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19/09/2016

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (49)

Outras avarias da geringonça.

As agências de rating, que nos tempos do governo socialista de Sócrates eram as grandes responsáveis pela subida dos yields, desempenham agora para a geringonça o papel de oráculos benévolos (selectivamente, bem entendido), como foi o caso da nota da Moody's considerando baixo o risco de resgate e confortável a posição de financiamento com uma almofada de liquidez de 12 mil milhões, cortesia do governo anterior, recorde-se.

Almofada de financiamento, equivalente a um ano, que segundo Daniel Bessa escreveu no caderno de Economia do Expresso, o governo pretende reduzir para o equivalente a 6 meses, expediente que mostra bem estar Costa disposto a tudo para prolongar a sua vida política.

Nas entrelinhas do discurso oficial da geringonça, de vez em quando, há uma distracção e alguém fala verdade. Foi o caso do ministro das Finanças que perante uma pergunta ardilosa da CNBC confessou ingenuamente que a sua principal missão é evitar o segundo resgate. O chefe Costa desmentiu vigorosamente a possibilidade de um resgate e usou a sua mais fina ironia para sugerir a Passos Coelho que se entretivesse com a caça ao Pokemon.

Quem não anda a caçar Pokemons são os investidores cada vez mais reticentes em relação à dívida portuguesa, o que se reflecte nas condições de financiamento mais agravadas. Comparem-se no diagrama seguinte os yields da dívida a 10 anos de Portugal e Espanha, um país que com um governo de gestão há muitos meses. É caso para dizer que os investidores concedem a Espanha o benefício da dúvida e a Portugal o prejuízo da dívida.

Yields de Espanha e Portugal (Fonte: Bloomberg)

Pokemons também não parece que interessem À UTAO que vê em cada folga imaginada por Centeno um possível buraco. Desta vez foi uma folga de 97 milhões de euros nas despesas com pessoal que a UTAO vê uma provável derrapagem. Teodora Cardoso do Conselho de Finanças Públicas também não parece ter fé nas projecções do governo e prevê um défice superior, um crescimento inferior e concluiu na conferência de imprensa que «está bastante visível que a estratégia económica não funcionou».

Segundo os dados publicados pelo Eurostat, o défice da balança comercial português atingiu 5,6 mil milhões e é o quarto mais elevado da União Europeia, enquanto o investimento das empresas em Portugal é o segundo que mais caiu (-27%, a maior queda é o da Grécia com -48%) entre o período anterior à crise e os 12 meses terminados em Março deste ano, contrastando com a Irlanda que aumentou 121%.

 Já em tempo escrevi aqui sobre o Programa Novas Oportunidades ressuscitado com o nome Qualifica e referi os 50 milhões de euros destinados a distribuir diplomas que não valeriam o papel. Pois bem, tomei conhecimento por aqui que o investimento total do Qualifica atingirá 1,6 mil milhões, ou cerca do dobro das medidas de combate ao insucesso escolar. Ou seja, em vez de se estancar a produção de novos iletrados dá-se prioridade a atribuir diplomas aos iletrados já existentes.

Em matéria de impostos a geringonça queimou os últimos cartuchos da sua inexistente credibilidade. Depois de ter escrito no programa de governo que «um tratamento fiscal e justo implica estabilidade e previsibilidade nas regras relativas aos impostos, para que as pessoas e as empresas possam ter confiança para tomar decisão», o governo prepara-se para fazer várias alterações cuja lógica não é nenhuma e cujo propósito se limita a extorquir mais dinheiro para prolongar a sua periclitante vida.

Como se o quê não fosse suficientemente mau, o como consegue ser pior e o novo imposto para os proprietários de imóveis foi anunciado pela líder berloquista Catarina Martins gerando uma cena de ciúmes com os comunistas. Ao mesmo tempo que se conhecem aumentos de impostos, o ministro das Finanças garante sem corar que «tal como fizemos em 2016, há uma redução da carga fiscal no OE2017, na proposta de orçamento que vamos entregar», depois de ter dito uns dias antes no parlamento «para que os impostos directos possam descer, os indirectos têm de subir», o mesmo que dizer que um governo socialista admite tornar o sistema fiscal mais regressivo.

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