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26/09/2016

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (50)

Outras avarias da geringonça.

É difícil de acreditar. Até o consumo que era a poção mágica da geringonça para o crescimento parece estar a cair de acordo com a  Síntese Económica de Conjuntura do INE. Do investimento nem vale a pena falar, continua a diminuir desde Abril de 2015 (quando o governo PSD-CDS começou a preparar as eleições...).

É claro que a estimativas de crescimento do PIB só podem ser revistas em baixa. De acordo com as previsões do painel de economistas da Bloomberg voltaram a diminuir: de 1,2% para 1% em 2016 e de 1,5% para 1,2% em 2017. Recorde-se que o crescimento de 2016 foi sucessivamente previsto pelo PS em 2,4% (documento dos 12), 2,1% (geringonça 1.0) e 1,8% (geringonça 2.0).

Também é difícil de acreditar que o investimento público, tão incensado pela geringonça, teve no 1.º trimestre deste ano o contributo mais baixo para a totalidade do investimento feito em Portugal. É fácil perceber porquê: é (também) por aí que o governo está a tentar segurar o défice, com pouco sucesso, como se há-de ver.

Quanto ao investimento privado continua em queda, confirmada pela redução das importações de máquinas e equipamento que caíram 1,5% e 2,5%, respectivamente no 1.º e 2.º trimestres deste ano, face ao período homólogo de 2015.

Se o investimento público está em queda e a poupança continua a cair (0,5% no 2.º trimestre) a dependência do investimento estrangeiro ainda aumenta. Mas quem são os investidores estrangeiros que investem num país governado por uma geringonça que anula os contratos, não cria estabilidade fiscal e ainda quer aumentar os impostos sobre o imobiliário?

Neste quadro que a geringonça chamou de «ponto final na austeridade», não admira que a anemia da economia aumente as falências. Até Agosto faliram mais cerca de 50% do que no mesmo período do ano passado e foram criadas menos 3,5%.

Talvez mais inacreditável do que tudo o resto, é um governo socialista que atacou até ao paroxismo a «fixação» do governo anterior no défice orçamental, esteja ele próprio a empunhar orgulhosamente esta bandeira por razões que também se percebem: é a única realização que ainda tem alguma esperança de conseguir para se manter a flutuar em Bruxelas. Flutuação que está difícil, porque, como reconheceu o relatório da CE relativo à 4.ª avaliação, a execução «em contabilidade pública» (repare-se este pequeno pormenor e recorde-se que a realização das metas vai no final ser medida em contabilidade nacional) está em linha com o orçamento, mas mantém a previsão do défice nos 2,7% acima dos 2,2% do OE 2016. A CE prevê por isso que sejam necessárias novos cortes no montante de 450 milhões de euros - é a «austeridade boa» da geringonça.

Nesse mesmo relatório, a CE aponta vários riscos que podem fazer derrapar a economia e a execução do orçamento, que o Observador sistematiza assim: recuperação económica lenta, reposição de salários que ameaça cumprimento do défice, volatilidade do mercado que afecta a dívida pública e o financiamento, aumento do salário mínimo que coloca pressão sobre o emprego, problemas da banca (principalmente CGD e Novo Banco) e a sustentabilidade das pensões.

Curiosamente, nesse mesmo relatório da CE, referia-se a disposição do governo para reformar o sistema de pensões, disposição que o governo imediatamente corrigiu como mera disposição de estudar o problema. Percebe-se porquê: entalado entre Bruxelas e o tandem bloquista-comunista, o governo vê-se forçado a ter uma lengalenga para fora e outra para dentro.

Se a CE pede mais 450 milhões de medidas de «austeridade boa» em 2016 para a consolidação orçamental, o FMI passa a fasquia para o dobro e pede 900 milhões em 2017 e enumera os 6 maiores riscos para e economia portuguesa que incluem a fuga dos investidores para activos seguros e abandono da dívida pública portuguesa.

Note-se que na avaliação do programa de ajustamento, o FMI considerou, certamente com grande desgosto do pessoal da geringonça, «the program was a qualified success, given that it helped stabilize the Portuguese economy, but concerns about debt levels remain.»

Como o FMI observou no «Overview of the ECB’s Asset Purchase Program» (ver este post de ontem do Impertinente), o impacto do APP (Asset Purchase Program) do BCE no crédito limitou-se praticamente ao crédito para habitação, Não admira, por isso, que a venda de casas tenha aumentado 8% no 1.º trimestre e 30% no 2.º trimestre.

Retornando à novela da Caixa, recordam-se de Costa a dizer há um mês que  «a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos (CGD) é “uma boa solução” e que “não atinge défice nenhum”»? Pois bem, agora o «Governo admite que Eurostat venha a incluir no défice injeção de capital na CGD» e daí a possibilidade de «dividir aumento de capital da CGD em duas tranches». À força de mentiras e meias-verdades, talvez nem o próprio governo saiba já qual é a verdade inteira.

Termino a crónica desta semana com a novela estreada recentemente do aumento do «IMI dos ricos» anunciado por Mariana Mortágua - mais uma ministra da Finanças de facto da geringonça. Por falta de jeito para scripts de novelas, remeto para João Miguel Tavares que faz isso bastante bem neste seu artigo em que se fala de traição, algo que não podia faltar numa novela.

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