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03/07/2016

CASE STUDY: Os referendos e a sabedoria das multidões

Há quem acredite na sabedoria das multidões, como James Surowiecki, o autor do grande sucesso de há 10 anos «The Wisdom of Crowds: Why the Many Are Smarter Than the Few and How Collective Wisdom Shapes Business, Economies, Societies and Nations». Contudo, a fé nessa sabedoria pode ser um pouco exagerada. O próprio Surowiecki aponta algumas condições para uma multidão tomar decisões «sábias»: diversidade de opinião (o que exige acesso autónomo à informação), independência (o que requer reduzida ou nula influência de outras pessoas), descentralização (especialização e acesso a conhecimento local) e agregação (existência de um processo de transformar juízos pessoais numa decisão colectiva).

Um referendo só assegura indiscutivelmente a agregação. A diversidade de opinião e a independência dificilmente são asseguradas por campanhas altamente manipulatórias vulgares nos referendos – veja-se o caso do Brexit. Mesmo sem campanha, são múltiplos os exemplos dos preconceitos que contaminam a opinião pública até em aspectos relativamente objectiváveis. Alguns exemplos americanos e britânicos (extraídos daqui e daqui):
  • Os americanos pensam que os imigrantes representam um terço da população – na realidade são 14%; 
  • Os britânicos julgam que um quarto da população é muçulmana – na realidade são 5%;
  • Há mais britânicos que pensam que é na ajuda externa que o governo gasta mais do que nas pensões ou na educação – na realidade a ajuda externa representa apenas 1% do total; 
  • Os americanos acham que um quarto das adolescentes engravidam todos os anos – na realidade são 3%;
  • Mais de três quartos dos americanos pensam que estão preparados para a reforma mas apenas cerca de 60% fazem poupanças com esse propósito;
  • Só metade dos americanos sabe que os fundos de investimento não garantem rendimento;
  • Quatro em cada dez americanos subestimam a esperança de vida dos reformados em 5 ou mais anos;
  • A propósito da morte recente de uma criança por um jacaré na Disney World em Orlando, o jacaré foi considerado um animal perigoso – na realidade causou apenas uma morte no período 2001-2013; nesse período o maior número de morte foi causado por insectos e em terceiro e quarto lugares encontravam-se cães e vacas.
Parte dos juízos preconceituosos resulta da inumeracia geral. Alguns exemplos:
  • Só 56% dos respondentes americanos de um inquérito foram capazes de dizer quanto receberia cada um de 5 acertadores num jackpot de 2 milhões;
  • Só um quarto dos britânicos foi capaz de calcular a probabilidade de duas caras (ou coroas) em dois lançamentos consecutivos de uma moeda.
Chegado aqui, ocorre-me perguntar qual o grau de preparação dos eleitores britânicos para responder à pergunta?

3 comentários:

Antonio Cristovao disse...

Ainda mais demolidor do discurso cego de que se deve respeitar o voto popular, sempre, é o exemplo de que se perguntássemos em referendo se querem impostos obteríamos uma resposta tão demolidora que seria irrealizável. Nada que demova os líricos da cega crença na "democracia".

Anónimo disse...

1) É muita perniciosa a pergunta do Cara ou Coroa.: no Reino Unido, a face e a coroa estão no mesmo lado da moeda!!!!!

2) Considerando o referendo de 2011 feito em Itália (ver tradução livre mais abaixo), a questão posta aos ingleses foi uma brincadeira de crianças.


Primeira Pergunta
Deseja que seja revogado o Art. 23-bis (serviços públicos locais de importância econômica) do Decreto-Lei de 25 de Junho de 2008, n. 112 i«Disposições urgentes para o desenvolvimento económico, a simplificação, a competitividade, a estabilização das finanças públicas e equalização fiscal", ratificado, com alterações pela Lei 06 de agosto de 2008, n. 133, alterado pelo art. 30, parágrafo 26 da Lei 23 Julho de 2009, n. 99, em "Provisões para o desenvolvimento e internacionalização das empresas, bem como em matéria de energia", e art. 15 do Decreto-Lei de 25 de Setembro de 2009 n. 135, intitulada «Disposições urgentes para a implementação das obrigações da UE e à execução dos acórdãos do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias", ratificado, com alterações pela Lei 20 deNnovembro de 2009, n. 166, conforme alteração na sequência do acórdão não. 325 de 2010 do Tribunal Constitucional?

Segunda Pergunta
Deseja que se revogue o parágrafo 1º do artigo. 154 (taxa de serviço de água) do Decreto Legislativo 03 de Abril de 2006, n. 152, em "Legislação Ambiental", limitado à seguinte parte: "retorno adequado sobre o capital investido"?

Terceira Pergunta
Deseja que sejam revogados os n. 1 e 8 do artigo 5º do Decreto-Lei 34 de 31/03/2011 convertido com alterações na Lei 75 de 26/05/2011?

Quarta Pergunta
Deseja que seja revogado o Art.1, parágrafos 1, 2, 3, 5 e 6, e o Art.2 da lei 07 de Abril de 2010, n. 51, sobre "Medidas para a falta de comparência na audiência", como resultado, na sequência do acórdão n. 23 de 13 a 25 de Janeiro de 2011 do Tribunal Constitucional?



Agent Provocateur

Doublet disse...

Vou discordar do post. De acordo com este raciocínio ninguém seria considerado apto para votar. De qualquer forma estas falsas percepções são explicadas por 2 fatores: TV e jornalismo.

- A "diversidade" e o "multiculturalismo" enfiado goela abaixo pelos jornais e TVs (com suas séries) passa uma impressão de composição étnica da população completamente diferente da realidade. Outros aspectos como gravidez na adolescência também são sempre exagerados em séries/filmes.
- Quanto ao jacaré, faço um paralelo com os acidentes de avião. São muito mas muito mais raros que os acidentes de carro, mas quase todos são sempre noticiados e têm taxa de fatalidade alta. Ninguém noticia todas as mortes causadas por mordidas de cães ou picadas de mosquito assim como ninguém noticia todos os acidentes e mortes causadas por automóveis.
- A inumeracia é reflexo da má fama que Matemática tem. Aqui é reforçada quase diariamente pela nossa comunicação social que sempre apresenta a Matemática como o bicho de sete cabeças.