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23/01/2012

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Não lhe chega o dinheiro? Siga o exemplo do senhor engenheiro.

Cavaco Silva é a má elite

Cavaco Silva precisou de um instante para passar de bestial a besta. De uma figura central para garantir o acordo de concertação social, o Presidente da República hipotecou o capital político junto do povo provavelmente até ao fim do mandato com as declarações insensatas sobre quanto ganha com as reformas.

Quem ouviu as palavras de Cavaco Silva percebe que, mais do um raciocínio, é um sentimento. Vem-lhe das entranhas. O Presidente acha mesmo que os cerca de oito mil euros que ganha por mês com as reformas é pouco e que merecia mais. Não quero saber do nível de despesas de Cavaco Silva mas fiquei a perceber que não vive no mesmo mundo em que sobrevive a maioria dos portugueses com um rendimento médio mensal que não passa dos 800 euros e com tendência para descer devido à crise.

O pensamento do Presidente da República fazia sentido no passado. Se eu descontei durante os anos que trabalhei, mereço a reforma como foi combinado. Caso não tenha percebido, o mundo mudou. A geração que hoje trabalha para pagar as reformas do Presidente, desconta mais em média do que no passado e, quando chegar a sua hora, não haverá provavelmente pensão para receber ou representará, na melhor das hipóteses, metade do salário recebido na vida activa.

Por isto, as palavras do Presidente da República são mais graves do que parecem. São simbólicas de uma certa elite que governou o País nos últimos trinta anos e que não aprendeu nada com os erros. As mesmas pessoas que empurraram Portugal para esta crise sem precedentes com as suas decisões políticas continuam a exigir privilégios descabidos. É uma elite que tem a escola do Banco de Portugal, uma instituição que se refugia no estatuto de regulador para reclamar regalias desfasadas da realidade do País e que está longe de apresentar os resultados que justifiquem os meios.

Não é preciso recuperar os casos BCP, BPP ou BPN para questionar o trabalho do Banco de Portugal. A questão é sobretudo moral: não é sério publicar trimestralmente relatórios a falar da incapacidade de poupança dos portugueses, quando as mesmas pessoas recusam mudar porque supostamente são o melhor que o País tem e respondem ao estatuto do Banco Central Europeu.

Cavaco Silva é o expoente máximo desta elite que gosta de pregar uma moral para o povo que não pratica. Passam o tempo a dizer que os sacrifícios são necessários para ultrapassar a crise mas querem passar pelas dificuldades com o nível de vida do passado. Apertar o cinto é só para os outros. A história de Portugal mostra que o problema do País nunca esteve no povo, que sempre aguentou tudo, mas nas elites, ou melhor, na falta delas. Mais uma vez revela-se a sua qualidade e carácter. Não precisamos desta gente. O futuro terá que ser construído com uma nova geração e outras mentalidades, mais humildes e solidárias.

Bruno Proença no Diário Económico

Se não lhe chega o dinheiro, porque não seguiu Cavaco Silva o exemplo de poupança de José Sócrates? O ex-primeiro-ministro, apesar de só ter feito na vida profissional uns projectos de casitas, conseguiu com um modesto salário que não chegava aos calcanhares das pensões de Cavaco Silva, poupar o suficiente para estar em Paris a desfrutar de uns anos sabáticos, viver no 16ème arrondissement, o bairro mais caro de Paris, e pagar almoços a uma dúzia de pessoas que custam o equivalente a mais de um mês de pensões de Cavaco.

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