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19/12/2015

Presunção de inocência ou presunção de culpa? (26) – Apanha-se mais depressa um mentiroso do que um coxo. Se for um psicopata leva um pouco mais de tempo (2)

Continuação de (1)

«Palavra a José Sócrates (TVI): "Quando fui estudar para Paris, ·a primeira decisão que tomei foi pedir um empréstimo à Caixa · Geral de Depósitos de 120 mil euros. Em 2012, a minha mãe vendeu o seu apartamento [no prédio Heron Castilho], deu-me a parte que me devia dar [N.R.: 75% de 600.000 euros, o que totaliza 450.000 euros] e isso deu-me para viver até ao final de 20l2. Entre o momento que saí do Governo até ao final de 2012, essas foram as minhas fontes de rendimento? Basicamente, a doação da casa da minha mãe."

Palavra a José Sócrates (Expresso, 19 de Outubro de 2013): "Quando perdi as eleições (em Junho de 2011], telefonei à minha gerente de conta e pedi um empréstimo ao banco de 120 mil euros. Um ano sem nenhuma responsabilidade e levando um filho comigo. Gastei o dinheiro todo. Assim fui para Paris, em vez de, mais uma vez, pedir dinheiro emprestado à minha mãe."

Palavra a José Sócrates (TVI): ''A partir de 2013 comecei a trabalhar e comecei a ganhar dinheiro [N.R.: No início de 2013, Sócrates assinou um contrato de 12.500 euros mensais com a Octapharma, a que se seguiu um segundo contrato de 12.500 euros em Maio de 2014], e ganhava razoavelmente. Mas a verdade é que em 2013, porque o meu filho mais novo ainda estava em Paris e eu estava em Lisboa, as minhas despesas cresceram muito, e por isso, em 2013, apesar de já estar a trabalhar, recorri a empréstimos do meu amigo Carlos Santos Silva. Ele emprestou-me dinheiro durante cerca de um ano, até porque quando fui detido, em Novembro [de 2014], eu já ganhava·25.000 euros por mês e tinha a expectativa de poder pagar tudo o que lhe devia e rapidamente."

Palavra à matemática: José Sócrates afirmou há dois dias na TVI - foi ele quem o disse, não eu, nem o Ministério Público, nem o Correio da Manhã - que em ano e meio, entre Junho.de 2011 e o final de 2012, gastou 120.000 euros do empréstimo da CGD e 450.000 euros do dinheiro da casa da mãe, o que totaliza 570.060 euros em 18 meses. José Sócrates afirmou também que só em 2014 tinha pedido três empréstimos à Caixa Geral de Depósitos, o que credibiliza as notícias que indicam que até à sua prisão ele contraiu mais quatro empréstimos, de 25.000, 75.000, 40.000 e 30.000 euros (total: 170.000 euros). A isso se somam pelo menos 250.000 euros ("As contas ainda não estão completamente saldadas", afirmou) emprestados por Carlos Santos Silva, até à data da sua prisão. Contas feitas, estamos a falar de 1 milhão de euros em pouco mais de três anos. Cerca de 25.000 euros por mês.

Para que fique bem claro: na entrevista à TVI, José Sócrates apresentou-se como um ex-primeiro-ministro sem rendimentos, que à custa de empréstimos, mãe e amigo gastou 1.000.000 euros para tirar um mestrado em Paris. Sócrates entende que isto não é “vida faustosa". "Onde é que está o luxo?", perguntou. Digamos que para quem está alegadamente falido, o seu conceito de luxo é muito original. Contudo, a questão não está no luxo - está no facto de.a frase "tinha a expectativa de poder pagar tudo o que devia [a Santos Silva] e rapidamente" ser uma mentira descarada. Mesmo a receber 25.000 euros (brutos) por mês, ele jamais conseguiria pagar rapidamente aquilo que devia com o nível de vida que levava, até porque, como disse, se não tivesse sido preso, continuaria em Paris para tirar o doutoramento. Não é só o mundo inteiro que está contra Sócrates. É o mundo inteiro, a lógica e a matemática.»

Retrato de Sócrates pelo próprio, João Miguel Tavares no Público

Francamente não me parece nada estranho Sócrates ser um mentiroso compulsivo – tive dez anos para me habituar. Também não estranho a solidariedade dos correligionários e cúmplices e dos centos de abrunhos que o visitaram em Évora. Já me suscita mais estranheza a falta de inteligência com que Sócrates gere as suas mentiras, sendo certo que ser um mentiroso bem-sucedido requer uma excelente memória, uma inteligência acima da média e, claro, uma grande ousadia. Talvez estejamos, uma vez mais, perante mais um trilema.

Ainda mais estranheza me causa a lengalenga da presunção de inocência com que luminárias como Miguel Sousa Tavares e Clara Ferreira Alves vêm justificando o seu branqueamento do animal feroz.

1 comentário:

Anónimo disse...

Há séculos que prego — sou um pregador (acordez) inato, v.g., só tenho um martelo.
Prego que um inteligente não é esperto e que um esperto não é inteligente.

Características (ao modo de Microsoft, propriedades), que nunca andam juntas.

Aliás nunca ouvir falar, nem ler, sobre inteligência saloia.

O esperto é um bicho — valha-lhe o PAN. E até — voz populi — "quando um gajo não sabe foder, até os colhões estorvam".

Grande povo!

O abraço, e que me perdoem a má palavra.