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17/12/2015

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (12)

Outras avarias da geringonça.

O aumento do salário mínimo tem sido um terreno fértil para cavar as fundações da geringonça e cultivar equívocos. Um dos melhores foi do Público que titulou «Subida do salário mínimo custará no máximo 0,16% às empresas», sem perceber que esse máximo não é o máximo, é uma média do aumento de custos com salários em que entram desde serviços financeiros, onde o salário mais baixo é um múltiplo do salário mínimo, à profusão de micro empresas, em que o salário médio é praticamente igual ao salário mínimo.

No meio do nevoeiro conceptual e factual a poucos ocorre que o actual salário mínimo português é já 80% da média da EU28, muito superior ao salário médio que não passa de 57% da média EU28. De onde inevitavelmente o aumento do primeiro terá como consequência a redução do segundo porque as empresas terão de baixar custos noutros salários.

E ainda a menos ocorre que do aumento do salário mínimo ao nível que já se encontra e na situação actual da economia resultará desemprego, como o ministro das Finanças concluiu nos seus papers publicados antes de começar a ler os papéis que Costa lhe meteu nas mãos, e, na falta de inflação que o velho Escudo proporcionava, resultará aumento dos preços dos bens e serviços não transaccionáveis ou, dito de outro modo, a redução do poder de compra dos restantes salários e aumento das importações de bens transaccionáveis. O que não resultará de certeza é o crescimento real da economia porque a produtividade dos cerca de meio milhão de trabalhadores que receberão o salário mínimo de 530 euros fica na mesma.

[Ver aqui e aqui dois posts do Insurgente particularmente elucidativos sobre o salário mínimo]

Quanto às fundações da geringonça, sendo natural e previsível que comecem a estar abaladas pelas diferenças entre as várias secções, já não é tão previsível que até no governo o coro se desafina a propósito do aumento do salário mínimo entre o ministro e o secretário de Estado.

Entretanto, pela mão da geringonça, prossegue «a tomada do poder pelas corporações que vivem do Estado» como é visível nas razões mal-amanhadas para justificar a desconvocação da greve dos transportes, como aqui escalpeliza Helena Matos.

Quanto à redução da sobretaxa do IRS foi mais um exemplo de incumprimento das promessas (Costa dizia, ainda há poucos meses, era para acabar), de demagogia e mentira (ao dizerem que os rendimentos até 7 mil euros ficam isentos de uma sobretaxa que nunca pagaram), de fantochadas (como a do PCP que apresenta uma proposta alternativa e vota também a proposta do governo), de golpes encapotados (o aumento da progressividade do IRS por via a progressividade da sobretaxa e pela inevitável alteração à socapa dos escalões para manter a receita).

Sobre a educação preparai-vos para o pior. O apparatchik comunista que controla a Fenprof disse à saída de uma reunião com o ministro da Educação: «saímos com expectativas não frustradas e até reforçadas». Traduzido em português corrente, isso significa que o apparatchik ficou com fundadas esperança que os comunistas reforçarão o seu controlo sobre a educação em Portugal que ele pensa deve servir o PCP, em primeiro lugar, e a corporação dos professores, em segundo.

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