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11/09/2016

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (139) – Um episódio esquecido dos tiques manipuladores dos socialistas

«O centro do livro de Fernando Lima é, claro, o chamado "episódio das escutas". Afinal foi a publicação em estilo "tablóide" como ele próprio considera (e eu concordo) da sua cara na primeira página do "Diário de Notícias", acompanhada de correspondência eletrónica onde o assessor afirmava suspeitar de vigilância dos "socráticos" sobre o pessoal de Belém, que ditou a sua desgraça - não só em parte da opinião pública, como na própria presidência.

Porém, o que ele conta desse episódio, e que me envolve de raspão, é - quero dizê-lo frontalmente - totalmente verdade! Esses mails tinham sido trocados pelo sistema interno do "Público" entre jornalistas do "Público". Num deles, um desses jornalistas contava a suspeita que Lima lhe tinha confidenciado. O mais interessante é que essa mensagem era velha de 18 meses e estávamos a semanas das eleições de 2009. O efeito pretendido era óbvio: trazer para cima da mesa uma conversa antiga como se fosse nova e aproveitar para a baralhar com outras histórias de suposta vigilância que por aí andavam. Pelo caminho, misturava-se vigilância e escutas, como se tudo fosse o mesmo.

Mas essa não é a parte mais interessante. O mais interessante - e já o revelei num programa "Prós e Contras'' da RTP - é que a correspondência do "Público" vinha ... do PS, que então estava no Governo. Chegou ao Expresso e às minhas mãos, sendo eu o diretor, por via de quem cobria essa área. No uso das minhas prerrogativas perguntei se a fonte era dessas bandas. Responderam-me que sim. Nesse momento, reuni toda a direção - além de mim, Ricardo Costa, João Garcia, Nicolau Santos e João Vieira Pereira.

Todos concordámos num ponto: só publicaríamos se pudéssemos revelar, não a fonte, mas a origem política e governamental da fonte. Porquê? Porque também era jornalísticamente relevante saber que o PS ou o Governo tinham acesso a correspondência interna de um jornal como o "Público", na altura dirigido pelo arqui-inimigo do primeiro-ministro Sócrates, José Manuel Fernandes. Também não seria inocente que tão perto das eleições se desenterrasse uma história com ano e meio quando a estratégia socialista passava por envolver Cavaco na campanha do PSD então dirigido por Manuela Ferreira Leite.

A fonte recusou e disse que se nós não quiséssemos publicar daria tudo a outro jornal. Era quinta- feira à tarde e o Expresso sairia no sábado. A notícia seria de grande efeito, mas a seriedade imperou. Como o nosso Código de Conduta. Por unanimidade de todos os membros da direção e a concordância da jornalista envolvida decidimos não publicar.
Na manhã seguinte saiu como se fora uma investigação do "Diário de Notícias". Com o tal estilo "tablóide". O na altura o diretor do "DN", João Marcelino, acha que fez bem. É bom que assim pense, de outro modo teria problemas de consciência.

Segundo relata Lima no seu livro, o assunto foi tratado no "DN" com todo o secretismo. Mais uma diferença para o que se passou no Expresso. Nunca, publicamente, tinha enaltecido os meus colegas de direção - Ricardo, Nicolau, João (Garcia) e João (Vieira Pereira) - por porem sempre o bom e honesto jornalismo à frente dos seus interesses ou mesmo preferências pessoais. Nunca pensámos todos o mesmo, mas pensámos sempre de uma forma livre e sem condicionamentos - nem externos nem internos.

É por isso que o livro de Lima pode deixar alguns jornais e jornalistas furiosos. Por cá, mantivemos a consciência tranquila. Tenho a certeza de que a mantemos no presente E no futuro, como sempre desde a fundação.»

«O livro do assessor de Cavaco», Henrique Monteiro no Expresso

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