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13/11/2014

LASCIATE OGNI SPERANZA, VOI CH'ENTRATE: A realidade tem muita força

«António Costa revelou a sua Agenda para a Década, e foi uma alegria entre o jornalismo de esquerda. Aplausos, simpatia, adesão. Sinceramente, não percebo. É verdade: a Agenda condena muitas vezes a “austeridade”. Mas Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix também. O texto de Costa não é um texto de esquerda. É um texto de oposição. Não pode, por isso, ser lido separadamente do Orçamento da Câmara de Lisboa. E o que está aí? Impostos, cortes, privatizações – a austeridade que a Agenda condena. É então Costa de direita quando está à varanda do município? Não. Não há um Costa de esquerda e um Costa de direita. Há um Costa na oposição e um Costa no governo (municipal).

Isto é o PS, dirão alguns. Não, não é o PS. Ou não é só o PS. São todos os partidos. O PCP também é uma coisa no parlamento, e outra na Câmara de Loures, onde Bernardino Soares poupa e corta. Mas o próprio PSD também foi outra coisa na oposição ao último governo socialista, durante o desfile dos PECs entre 2010 e 2011: rejeitava então a “austeridade” (a não ser para as “gorduras” do Estado) e acreditava no “crescimento” como verdadeira solução. Porque o PSD era, há três anos, um partido de esquerda? Não, porque o PSD estava na oposição, sem os constrangimentos do governo.
»

Esta visão («António Costa não é de esquerda», no Observador) parece-me demasiado simplista, apesar de umas linhas abaixo Rui Ramos a mitigar quando escreve «não estou a dizer que esquerda e direita desapareceram. Continuam a existir como polos filosóficos ou referências sentimentais. Mas a crise tirou-lhes relevância política.»

As diferenças políticas não desapareceram nem mesmo passaram a ser irrelevantes. Podem é ser pouco perceptíveis quando vistas nesta óptica unidimensional esquerda-direita. Como escrevi há dias, na actualidade, a linha divisória do espectro político em Portugal não passa pela esquerda-direita. Passa pelo papel do Estado, que para uns deve ser por defeito e para outros deve ser só se não tiver outro jeito.

Sendo certo que numa democracia a governação só pode fazer-se ao centro e, por isso, numa sociedade como a portuguesa historicamente colectivista, mesmo o mais liberal dos governos terá que adoptar uma governação contingente adequando as reformas que pretende introduzir às ideias dominantes e levando essas reformas até aos limites sem os ultrapassar. É neste levar as reformas até aos limites que se fará a diferença entre um governo liberal e um governo estatizante.

Quais são esses limites? Só se saberá em cada caso olhando para o barómetro da meteorologia social – e não para os mídia que em Portugal reflectem a agenda das diversas esquerdas, muito mais do que a meteorologia social.

1 comentário:

RUI C disse...

As gorduras do Estado, bem espremidas ainda rendiam uns largos milhões. O que seria suficiente , para evitar por enquanto os cortes nas reformas. Seria até uma questão de saneamento moral. Não se deve impor sacrifícios sem dar o exemplo. O limite dos apertos estará por isso dependente dos interesses a beliscar ou mesmo a suprimir. Em não havendo coragem para tanto, continuando com os subsídios aos Soares, mantendo institutos, boys, EPs, e outras coisas que tais, não será possível reduzir e muito o Estado, sem o que não chegaremos à respectiva encolha e reformulação. Para mais, uma boa dose do que é preciso fazer esbarra nas baias Constitucionais.
A CML tem segundo consta doze mil funcionários, o que parece não ser suficiente para desentupir as sarjetas. Como não se caçam leões com fisgas e assim sendo não me parece que, mesmo indicando o barómetro o tempo seco, seja viável preparar o País para a sobrevivência estável.