabe mais do que o comprador do produto ou serviço que lhe oferece ou dos riscos que lhe estão associados.

Voltando à ASAE, porque se focaliza na restauração nos centros comerciais? Já alguém ouviu falar de inspecções aos milhares de tascas por esse país, cujas cozinhas parecem instalações sanitárias e cujos sanitários parecem pocilgas?

E quanto ao Wikileaks, focada nas acções de guerra americanas no Iraque, ou a quaisquer outras organizações com iniciativas deste género, já alguém ouviu falar duma organização semelhante que no passado ou actualmente tenha exposto documentos obtidos do interior dos exércitos denunciando atrocidades? Para não recuar ao tempo do Império Soviético, alguma dessas organizações expôs documentos do exército russo sobre as acções na Chechénia ou ainda mais recentemente na Geórgia?

Olhemos as ASAE deste mundo e as ONG do tipo Wikileaks, como fornecedores de informação. Todas essas organizações sabem bem que existem irregularidades, sejam o incumprimento de normas sanitárias ou o desrespeito pelas Convenções de Genebra, fora do seu foco de acção – principalmente fora desse foco. Como sabem a cooperação que podem esperar de restaurantes preocupados com a sua reputação e com dinheiro para pagar coimas e a cooperação no interior das FA americanas de whistleblowers diligentes, correndo riscos mínimos. E sabem ainda melhor as dificuldades de todas as naturezas e dos riscos (agressões dos tasqueiros e falta de dinheiro para as coimas e eventual abate pelas secretas, respectivamente) que teriam de enfrentar para inspeccionar tascas ou documentar as atrocidades do exército russo, respectivamente. Quem não saberá, ou na melhor hipótese apenas suspeitará, são os consumidores de informação que a «compram» sem desconfiar do enviesamento e imaginando que a ausência de más notícias resulta do cumprimento das normas sanitárias pelas tascas ou das convenções e leis sobre a guerra pelos exércitos.

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