Outras avarias da geringonça.
Começo pelo acontecimento mais notável da semana: o chorrilho de asneiras, mentiras e meias-mentiras de Costa na sua entrevista ao Financial Times aqui comentada. A mais notável de todas, até para Sócrates, foi a de que o programa de resgate fez recuar o «economic output» trinta anos, afirmação só compreensível para quem não faz a menor ideia do que seja o economic output, nem como se mede.
A desculpa dada no dia seguinte durante a viagem às Berlengas acerca da falta de investimento (que negara na entrevista ao FT) está também à altura do talento de quem prometeu fazer o investimento público crescer 4,9% e o pôs a cair 5,2%, e em conjunto com as despesas de capital a cair 11,5%.
Pela boca de Pureza, o BE não podia ser mais claro na sua abertura da temporada de caça: a Europa e as regras de Bruxelas «são uma força de bloqueio ao desenvolvimento do projecto do governo do PS apoiado pela esquerda». Têm toda a razão. Contudo, este projecto do governo precisa de um patrocinador para o financiar e, ou bem que são os credores, para o que têm de aguentar a força de bloqueio, ou bem que são os «ricos», para o que é preciso fazer do país uma Cuba ou uma Venezuela o que de resto acabará com os ricos e multiplicará os pobres.
Sem querer retomar para já o dossier Caixa, ao qual dediquei boa parte da crónica passada, sublinho o facto de só depois de autorizada pela CE a capitalização foi tornado público o chumbo nos teste de stress do BCE, ou seja o facto de a Caixa não resistir a uma situação de crise económica moderada. Capitalização que tornou inadiável o orçamento rectificativo negado durante meses por Centeno, É «um rectificativo que não é bem um rectificativo» nas palavras de vendedor de banha-de-cobra do primeiro-ministro que Deus nos enviou para nos punir.
Em linha com a queda da poupança, as contribuições para fundos de pensões no 1.º semestre desceram 2,5% face ao 1.º semestre ano passado, os benefícios pagos aumentaram 45% e, inevitavelmente o valor dos activos geridos pelos fundos, representando poupança acumulada. desceu 1% face ao final do ano passado (fonte: ASF). Não podia ser pior para um país que necessita desesperadamente de poupança para investir e de investimento directo estrangeiro que a geringonça afasta com estas políticas e o seu «discurso anti-empresário, anti-lucro ou anti-privado» (ler aqui «A política anti-investimento» de Helena Garrido).
Se os incentivos ao consumo interno não estão a resultar por onde andará a poupança. Uma parte da resposta está nos cerca de 170 mil veículos vendidos até Agosto, um acréscimo de 15,4% face ao ano passado representando mais de 500 milhões de euros.
Prosseguindo a política da educação ao serviço dos professores, o representante da Fenprof no ministério da Educação duplicou o número de professores contratados centralmente retirando às escolas a contratação directa e aumentando em termos líquidos 500 professores, face ao número sempre decrescente de alunos. Apesar disso, os sindicatos não estão satisfeitos, lembram os «quase 30 mil que não obtiveram colocação» e exigem a contratação de 6 mil funcionários administrativos para as escolas. É o preço do Partido Comunista para continuar a apoiar a geringonça. perpetuar o seu domínio nos sindicatos da função pública e dos transportes.
Preço que inclui igualmente colocar os apparatchiks sindicais como porta-vozes do governo em substituição dos ministros e seus ajudantes. Foi o aconteceu com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos a explicar aos contribuintes a razão das Finanças se terem atrasado nas notificações de IRS, perante o silêncio respeitoso do ministério.
Também na polícia se anunciam 300 recrutamentos, num país que é o terceiro estado mais policiado da Europa, apenas ultrapassado por Malta e pela Irlanda do Norte, em que 10% dos polícias são sindicalistas de 13 diferentes. Sublinhe-se que o propósito de recrutar mais polícias já vinha do governo «neoliberal» depois da «saída limpa» e, pelos vistos, foi até agora a única orientação que a gerigonça não reverteu.
As novas contratações são anunciadas também pelo ministro da Saúde que garante que o «ritmo de contratações de enfermeiros é historicamente elevado» porque o regime das 35 horas, o tal que não imporia novas contratações, assim o exige. Isto não pode acabar bem.
Perante este caminho que sabemos onde conduz, só não sabemos quando chegaremos ao destino, o que faz o governo? Quer atribuir aos senhorios um estatuto de «cariz social», promete que a sobretaxa também será «eliminada e os vencimentos serão repostos» e em Outubro, haverá a «última reposição do vencimento dos funcionários públicos», garante que os «funcionários públicos excedentários não terão cortes nos salários» e tudo isto, qual Houdini da política lusitana, cumprindo a meta do défice.
Se fosse o défice nas contas públicas talvez fosse possível com a engenharia orçamental já em curso, o corte das despesas de capital, cativações, pagamentos em atraso (por exemplo aumento de 33% dos pagamentos em atraso a fornecedores dos hospitais), etc.
Pedindo desculpa aos leitores por me repetir e por me citar, actualizo com novos dados o que escrevi há um mês: por muita engenharia orçamental que a geringonça realize apresentando execuções fiscais miraculosas até Julho, «o algodão não engana», como se dizia aquele script da Sonasol. Neste caso, o algodão é o crescimento da dívida pública de 8 mil milhões no 1.º semestre (ou seja 4,4% do PIB em 6 meses) e 800 milhões em Julho a que a que somam 1,5 mil milhões de redução da almofada de tesouraria em depósitos em bancos deixada pelo governo anterior. Onde já vimos este filme da dívida a crescer mais depressa do que o défice? Durante o consolado de José Sócrates, pois claro.
E se tudo isto não fosse suficientemente mau, a dívida total do país (Estado, empresas e particulares) continua a crescer e está em 710 mil milhões de euros, equivalente a quase 4 vezes o PIB..Tudo começa a ficar mais evidente, tão evidente que até o pastorinho da economia dos amanhãs que cantam Nicolau Santos começa a ensaiar o discurso do perdão dos juros (8,5 mil milhões da dívida pública) «para poder injectar dinheiro que estimule o investimento privado ou então não sairemos de níveis de crescimento agónicos», enfiando Keynes na mesma gaveta onde Soares tinha enfiado o socialismo,
Termino recordando um dos lemas do (Im)pertinências: os cidadãos deste país não devem ter memória curta e deixar branquear as responsabilidades destas elites merdosas que nos têm desgovernado e pretendem ressuscitar purificadas das suas asneiras, incompetências e cobardias.
Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
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