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07/08/2014

ESTADO DE SÍTIO: Dois pilares da III República em risco de fractura (II)

Duas instituições da III República atravessam crises profundas, visíveis nas lutas fratricidas entre os dirigentes que disputam a liderança. Não é certamente um acaso a simultaneidade das crises do PS, os donos do regime, e do GES, os donos do banco do regime. Uns e outros, nas últimas duas décadas, e muito em especial durante o consulado de José Sócrates, surgiram associados nas obras, nas manobras, nas conspirações e nos golpes do regime.

Escrevi o parágrafo precedente há 6 semanas, mas faltou apontar uma outra característica comum às duas instituições: ambas usaram e abusaram da alavancagem. No caso do PS, a vítima da alavancagem foi o país. No caso do GES foi o país e foram as famílias do grupo. Aguardemos para ver se às famílias socialistas sucede a mesma coisa das famílias do GES. Para já temos uma disputa promissora.

Hoje poderia acrescentar que o pilar GES já não está em risco de fractura. Entretanto colapsou. Pela minha parte, deixei de fazer qualquer esforço sério para investigar o assunto, porque só valeria a pena fazê-lo quando praticamente ninguém ligava bóia ao caso. Agora que até os motoristas de táxi têm opinião sobre a matéria vou partir para outra.

Passei a estar mais interessado nos mecanismos de poder que tornam possíveis estas coisas. E, nem de propósito, estive a almoçar com um amigo que, apesar de não ter relação directa com o GES, conhece muita gente de lá e de me traçou um quadro da fase ricardiana da cultura do grupo que tem muito pano para mangas e de que sou vou agora dar conta de um resumo filosófico.

É uma mistura explosiva de ambição e poucos escrúpulos moralmente autojustificados pelos «sofrimentos» passados, servida por charme e sedução para criar um carisma que leva a gente fraca (mais ou menos 90% em média das pessoas) a seguir fiel e cegamente o líder e leva este a rodear-se cada vez mais de fiéis, tudo resultando num nevoeiro informativo e ético que tolda a percepção da realidade do que é certo e do que é errado.

É o resultado do que disse Lord Acton: «o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente». Tal como existe o jornalismo de causas, que confunde os factos com opiniões e distorce os factos para os conformar às opiniões (exemplo: praticamente toda a mídia portuguesa infestada de esquerdalhada), e tal como existe a ciência de causas que faz a mesma coisa com os factos científicos para os conformar às boas causas (exemplo: o aquecimento global, que pode ser que exista mas não pelas razões que o vendem), também existe a gestão de causas (dispenso-me de dar mais exemplos).

1 comentário:

Jaime Cristóvão disse...

A descrição que faz no penúltimo parágrafo coincide quase ponto por ponto com o que se passou na década de 30 do Séc. XX na Alemanha e que descambou no que sabemos.