Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

30/11/2014

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (98) – Não é só um partido como os outros

«Quando Sócrates esteve morto politicamente, só dois socialistas mantiveram a dignidade: Henrique Neto e o saudoso Medeiros Ferreira, o homem que pediu outro brio institucional a Mário Soares. É que Soares continuava a ver Sócrates pelo prisma da cabala. O Expresso provou que Sócrates mentira no caso TVI-PT, mas Soares não quis ver. Naquela cabeça, a legitimidade não está nas regras institucionais, mas sim no coração puro e doce dos soaristas. Eles, os soaristas, são especiais, são os portadores do cálice sagrado da legitimidade; são os únicos que têm nas veias o 'sangue azul' progressista. E se estão acima das regras institucionais, também estão acima do Estado de direito. Quando prende um 'reaça' qualquer, a lei é a lei; quando prende um socialista, a lei já é uma cabala. O resultado final desta petulância está à vista de todos: em 2014, Soares e muitos soaristas estão a retratar o Ministério Público como uma espécie de PIDE e Sócrates como um preso político. Há uma diferença entre exigir mais clareza à justiça e tratar os magistrados como criminosos. Lamento, mas isto é o suicídio do soarismo.

Submersos nesta cultura de respeitinho, Soares e os soaristas ainda não perceberam o está a acontecer, ainda não perceberam que estamos no meio de um terramoto cultural, moral, gramsciano. A narrativa está a mudar. Se quiserem, este 24 de novembro exterminou o efeito moral do velho 25 de novembro, ou seja, o PS já não é a charneira moral do regime, é só um partido como os outros, o soarismo perdeu o monopólio da moralidade. Não, Soares não é o pai da democracia, é o pai do PS. Julgo que há uma diferença. Não, não há uma crise de regime, há uma crise do soarismo. Julgo que há uma diferença. Ou, pelo menos, julgo que tenho o direito de pensar que há uma diferença.»

Concordo com quase tudo o que escreveu Henrique Raposo no seu artigo «A culpa de Sócrates e Soares». Não concordo que o PS seja um partido como os outros. É pior do que quase todos os outros porque tem quase todo o pior dos outros e tem pouco do seu melhor. Mistura o colectivismo estrénuo e a adopção da doutrina Somoza que o aproxima do PC com a parasitagem do aparelho de Estado que o aproxima do pior do PSD (e o confundiria com o PCP dos tempos do PREC).

Sem comentários: