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08/01/2004

BLOGOSFERA: Gostava de ser pobre, mas com muito dinheiro.

Continua aqui a polémica lançada pelo Jaquinzinhos acerca da "tola definição de pobreza relativa”. Não é bem uma polémica. É mais o Jaquinzinhos, feito Madre Teresa de Calcutá, a tentar ilustrar mentes estanques a qualquer argumento que comprometa o seu quod est demonstradum.
Sem querer entrar no tanque das piranhas, convém esclarecer que nesta polémica se fala ao mesmo tempo, e se misturam, três coisas distintas: a pobreza, a desigualdade e a sua percepção social. Não esquecendo que os efeitos sociais mais devastadores resultam precisamente desta última.
O indicador “pobreza relativa” não é um indicador de pobreza, é um indicador da desigualdade na distribuição do rendimento, de resto muito melhor medida pelo índice de Gini (ver a definição deste índice por exemplo aqui). Ao contrário deste último, que é uma medida neutra da desigualdade, a “pobreza relativa” é um indicador não científico, arbitrário e, em consequência, altamente manipulável pelos fazedores de opinião (quem quiser aprofundar este tema pode ir, por exemplo, aqui).
Apesar dos países pobres terem frequentemente uma desigualdade maior (veja-se o exemplo paradigmático do Brasil) do que a dos países ricos (por exemplo os países nórdicos), podem existir países (o Afeganistão dos talibã é, possivelmente, um bom exemplo) que, apesar de paupérrimos, têm uma distribuição de rendimento muito mais igualitária do que os países ricos.
É claro que a percepção da pobreza pode ser muito mais forte num país rico com forte desigualdade, do que num país pobre relativamente igualitário. Daí poderá resultar uma conflitualidade social superior no país rico desigual à do país pobre.
Também é claro que seria bom ter o melhor de dois mundos – a riqueza reflectida num elevado rendimento disponível per capita de braço dado com a igualdade, medida por um baixo índice de Gini. Seria bom, se fosse possível. Onde a porca torce o rabo é que a desigualdade é uma filha natural da liberdade, e para a eliminar é preciso matar a mãe (a história mostrou no passado e no presente inúmeros exemplos destes assassinatos - dos presentes aponte-se a Coreia do Norte, uma democracia d'après o camarada Bernardino Soares, como um dos países mais igualitários do mundo).
Mas tudo isto é indiferente a quem quer demonstrar a tese marxista do empobrecimento progressivo do extinto proletariado, que deverá conduzir à segunda revolução socialista que se iniciará em breve com uma nova tomada do Palácio de Inverno. Já agora recordemos que Marx não se referiu à pobreza relativa mas à pobreza absoluta.
Eu, pela minha banda, concordo com o comunista (e rico) Pablo Picasso: “Gostava de ser pobre, mas com muito dinheiro”.

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