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14/07/2016

ARTIGO DEFUNTO: De como pode haver consenso e unanimidade sobre quem estraga o consenso e a unanimidade

A presidência da República em seguida à reunião do Conselho de Estado de 2.ª feira passada, que como todas as obriga ao sigilo dos participantes, divulgou a seguinte nota informativa:
«O Conselho de Estado, reunido sob a presidência de Sua Excelência o Presidente da República, hoje, dia 11 de julho de 2016, no Palácio de Belém, analisou a situação económica e política europeia e sua incidência em Portugal. Sublinhou, em particular a premência de uma contínua reflexão aprofundada sobre os desafios colocados à União Europeia, em termos económicos, financeiros, sociais e políticos, e que deve, também, merecer o acompanhamento pelo Conselho.»
A partir da nota informativa (só pode ter sido porque os participantes estavam obrigados ao sigilo, ou não?) vários jornais publicaram «notícias» referindo o que teria dito na reunião Cavaco Silva, a bête noire da esquerdalhada e do jornalismo de causas, perdoai a redundância. Todas as peças publicadas são unânimes em concluir que Cavaco Silva fez uma exposição técnica, onde se referiu ao Tratado Orçamental e aos programa de estabilidade e a conjuntura internacional, «sem nunca se referir às sanções» (Público, DN , Expresso, Negócios, Sábado usam esta expressão ou outra semelhante).

A partir das referências ao que Cavaco Silva terá dito, são publicadas várias peças com uma matriz quase idêntica onde se especula sobre o que não disse e que só pode ter sido lido nas suas meninges por telepatia. Eis alguns títulos dessas peças:
  • Público - «Cavaco estraga unanimidade do Conselho de Estado sobre sanções»
  • Expresso - «Conselho de Estado: Cavaco terá legitimado aplicação de sanções»
  • Sábado - «Cavaco Silva rompe consenso anti-sanções»
  • Diário de Notícias - «Cavaco foi o único a "defender" sanções no Conselho de Estado»
  • Negócios - «Cavaco Silva rompe consenso anti-sanções»
  • Portugal News - «Cavaco Silva rompe consenso anti-sanções»
Qual a fonte comum a todas estas notícias plantadas? Qual o propósito da «fuga» de informação? Quem estará interessado em comprometer um bête noire calado como um túmulo desde que saiu de Belém?

Nos idos de 2012 publiquei este post com uma declaração antecipada de voto: numas próximas eleições presidenciais votaria até no tele-evangelista para evitar transformar Belém num centro de intriga permanente.

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